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Entre corpo e subjetividade: uma reflexão sobre passar por processos cirúrgicos e suas múltiplas variáveis

Passar por um processo cirúrgico, independentemente de sua complexidade, é uma experiência que atravessa dimensões muito além do corpo. Embora a intervenção se materialize no organismo físico, seus desdobramentos alcançam o emocional, o psicológico, o social e até o existencial. A cirurgia, em qualquer contexto, rompe com a rotina, suspende a sensação de normalidade e nos coloca frente a frente com nossas vulnerabilidades mais profundas.

O primeiro impacto geralmente é o da antecipação: exames, laudos, orientações, riscos e assinaturas. Antes mesmo do procedimento, o sujeito já está emocionalmente implicado. Nesse período, convivem medo, alívio, urgência, dúvidas, expectativas e a pressão de tomar decisões que nem sempre são simples. Para muitos, o pré-operatório representa a fase mais ansiosa, marcada por um futuro incerto e por uma confiança quase absoluta na equipe responsável. É um momento em que o controle se dilui, e o paciente precisa se colocar em posição de entrega — algo que nem sempre é fácil.

Durante o procedimento, há uma dimensão simbólica que merece destaque: entregar o corpo adormecido para que outros o manipulem. Mesmo inconsciente, esse gesto carrega um grau profundo de confiança e vulnerabilidade. É um ato que revela o quanto a experiência cirúrgica é mais do que técnica; ela é também relacional. A forma como a equipe acolhe, orienta e lida com o paciente influencia diretamente no significado subjetivo dessa vivência.

No pós-operatório, a cirurgia se impõe de maneira concreta. Dor, limitações físicas, dependência, reestruturação de rotinas e, muitas vezes, a sensação de estranhamento com o próprio corpo fazem parte dessa etapa. A recuperação não é linear, e oscila entre avanços e retrocessos. O corpo responde no seu tempo, e isso nem sempre coincide com o desejo do paciente. Esse descompasso pode gerar frustração, ansiedade ou desânimo, principalmente quando o ritmo de melhora é mais lento do que o previsto ou quando os desconfortos se prolongam.

Há ainda as variáveis emocionais, frequentemente negligenciadas. Cirurgias, sobretudo as de grande impacto, ativam memórias, medos antigos e questões de autoestima, identidade e autonomia. O sujeito se vê diante da sua própria vulnerabilidade, redescobrindo limites e produzindo novos sentidos sobre si. Em alguns casos, sentimentos como tristeza,

irritabilidade ou exaustão emergem justamente porque o corpo não é apenas físico: ele é o território onde a história emocional se inscreve.

Também não se pode ignorar o impacto social. A necessidade de afastamento, a dependência de familiares, as mudanças na rotina de trabalho e estudo, e até o olhar dos outros sobre o processo influenciam a forma como a pessoa vivencia a cirurgia. Em sociedades que valorizam produtividade e autocontrole, permitir-se pausar e ser cuidado pode ser um desafio tão grande quanto a recuperação física. A pressão externa e interna para “voltar ao normal” rapidamente muitas vezes contrasta com as reais demandas do corpo e da mente.

Ao refletir sobre processos cirúrgicos, fica evidente que eles não são eventos isolados, mas experiências complexas que atravessam diferentes camadas do sujeito. Reconhecer essa complexidade é essencial para que o cuidado seja integral. Para além das técnicas médicas, é necessário acolhimento, informação adequada, suporte psicológico e redes de apoio que respeitem o tempo e o ritmo de cada recuperação.

Passar por uma cirurgia, em suma, não é apenas “resolver um problema de saúde”. É atravessar um processo que reorganiza significados, desafia percepções, exige autocompaixão e transforma a relação com o próprio corpo. É um percurso que, quando encarado com cuidado e suporte, pode promover não apenas cura física, mas também crescimento emocional e reconstrução subjetiva.

Referências 

APA – American Psychological Association. The psychological impact of medical procedures and recovery. Washington, 2020. 

MORGAN, S.; KING, L. Health Psychology: Clinical Manifestations and Patient Recovery. New York: Routledge, 2019. 

BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes para o cuidado em situações cirúrgicas e recuperação pós-operatória. Brasília, 2021.

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