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O avesso do espelho: uma leitura psicossocial de Ana Clara em “As Meninas”

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Publicado em 1973, em um dos períodos mais duros da ditadura militar brasileira, “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles, constrói, por meio do fluxo de consciência e da alternância de vozes (polifonia), uma narrativa atravessada por múltiplos pontos de vista, uma escrita que desloca o leitor e revela, em camadas, as tensões de um país marcado por silêncios, desigualdades e rupturas, no período da Ditadura Militar.

No interior do Pensionato Nossa Senhora de Fátima, as trajetórias de três jovens universitárias com origens profundamente distintas se cruzam. Lorena, envolta em privilégios e refinamento, habita um mundo protegido pela estética e pela tradição familiar. Lia, impulsionada pela militância política, carrega o peso de um tempo histórico que exige posição e enfrentamento. Entre elas, Ana Clara se move como uma presença instável, e é justamente nela que a narrativa se torna mais contundente.

Frequentemente tendo sua leitura reduzida a uma figura marcada pelo vício ou pela autodestruição, Ana Clara revela sua densidade quando observada a partir de uma perspectiva psicossocial. Ela não é apenas um caso individual, mas a expressão mais aguda de uma realidade social excludente. Enquanto Lorena e Lia possuem formas de sustentação, seja o capital simbólico, seja o político, Ana se confronta com o desamparo em sua forma mais radical.

Seu corpo e sua mente se tornam o lugar onde as pressões externas se inscrevem. A fragmentação de sua fala, marcada por rupturas e repetições, traduz essa experiência limite, “estou lúcida feito uma cachorra[…] roque-roque” (p. 50), revelando uma consciência que oscila entre a lucidez e o colapso. Não se trata apenas de desorganização psíquica, mas de uma subjetividade atravessada por violências que excedem o plano individual.

Sua tentativa de permanecer na universidade, e, de forma mais ampla, em espaços que historicamente não lhe pertencem, evidencia um movimento de busca por pertencimento. A escolha pela Psicologia pode ser lida como um esforço de compreender a si mesma, de dar sentido ao que, internamente, parece disperso. No entanto, a falta de condições concretas de permanência a empurra para fora. O abandono do curso não aparece como falha pessoal, mas como efeito de uma estrutura que não sustenta trajetórias como a sua.

Esse processo tem raízes profundas. A infância de Ana Clara não se organiza como lembrança, mas como marca. “Minha infância é inteira feita de cheiros” (p. 37), ela diz, e, nesse enunciado, revela-se uma memória que não é narrativa, mas sensorial, corporal. A precariedade, a violência e o abandono não são apenas conteúdos do passado… são experiências que continuam a operar no presente. Frases como “lugar de puta é na rua” (p. 38) condensam um universo simbólico que delimita, desde cedo, o lugar social que lhe é destinado.

Diante disso, a construção de uma persona surge como estratégia de sobrevivência. Para circular em um meio que a rejeita, Ana inventa versões de si: um passado mais nobre, um presente mais estável, um futuro possível. A afirmação “não sobrou ninguém, ninguém, ninguém” (p.42) evidencia não apenas a solidão, mas a ausência de referências a partir das quais uma identidade poderia se sustentar. Mentir, nesse contexto, não é desvio moral, é tentativa de existir.

O uso de substâncias se insere nessa mesma lógica. Não como busca simples por prazer, mas como forma de suspensão da realidade. Uma tentativa de interromper, ainda que momentaneamente, a experiência de não pertencimento.

A relação com Lorena e Lia evidencia tanto o afeto quanto os limites do cuidado. Lorena oferece acolhimento por meio da estética, banhos, objetos, perfumes, criando um espaço de proteção sensível, ainda que provisório. Lia, por sua vez, tenta intervir a partir da razão e da urgência política, reconhecendo com mais clareza os riscos que cercam a amiga. Ainda assim, ambas esbarram em um limite, o de não alcançar a dimensão estrutural do sofrimento de Ana Clara.

É nesse contexto que emerge a figura do noivo rico. Mais do que uma fantasia individual, ele funciona como uma construção simbólica que projeta estabilidade, reconhecimento e pertencimento. A frase “liberdade é segurança. Se me sinto segura, sou livre” (p. 41) sintetiza essa lógica: não se trata de desejo de ascensão superficial, mas de uma tentativa de escapar da instabilidade material que define sua existência.

A imagem da ponte “a ponte me levaria pra longe” (p. 38) reforça esse movimento. Trata-se de uma tentativa de travessia: sair de uma história marcada pela precariedade e alcançar outra, onde seja possível existir sem se esconder. No entanto, essa travessia permanece no campo da imaginação.

Quando a realidade se impõe, na forma do vício, da marginalização e do esgotamento do corpo, os mecanismos de sustentação entram em colapso. O que resta, em alguns momentos, é o apelo ao sagrado, como uma tentativa última de reorganização simbólica diante da desintegração.

O desfecho de Ana Clara não pode ser lido apenas como tragédia individual. Ele opera como uma metáfora potente de uma sociedade que administra suas contradições por meio da ocultação. O gesto das amigas ao limpar, vestir, maquiar o corpo, revela mais do que cuidado, revela a necessidade de encobrir aquilo que não pode aparecer.

Nesse sentido, compreender Ana Clara “pelo avesso do espelho” implica reconhecer que sua trajetória não é um desvio, mas um efeito. Sua destruição não é isolada, é produzida por uma ordem social que distribui de forma desigual as possibilidades de existir.

Lygia Fagundes Telles: a escuta do invisível

Uma das vozes mais importantes da literatura brasileira, Lygia Fagundes Telles (1918–2022) construiu uma obra marcada pela atenção às contradições humanas e às zonas mais silenciosas da experiência. Ao longo de sua trajetória, transitou com força entre contos e romances, consolidando-se com obras como Ciranda de Pedra (1954), Antes do Baile Verde (1970) e As Meninas (1973). 

Sua escrita articula, com precisão e sensibilidade, o íntimo e o social. Seus personagens não são figuras prontas, mas sujeitos em movimento, atravessados por conflitos afetivos, sociais e existenciais. Em “As Meninas”, essa escuta se aprofunda. Em plena ditadura, Lygia não se limita a narrar o contexto político, mas se volta para aquilo que pulsa no interior das subjetividades, medo, desejo, deslocamento, solidão. Sua literatura sustenta um equilíbrio raro entre delicadeza e intensidade, permitindo que o leitor acesse dimensões muitas vezes invisibilizadas. Mais do que contar histórias, Lygia revela estruturas, e, ao fazê-lo, transforma personagens como Ana Clara em espelhos incômodos de uma realidade que ainda insiste em se repetir.

Ler Lygia é, nesse sentido, não apenas revisitar uma obra, mas atravessar experiências que continuam a ecoar no presente. E talvez seja justamente aí que reside o convite… seguir por outros textos da autora, onde essas vozes, tão frágeis e tão insistentes, continuam a nos interpelar.

Referências

TELLES, Lygia Fagundes. As Meninas. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. 

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