Gerar ou não gerar um filho não qualifica uma mulher

Por Marina Rocha – Graduada em Administração e Comercio Exterior; MBA em Gestão e Marketing; Hipnoterapeuta pela Omni Hipnoses Trainning Center; Criadora do Áudio Hipnokids, uma ferramenta que se tornou eficaz em casos de crianças com transtorno de sono e medos; Reichiana; Terapeuta Ayurveda; Terapeuta Floral; Mentora Emocional; Escritora nas horas Livres.

Dizem que a natureza é perfeita e que não deveríamos ir contra o fluxo dela. Nós mulheres, historicamente, percebemos que o fluxo era ser aceita por um homem, ser obediente e disciplinada com as demandas da casa e ser mãe. Independente do século em que estamos, esse estereótipo norteia a mente coletiva a tal ponto, que mesmo uma mulher estando convicta em trilhar direções opostas a essa cultura, acaba se sentindo culpada e muitas vezes não sabe nem mesmo dizer o porquê. Sobre esta culpa Badinter salienta que,

No final o século XVII é marcado pelo fato de a sociedade exigir das mulheres um modelo de mãe devota, cuidadosa e dedicada, destinada a exercer as atividades maternas conforme o “instinto maternal”. Para isso, foi preciso “apelar ao seu senso do dever, culpá-la e até ameaçá-la para reconduzi-la à sua função nutritícia e maternante, dita natural e espontânea” (BADINTER, 1993 [1985], p. 144)

Talvez seja a culpa pela culpa. Sentimos culpa por ser culpada por ser um elo quebrado na corrente da maternidade. Como uma maçã podre em uma fruteira viçosa em meio a tantas outras frutas frescas ou como uma persona não grata. Toda decisão contrária a cultura popular gera desconforto, arriscamos até em dizer que o desconforto maior está em quem decide, pois o desafio de sustentá-la em meio a pressão dos olhares, das revelias e até mesmo rejeições, é como um tribunal em céu aberto. Simone de Beauvoir 1967, retrata esta situação com primazia quando diz que, “não podemos pensar em mães omissas, desleixadas, pois ela crê que o amor de mãe não seja comum e que por isso, não há um perfil de mãe boa ou mães más,  só as que as que fogem do estereótipo social”.

As vezes a decisão em não se tornar mãe é genuína, achamos. Achamos porquê de fato nos questionamos se não seria para desafiar um padrão, por medo, por traumas ou por simplesmente não fazer sentido. Essa sopa traz ânsias sempre que nos sentimos exposta às perguntas clichês: Você não filhos? Não tem vontade de ter? Essas perguntas geralmente irritam. Hoje só são cansativas. cansa ter que ser empática o suficiente para entender que o padrão de consciência da pessoa que pergunta tem um molde diferente do nosso e que o julgamento dela está baseado no que é usual e padronizado. E por isso, nos atende sempre a responder com gentileza, quando as indagações não ultrapassam certos limites, é claro.

Viver a escolha de não ser mãe, quando é solo, acaba sendo uma consequência. Mas, viver essa mesma escolha estando inserida em uma relação, um casamento, é quase um mártir.  Por que de repente temos a sensação de que uma mulher que não deseja ser mãe, uma vez que se case, se torna uma ingrata, uma contradição. Já ouvimos comentário paralelos que dizem: – se não quer ter filhos, por que se casou então? É como se uma escolha anulasse a outra por não poder existir dentro de outros contextos.  Mais caótico então quando nos deparamos com dados históricos que nos trazem verdades tais como a de Tubert, 1991 que diz que “parece evidente que em toda sociedade patriarcal a mulher entra na ordem simbólica apenas como mãe. (Tubert 1991, p. 78).

