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A loucura como punição da desobediência feminina: uma análise da personagem Laura de Ciranda de Pedra

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No início do século XX, as mulheres enfrentavam um mundo que frequentemente as rotulava como histéricas, inadequadas ou loucas, em especial quando suas emoções, desejos ou comportamentos não seguiam o roteiro esperado pela sociedade. A mulher com poucos direitos, com a liberdade limitada, era sempre tutelada por um homem: pai, marido ou irmão.

Dessa forma, o casamento, principalmente nas classes mais abastadas, era para a mulher um destino quase inescapável, e fugir a esse roteiro poderia ser patologizado como “loucura”, diagnóstico que era, muitas vezes, a resposta conveniente de um sistema patriarcal incapaz de lidar com a subjetividade, a frustração e a contenção do desejo feminino.

Assim, é interessante perceber que Michel Foucault (2014), em sua obra “A História da Loucura”, propõe uma olhar diferenciado para o conceito de adoecimento mental. A dita insanidade se mostra como construção histórica, revelando que está profundamente ligado a mecanismos de poder e controle moral. Ao analisar as fronteiras da razão, o filósofo evidencia como, no século XVII,  a instituição familiar heteronormativa se apropriou do próprio conceito de sanidade:

“Não é mais o amor que é sagrado, mas apenas o casamento, e diante do tabelião: ‘Fazer amor só com o contrato de casamento’. A instituição familiar traça o círculo de sua razão: para além dele surgem como ameaça todos os perigos do desatino; lá o homem se entrega à insanidade e a todos seus furores” (Foucault,p.91, 2014).

A partir dessa reflexão, compreende-se que a sociedade passou a tratar o casamento como a única via digna de reconhecimento, esvaziando o amor de sua legitimidade,  caso este não estivesse atrelado a um contrato legal. A família burguesa traçou, portanto, um círculo estrito de normalidade: qualquer afeto vivenciado para além das amarras matrimoniais passou a ser visto como uma ameaça, empurrando automaticamente o sujeito transgressor ( principalmente mulheres) para o território da insanidade. 

Diante desse constructo, a loucura feminina passa a ser lida como um fenômeno relacional, um sintoma do embate entre o seu desejo/liberdade e o discurso de poder que  a enquadraria para mantê-la sob controle sociocultural.

Trazendo a crítica teórica para a ficção, deparamo-nos com Laura, a trágica e complexa figura central do romance Ciranda de Pedra  da autora Lygia Fagundes Telles, (2009). Laura é uma mulher jovem, esposa pertencente à classe burguesa de meados do século XX, porém aprisionada em uma casamento infeliz.Ela vive sob a opressão de seu marido, Natércio Prado: um homem aristocrático, exigente, distante e emocionalmente sádico. Laura não tem voz ativa, autonomia ou identidade própria além de suas funções de esposa e mãe de três filhas. Sua existência é marcada por uma profunda asfixia existencial, submetida às regras rígidas de uma sociedade de aparências.

É justamente para escapar dessa anulação de si mesma que Laura comete a desobediência imperdoável contra a moralidade da época: ela abandona Natércio para viver com o amante, o médico Daniel e ao trocar a frieza da mansão pela promessa de afeto genuíno, Laura não estava apenas buscando a felicidade amorosa; ela estava reivindicando a posse sobre a própria vida. Inclusive, a história foi adaptada para a telenovela em duas versões (1981 e 2008)

A retaliação contra Laura não se dá por vias legais, mas pelo esmagamento psicológico e social. A sociedade que tolera e acoberta os desvios masculinos é implacável com a mulher que rompe o contrato conjugal. Ao sair de casa, Laura é afastada de sua rede de pertencimento: perde o status, é lançada na instabilidade financeira e, o golpe mais letal de todos, é separada de suas duas filhas mais velhas, que permanecem sob o domínio financeiro e ideológico do ex-marido.

A personagem Laura cria apenas a caçula Virgínia e passa a ser sufocada por um exclusão social que culmina em “sintomas”. Natércio, mesmo à distância, continua a operar como a personificação do sistema de controle, garantindo que a ex-esposa definhe na culpa.

Lygia descreve em sua obra com uma precisão quase clínica a deterioração mental de sua personagem, que passa a sofrer de lapsos de memória, melancolia profunda, paranoia e crises de desconexão com a realidade. A sutileza e a intensidade da escrita, bem como a percepção da personagem pela filha Virgínia, revelam que a loucura de Laura é a internalização do discurso que a condena. A mente dela se fragmenta porque a dissonância cognitiva entre o seu desejo por liberdade e a violência da exclusão social é grande demais para ser suportada.

O amante, Daniel, embora afetuoso, revela-se impotente diante do peso implacável das instituições. Por ser médico, ele tenta medicá-la e a observa definhar, ilustrando a incapacidade da medicina tradicional de curar uma dor que é, em sua raiz, política e estrutural. Percebe-se que a fragmentação psicológica de Laura atinge um limite tão insuportável que a narrativa culmina em uma tragédia absoluta: encurralado pelo avanço da doença mental e pelo sofrimento irreversível de Laura, Daniel provavelmente a mata e, logo em seguida, comete suicídio.

Tal episódio não é descrito de maneira explícita; mais uma vez, Lygia utiliza-se das entrelinhas e de pistas na vivência de outra personagem para revelar tamanha tragédia. A morte do casal de amantes atesta que a loucura de Laura não foi uma fatalidade biológica, mas uma punição exemplar exigida pela sociedade para provar que, fora das amarras do casamento, não há sanidade ou sobrevivência possível.

Indicamos a leitura da obra para entender melhor como a escolha de Laura impactou a vida da personagem Virgínia na sua vida adulta. A leitura do livro é essencial e nos instiga a tirar a loucura do campo puramente biológico para colocá-la no centro do debate sobre gênero e controle social. 

Destaca-se a genialidade de Lygia Fagundes Telles ao expor as fraturas de uma sociedade, torna-se claro que, por trás de muitos diagnósticos do passado, escondia-se apenas o desespero de quem tentava respirar fora da gaiola. 

A literatura traz vários exemplos e personagens que evidenciam a loucura como forma de punição do desejo fora dos padrões socioculturais. Nesse sentido, a psicologia contemporânea não pode vendar os olhos para esses fenômenos, mas é preciso abrir debates sobre as assimetrias de gênero, a garantia de  direitos e a defesa da liberdade.

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Referências Bibliográficas 

TELLES, Lygia Fagundes. Ciranda de pedra: romance. Posfácio de Silviano Santiago. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

FOUCAULT, Michel. História da loucura: na Idade clássica. Tradução de José Teixeira Coelho Neto. 10. ed. São Paulo: Perspectiva, 2014.

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