(En)Cena – A Saúde Mental em Movimento

Uma Ode à Girlhood e ao luto pelo potencial desperdiçado na música “This is me Trying”, de Taylor Swift

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Existe uma herança invisível que muitas de nós, meninas e mulheres, carregamos antes mesmo de entendermos o que é o peso: a promessa do brilho. Refiro-me àquelas que cresceram sob o estigma de serem “garotas brilhantes”, crianças prodígios que pareciam antecipar o futuro em cada gesto. 

Existe uma dor muito específica em crescer ouvindo o quanto você é brilhante. O quanto tem potencial. O quanto vai longe. Como se, desde cedo, uma versão futura sua já tivesse sido construída coletivamente – por professores, familiares, colegas, pela sociedade inteira. Uma versão extraordinária, bem-sucedida, admirável. E, de algum modo, você passa a viver em função dela.

Existir não é suficiente. Você precisa corresponder. Fomos socializadas para sermos o “potencial” encarnado. Mas o que acontece quando esse futuro chega e a conta não fecha?

Na canção This Is Me Trying, Taylor Swift dá voz a esse descompasso. A letra é um mergulho na experiência feminina de sentir que as rodas, uma vez reluzentes, agora estão enferrujando. É, antes de tudo, o choque entre a expectativa de uma performance perpétua e a finitude humana. Quando olhamos para a nossa trajetória e sentimos o peso dos arrependimentos, não estamos apenas lamentando escolhas passadas; estamos processando o luto pela versão de nós mesmas que nos exigiram ser.

A socialização das meninas exige uma maturação precoce. Espera-se que sejamos polidas, que nos policiemos, que saibamos nos comportar enquanto o mundo ao redor é um caos. O tempo feminino nunca é neutro; há sempre um ritmo esperado – profissional, emocional, social. E quando esse ritmo se quebra, não temos o luxo de ter um descompasso que seja somente interno. Nossa inadequação passa a ser pública e alvo de julgamento.

“I’ve been having a hard time adjusting”, é exatamente como se inicia a canção. É difícil pegar todas as expectativas que foram depositadas em você e tentar ajustar a partir de um momento em que você não é mais… aquela menina de 13 anos. Há um estranhamento inevitável quando a vida adulta chega e você percebe que não é mais aquela menina que parecia prometer tanto. Não porque tenha falhado necessariamente, mas porque a realidade humana é incompatível com a fantasia de performance contínua. Aqueles olhos brilhantes que olhavam para o mundo com sede de conquista tornam-se opacos sob o peso das responsabilidades e a ausência da magia que nos prometeram.

Um dos pontos mais interessantes da música está na constatação: “They told me all of my cages were mental”. Dizem que as grades que nos prendem são mentais, mas raramente admitem que essas construções não são apenas nossas. Elas vêm de toda uma pilha de expectativa das pessoas em relação a gente. Nossas em relação à nós mesmas e ao mundo e ao futuro que nos aguarda. São gaiolas construídas a partir de um ideal de sucesso que nos foi vendido como a única saída.

E aí está a questão de todo o potencial perdido, porque isso é um olhar maldoso em relação ao passado. Estamos olhando para o passado com lentes nostálgicas a partir de um presente que não encanta tanto, mas será que passado, naquela época, encantava ou é só nostalgia?

Olhamos para o que já foi, lamentando o “potencial perdido”. Mas cabe a pergunta: que potencial é esse? De onde ele vem? Podemos chamar de potencial algo que nunca chegou a existir fora da imaginação? Às vezes, o luto que sentimos não é por algo que perdemos, mas por um fantasma – uma ideia mental de uma expectativa que nunca se concretizou.

Essa pressão transborda. Quando o polimento falha, as palavras “atiram para matar”. E o arrependimento volta, porque até na nossa raiva somos cobradas por uma elegância que não cabe em quem está sangrando. E então vem novamente os arrependimentos em relação à tudo, ao que fomos, ao que pensamos, dizemos e nunca seremos. Estávamos tão à frente da curva que a curva se tornou uma esfera; corremos tanto que voltamos ao mesmo lugar, presas na amarra do que “poderíamos ter sido”.

E aqui podemos falar sobre a reflexão, talvez, mais potente até agora, que perpassa por todo o corpo da música, começando pelo nome, “This is me Trying.”

Muitas vezes, a estagnação nasce do medo. É o pavor de tentar, falhar e confirmar que o tal “potencial” era uma mentira. É mais seguro não fazer, mantendo a ilusão de que poderíamos, se quiséssemos, do que enfrentar a frustração da realidade.

E o ponto chave da canção – e da vida – reside no insistente “at least I’m trying”.

Viver com a sensação de ser uma ferida aberta em uma festa onde todos parecem intactos é exaustivo. No entanto, o ato de tentar é o processo de desmantelar o ideal. Tentar é colocar para trás a ideia de um “eu” perfeito que nunca existiu para dar espaço ao “eu” possível que está aqui agora.

A busca por aprovação foi, por muito tempo, um esforço para sermos vistas, para não sermos esquecidas. Receber um elogio, um cumprimento, um “você se destaca e está à frente dos seus colegas”. Mas existe realmente algum tempo certo nessa vida? Uma métrica única que elenque a ideia de sucesso? Entre o flashback de quem fomos, as memórias de guerra do que precisamos performar para sermos reconhecidas como valorosas e a incerteza de quem estamos nos tornando, a nossa humanidade reside justamente na tentativa. 

Talvez as rodas enferrujadas não sejam um sinal de fracasso, mas a prova de que finalmente saímos da vitrine e fomos para a estrada. E a estrada, ao contrário da prateleira, desgasta. Não seria o tentar o próprio processo de viver?

Música: This Is Me Trying

Cantora: Taylor Swift

Álbum: Folklore

Ano de lançamento: 2020

Compositores: Taylor Swift e Jack Antonoff

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