Uma mulher que não é mãe, é menos mulher?  Vou te provar que sim. Na sequência irei debruçar sobre as inúmeras expressões e julgamentos populares a cerca de uma mulher que exerce o direito de não ser mãe. Inclusive, pode lhe servir como uma lista guia daquilo que você, caro(a) leitor(a), pode a partir de hoje decidir não as usar, caso as use. “Quando você tiver filhos vai saber; só quem tem filhos sabe; uma mulher sem filhos não é completa; quem casa, quer casa e filhos; filhos é a maior benção que uma mulher pode ter e experimentar; filhos são herança de Deus aqui na terra…”

Não existe certo ou errado, verdades ou inverdades nessas expressões. O que existe é a inadequação em proferi-las na presença de uma mulher que decidiu não realizar essa escolha. É impressionante como as pessoas discorrem expressões e teorias filosóficas sobre certos assuntos, se achando até nobre, para defender seus pontos de vista sendo que na essência do diálogo existe a agressividade do julgamento e não aceitação do que difere do “normal”. Concordo com Foucault quando ele diz que, “a busca de uma forma de moral que seria aceitável por todo mundo – no sentido de que todo mundo deveria submeter-se a ela-me parece catastrófica” (FOUCAULT, 2006, p. 262-263).

Passivos agressivos é o que somos constantemente uns com os outros ao tentarmos persuadir as escolhas alheias através de vieses culturais e ideológicos. Já parou para imaginar o quanto perdemos em não ouvir com profundidade as pessoas que rompem padrões, que fazem escolhas “controvérsias”?  Uma mulher que escolhe não ter filhos, ofende as mulheres que defendem a maternidade como condição ou uma necessidade. Desde que o mundo é mundo a mulher foi convencida de que a sua utilidade maior era a de procriar, e em tempos ainda mais retrógrados de preferência filhos homens, porque do contrário todo aquele empreendimento perdia seu “valor de mercado”.

Fonte de arquivos próprios.

Quantas escravidões veladas nós, mulheres, não fomos condicionadas? É importante reforçar aqui que toda dissertação não defende nenhuma ideologia, apenas a sacralidade da figura feminina. O que é trazido aqui são convites para reflexão da crueldade que praticamos conosco e para com as nossas.  O quando nós, mulheres, em pleno século XXI, fazemos escolhas ancoradas em escravidões mentais de um padrão a ser seguido para sermos aceitas, requisitadas, bem quistas.  Você já parou para se perguntar se o que você diz que quer é realmente o que quer? E se for, já se perguntou o porquê? E se descobriu o porquê, saberia responder o para que? E se descobriu o para que, tem clareza dos preços que vai precisar pagar para arcar e assumir suas escolhas?

Nossas escolhas e decisões ao longo da jornada podem acabar sendo reflexos daquilo que pegamos emprestado. Pegamos emprestado dos pais, irmãos, amigas, sociedade. A prova, rasa, disso fica exposta quando perguntamos a alguém do que ela gosta, quais seus sonhos, se sabe quem és e aonde quer chegar. Você que lê essas linhas, saberia responder sem um minuto de silencia a essas simples perguntas sobre si mesma? Perguntas essas que saberia responder quem se conhece, quem vive a base das suas próprias convicções e que já se curou da dependência emocional em sempre precisar da validação dos olhares e das opiniões alheias para caminhar na vida.

Liberdade! Há pouco tempo me deparei admirando pessoas que são livres. Pessoas livres tem um frescor diferente, uma leveza elegante, uma ausência de necessidade em ter que justificar-se. A liberdade, percebi eu, é um ato. É a tomada de decisão. Uma mulher que se movimenta da vida com liberdade incomoda e é alvo de um dos sentimentos mais vis que existe, que é a inveja.  Assistir uma mulher bem sucedida, inteligente, divertida, que não quer ser mãe, que é feliz com a sua escolha, sem depressão, sem ansiedade, sem síndrome do pânico por andar na “contra mão”, causa uma pane emocional em outras mulheres.

Então quer dizer que de repente existem mulheres que são felizes e realizadas mesmo não sendo mães? Como assim?  O primeiro impulso que salta a mente e a boca de uma pessoa invejosa é a invalidação. Quando invejamos algo tratamos logo de invalidar para que perca seu valor e sua autenticidade.  Ao invalidar reforçamos nossas crenças e nos convencemos de que nossa forma de pensar e sentir é a correta e perdemos uma grande oportunidade de reavaliar nossos padrões adoecidos.

