POSITIVIDADE TÓXICA: A busca exacerbada pela felicidade e a negação das emoções

É fato que a busca incessante pela felicidade tem ganhado espaço nos palcos das palestras através de incentivos ao otimismo e alegria eterna. As redes sociais inundam-se a cada dia de frases e posts que induzem o leitor/seguidor a pensar que estão fora de um padrão criado por este excesso de falas e induções sobre um possível estado de felicidade que em muito lembra negações de certos estados emocionais. É necessário refletirmos sobre o excesso de otimismo e a repressão de sentimentos como angústia, medo, tristeza, frustração ou dor. Não tem nada de mal almejarmos a felicidade, buscarmos situações que nos conduzam a tal estado. O que temos que pensar é se é interessante abandonarmos os nossos sentimentos pautados na justificativa que temos que ser sempre felizes.

Tal fato nos leva a entender que há um menu de opções para a felicidade que não inclui o princípio de realidade básica de sobrevivência e transcendência do ser humano, mas sim apenas o conceito vendido, a preço bastante caro, de que a alegria e pensamento positivo são ingredientes necessários para se alcançar a felicidade. Esse movimento ganhou o nome de “Good vibes Only” que podemos traduzir para “Apenas boas vibrações”. Porém, a psicologia afirma que essa corrente de pensamento deve ser encarada como positividade tóxica.

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A positividade tóxica deriva de correntes positivas em que o indivíduo é levado a pensar que tudo o que ocorre com ele pode ser mudado se ele pensar positivo e ter uma boa dose de otimismo, o que de acordo com a Psicologia Analítica é necessário que o ser humano sinta e exprima seus sentimentos a fim de que o mesmo caminhe ao encontro da sua sombra aproximando-se assim dos processos transcendentes, fazendo as pazes com a sua alma.

Para Jung (OC, vol.4), devemos partir da consciência do Ego para entender os nossos sentimentos, o ego é uma espécie de espelho no qual a psique pode ver-se a si mesma e tornar-se consciente. Na mesma linha de raciocínio, Jung segue definindo consciência como um campo, uma personalidade empírica em que o ego é o sujeito de todos os atos pessoais da consciência. Nesta perspectiva, observamos que não seriam palavras de motivação que elevariam pessoas a estados de felicidade, mesmo que momentâneo, mas sim a consciência dos sentimentos, e a integração de todas as partes da existência (tanto os fatos bons quanto os ruins). Indo mais adiante, Jung ainda foi cirúrgico quando definiu resumidamente a consciência como aquilo que conhecemos e inconsciência como aquilo que ignoramos.

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A busca por receitas prontas e caminhos curtos e rápidos que possivelmente conduziriam à felicidade induz o sujeito a negligenciar sentimentos de tristeza, desalento, desamparo, angústia ou tédio, fazendo-o mais tarde a viver com comparações. No período da pandemia com o alastro desenfreado de lives, palestras sobre otimismo, alegria e entusiasmo, mesmo em meio a dor e tristeza pelas adversidades da tragédia pandêmica causou o efeito positividade tóxica. Ou seja, é aquela que literalmente ignora que nem só de alegria viverá o homem, mas de todas as emoções decorrentes de suas experiências empíricas. Desconsiderar as frustrações e dores é relativizar a nossa própria existência.

É interessante ressaltar que em muitos casos durante a forte exposição dessa positividade tóxica pode ocorrer a erupção de diversos complexos, uma vez que os complexos são capazes de irromper súbita e espontaneamente na consciência e apossando-se do ego do ser. De acordo com Murray (2006), o que se manifesta como total espontaneidade pode entretanto, não ser tão puro assim. Existe com frequência um sutil estímulo disparador que pode ser detectado se observado com atenção um passado recente da pessoa. Neste caso quando o ego é possuído deste modo, acaba assimilado ao complexo e aos propósitos do complexo e o resultado é aquilo que chamamos de acting out que significa passagem ao ato. Nesta situação as pessoas não percebem o que está acontecendo, elas ficam sugestionadas em um estado in the mood, que quer dizer com vontade de fazer. Nesta situação, o psicólogo com suas habilidades em lidarem com as emoções trabalharão no paciente a eclosão dos complexos.

Ratifico que nunca houve e nem há nada de errado em buscar a felicidade, o que de fato existe e é muito incômodo são as enxurradas de promessas sobre como conseguir isso ou aquilo, como transformar seus sentimentos ou até não viver suas emoções, sejam elas de alegria ou de tristeza, relativizando assim os estudos científicos sobre a imensidão da psique humana.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Stein, Murray Jung: O mapa da alma, uma introdução. Tradução Álvaro Cabral 5ª ed. São Paulo: Cultrix 2006.

Sites consultados:

https://podcastmais.com.br/perfeitosferrados/ep47-como-a-positividade-toxica-afetaosrelacionamentos

http://www.xamanicos.com/2019/07/30/positividade-toxica/

https://gazetanm.com.br/positividade-toxica-e-o-mergulho-na-depressa