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Resenha do livro – Em busca de si mesmo

O livro “Em busca de si mesmo” foi escrito por Marlon Reikdal, um psicólogo junguiano que, durante a pandemia da COVID-19, desenvolveu o programa “Vai pra dentro” no YouTube.  A forma como ele trabalhou o tema do autodescobrimento foi bem diferente, descontraída e com características peculiares e, utilizando da abordagem da Psicologia Analítica, tocou profundamente a maioria dos participantes. O livro Em busca de si mesmo é fruto desse programa, onde o autor aprofunda melhor as questões abordadas no programa e leva os leitores ao mundo desconhecido que ocultamos de nós mesmos. Através dessa leitura, após cada capítulo, é possível ter uma compreensão de nós mesmos e ainda fazer exercícios de reflexões que produzem transformações.

Tendo por base a Psicologia profunda, o livro “Em busca de si mesmo” explora como as pessoas são influenciadas por forças inconscientes e a importância que todos precisam de aventurar e adentrar o mundo interior para assumir a responsabilidade pela própria vida. Embora não substitua a psicoterapia, a obra convida o leitor a refletir sobre conceitos como ego, sombra, persona e self de forma simples e acessível, por meio de analogias que facilitam a aplicação da psicologia analítica no cotidiano, mostrando que a jornada do autoconhecimento é desafiadora, mas essencial para encontrar um equilíbrio entre o que se deseja e o que a vida exige.

O que mais chama a atenção nesse livro é a forma peculiar de tratar a questão do autodescobrimento partindo do auto encontro com seus aspectos sombrios. E, aí, já nos primeiros capítulos, o leitor é desafiado a fazer uma revisão de suas crenças morais e refletir sobre o engodo de “ser melhor”. Passamos a vida inteira sendo orientados por pais, professores e religiosos para deixarmos de ser inadequados, e que devemos nos livrar de aspectos ruins que nos caracterizam e nos compõem, como o egoísmo, a inveja, a vaidade, o orgulho, arrogância e tantos outros elementos. Passamos a vida toda achando que devemos nos livrar disso e nos esforçar para não ser ou ser o oposto disso. O que Freud conclui é que, por tanto querer evoluir, não ter problemas, crescer e se desenvolver, é que o sujeito acaba reprimindo conteúdos que conflitam com seus ideais.

A verdadeira transformação vem da aceitação de quem somos, inclusive nossos aspectos sombrios, levando a uma vida mais autêntica e a relações mais tolerantes e empáticas com os outros.

O que somos hoje é resultado de milhares de experiências, vivências, dores, sentimentos e construções. A aceitação pressupõe olhar com respeito para quem somos e o trabalho consiste em encontrar meios de como isso pode se manifestar com nossos semelhantes. Aceitar quem você é pode ser duro e desestruturante, mas é o caminho da verdadeira transformação.

O conteúdo, longe de ser teórico, é dividido em quatro partes:

Por que será que ficamos tentando nos afastar da nossa real condição, forjando realidades, embelezando artificialmente e escondendo algo que é comum a todos?

Isso acontece porque o reconhecimento da nossa condição humana desbanca o ego de seu pedestal e arrasta-o do mundo da fantasia, que nega a dura verdade de ser humano comum.

Para exemplificar essa nossa condição humana, o autor lista alguns pontos, esclarecendo-os separadamente: O ser humano é frágil. O ser humano é dependente. A solidão é condição humana. O ser humano é dispensável. O ser humano é pequeno. O ser humano é imperfeito.

O livro nos convida a aplicar o conceito de condição humana no nosso cotidiano para favorecer o autodescobrimento. 

E o que tudo isso implica?

Quando aceitamos a nossa condição humana e reconhecemos as nossas próprias imperfeições, fraquezas e erros, isso muda a forma como nos relacionamos com os outros. Esse processo leva a uma vida mais leve e com conexões mais profundas por alguns motivos:

O processo de aceitar a si mesmo, com todos os seus lados “não tão bonitos”, é a chave para se relacionar com o mundo de uma forma mais genuína, empática e tolerante.

Enfim, o que chama a atenção nas obras do Marlon Reikdal é sua proposta de tornar acessíveis os conceitos teóricos da Psicologia Analítica para serem usados no cotidiano. E, por esse motivo, sinto que, às vezes, ele recebe críticas do meio acadêmico junguiano, uma vez que esse esforço em simplificar temas complexos pode diminuir a profundidade do pensamento junguiano, banalizando-o. No entanto, a obra “Em busca de si mesmo” cumpre perfeitamente seu papel de contribuir com o processo de autodescobrimento a que se propõe, considerando os principais temas envolvidos na análise junguiana,  mesmo que, para alguns, a ausência do rigor teórico corra o risco de levar a obra a ser considerada como autoajuda.

 

Ficha Técnica:

Título Completo: Em busca de si mesmo: o poder do autoconhecimento como filosofia

Autor: Marlon Reikdal

Data de Publicação: 2022

Temas Principais: autodescobrimento, comportamento, desenvolvimento pessoal e Psicologia.

Resumo: O livro é um convite para ir para dentro de nós mesmos e iniciar um processo de autodescobrimento, como algo que transcende os aspectos conscientes do ego, mas ir ao encontro de uma dimensão subjacente à consciência, reconhecendo a existência do inconsciente e de uma diversidade de conteúdo, dentre eles os elementos sombrios e as personas que fomos criando ao longo da vida.

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