Costumamos a considerar que todo impulso que temos ao invalidar a conduta, comportamento ou escolha de alguém, é um convite, uma oportunidade que estamos tendo para questionar a nós mesmos. Invejamos o que não temos, o que queremos e não possuímos ou do que não temos a coragem suficiente de fazer. Façamos um convite a considerar a inveja como uma bússola que te guia para os seus desejos mais profundos. Use ela ao seu favor ao invés de a usar em desfavor de alguém. A inveja envenena a alma de quem sente.  Envenenar seria o mesmo que condenar, em nossa míope percepção. Pois, não estaria condenado quem envenena ou quem é envenenado? Percebem o ciclo vicioso que temos o poder de sustentar quando normalizamos certos padrões de pensamentos e comportamentos? Tornar-se mãe é o mesmo que maternar? Gerar é o mesmo que exercer a maternidade? Para exercer a maternidade existe somente um caminho? Será?

Deixe vir a mente uma expressão que muitas de nós usamos ou ouvimos outras pessoas dizerem, “essa mulher é como uma segunda mãe pra mim”. Interessante, não é? Porque essa mesma mulher mencionada por vezes nem é do mesmo seio familiar. Trata-se somente de uma mulher que genuinamente embala, acolhe, se doa, direciona sem julgar, sem castrar, agrada, acarinha, ama. Seriam essas capacidades exclusivas de mulheres que geram um filho ou simplesmente qualquer mulher que se propõe a estar nesse lugar? Gerar é uma condição para ser mãe ou para ser mãe basta se colocar em uma condição de maternar? Maternar o lar, os amigos, os familiares, os amimais, a vida. Como algo com tanta profundidade pode se limitar a apenas um molde?

Te convidamos a repensar sobre as infinitas possibilidades que uma mulher tem para exercer esse papel tão sublime na sociedade. Não se limite ao óbvio.  E a vocês, mulheres que peitam as aberturas de novos horizontes renunciando às imposições, mesmo que veladas, de não gerar um filho, não se percam. A liberdade também tem seus preços e um deles é de não se perder no trajeto. Uma escolha quando sustentada por medo ou pela necessidade de contrariar algo ou alguém é também uma escravidão. Por vezes podemos acabar silenciando ou anulando certos desejos por revolta ou um medo aterrorizante de algo que não queremos revelar nem a nós mesmas. Gerar ou não gerar um filho não qualifica uma mulher. Gerar é só mais uma de tantas potencias que nós mulheres, genuinamente temos entranhadas em nós.

 A maternidade não muda uma mulher. A maternidade potencializa, o que de melhor e pior essa mulher tem e que também pode ser acessada de inúmeras outras fontes quando se propõe a mergulhar em si mesma, até o útero.  Liberte-se da necessidade de se qualificar para ter qualidade ou para ser de qualidade. Todas as mulheres são mães e isso é um dom. Até porque se gerar bastasse, estaríamos no paraíso.

O maternar que habita em mim, saúda o maternar que existe em ti.

Referências

GOMES, M. Marcel; et.al. O cuidado de si em Michel Foucault: um dispositivo de problematização do político no contemporâneo. Disponível em: https://www.scielo.br/j/fractal/a/HDPxLw3pNsbmmZPLdnx6BRk/?lang=pt. Acesso em 24/02/2023

MESTRE, O. Simone; SOUZA, R. Érica. 2021. “Maternidade guerreira”: responsabilização, cuidado e culpa das mães de jovens encarcerados. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ref/a/DjkdxzG7YCwqtQfnBFTwnLR. Acesso em 24/03/2023

TRINDADE, A. Zeide; ENUMO, F.R. Sônia. 2002. Triste e Incompleta: Uma Visão Feminina da Mulher Infértil. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pusp/a/jR8vxx3VJBfcQcppNcwhztj/?lang=pt. Acesso em 24/02/2023.