O livro “Amor e Sobrevivência: A Base Científica para o Poder Curativo da Intimidade”, escrito pelo cardiologista Dr. Dean Ornish, apresenta uma descoberta desconcertante para a medicina tradicional: a solidão mata mais rápido do que o colesterol, e o amor é um fármaco potente.
Cumpre destacar que o escritor é famoso por provar que mudanças no estilo de vida podem reverter doenças cardíacas graves e este não é um livro de como fazer, mas uma reflexão dos papéis poderosos que o amor e a intimidade desempenham na sobrevivência. Ao terminar de lê-lo, precisamos refletir: E se fizermos escolhas diferentes?
Nesta obra, Ornish parte de uma constatação empírica em seus grupos de apoio cardíaco, momento em que percebeu que pacientes que seguiam a dieta e os exercícios à risca, mas permaneciam isolados e hostis, não progrediram tão bem quanto aqueles que, mesmo “escorregando” na dieta, mantinham laços afetivos profundos, amorosos e uma comunidade de suporte.
Para estudiosos da psicologia, a leitura é muito interessante, pois a tese central do livro valida a psicossomática da intimidade ao colocá-la como uma necessidade biológica de sobrevivência, e não um luxo para quando temos tempo livre.
O livro é denso em pesquisas, mas Ornish escreve sobre si e como também precisou aprender a amar. Ele apresenta estudos epidemiológicos robustos, mostrando que pessoas solitárias, deprimidas ou isoladas têm de 3 a 5 vezes mais chances de morrer prematuramente, de qualquer causa, do que aquelas que sentem amor e conexão.
Da mesma forma, o autor discorre que a medicina cura (conserta o mecanismo físico), mas o amor sara (traz integridade e sentido); portanto, ele defende ser possível estar curado fisicamente, mas não sarado emocionalmente, e vice-versa. Explica que o “amor” do título não se resume ao par romântico, mas a quaisquer tipo de relações, sendo este sentimento uma capacidade de se mostrar vulnerável.
O que torna este livro indispensável é que ele retira o amor do campo puramente abstrato ou espiritual e busca explicar como a biologia, o sistema imunológico e o sistema cardiovascular reagem à presença de suporte social. O simples ato de falar sobre sentimentos, de tocar e ser tocado, ou de sentir-se compreendido, inunda o corpo com óxido nítrico (que dilata as artérias) e reduz o cortisol (hormônio do estresse).
Para o paciente que chega ao consultório descrente da terapia, achando que “conversar não muda nada”, este livro oferece a prova biológica de que o vínculo terapêutico e as relações sociais alteram a fisiologia humana.
Ao ler Ornish, somos confrontados com o paradoxo moderno: temos mais meios de comunicação do que nunca, mas os índices de solidão nunca foram tão altos. O livro atua como um alerta de saúde pública e sugere que, assim como prescrevemos dietas e exercícios, deveríamos prescrever “rodas de conversa”, “jantares sem celular” e “tempo de qualidade com amigos”.
O livro “Amor e Sobrevivência” é uma leitura que conforta e desafia, pois valida a importância de olhar para as emoções e nos lembra que, no fim das contas, somos animais de rebanho que adoecem na solidão e florescem no acolhimento.
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Ficha Técnica
Título: Amor e Sobrevivência: A Base Científica para o Poder Curativo da Intimidade
Autor: Dean Ornish, M.D
Tradução: Aulyde Soares Rodrigues
Editora: Rocco. Rio de Janeiro, 1998
