Análise da obra A família e o idoso: desafios da contemporaneidade

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O livro “A Família e o Idoso: Desafios da Contemporaneidade, organizado por Deusivania Vieira da Silva Falcão” (2015) e integrante da Coleção Vivaidade, apresenta uma reflexão abrangente e atual sobre as transformações que atravessam o envelhecimento e as famílias brasileiras. A proposta central da coleção é romper fronteiras etárias, promovendo um diálogo intergeracional e estimulando uma compreensão mais madura, humana e profunda sobre o processo de envelhecer. A relevância da obra se ancora no cenário contemporâneo: com o aumento da longevidade no Brasil, compreender as dinâmicas familiares e suas repercussões sociais torna-se fundamental, não apenas no campo acadêmico, mas também no cotidiano das relações e dos serviços de saúde, assistência e convivência.

Organizado com contribuições de psicólogos, gerontólogos e especialistas de diversas áreas, o livro combina fundamentação teórica com resultados de pesquisas aplicadas, o que enriquece a análise e oferece múltiplas perspectivas sobre o envelhecimento como fenômeno relacional. Assim, a obra articula conceptualizações atualizadas, estudos de caso e reflexões práticas, tornando-se um instrumento valioso para profissionais e estudantes que atuam com a população idosa.

Falcão (2015) parte do reconhecimento de que as famílias contemporâneas sofreram transformações profundas nas últimas décadas. Entre essas mudanças, destacam-se o menor número de filhos, a inserção profissional da mulher (que passa a ter autonomia e independência financeira), a maior simetria entre casais, a transparência nas relações, a diversidade de arranjos afetivos e a presença ampliada dos homens no cuidado. A longevidade maior possibilita também que avós e bisavós desempenhem suas funções por mais tempo, enriquecendo o convívio entre gerações e promovendo trocas de proteção, afeto e aprendizagem. Nesse contexto, a autora amplia a definição de família, compreendendo-a não apenas como um núcleo tradicional, mas como um grupo de pessoas unidas por laços de sangue, afeto, lei ou escolha, constituindo uma rede complexa permeada por dimensões biológicas, psicológicas, históricas e sociais. O que realmente ancora essas relações, segundo a obra, é o sentimento de pertencimento, cuidado e troca.

Com o intuito de qualificar a compreensão das estruturas e dinâmicas familiares, o livro apresenta instrumentos fundamentais de avaliação e análise, como o genograma, o APGAR da família e o Family System Test (FAST). Esses recursos permitem identificar padrões relacionais, forças, fragilidades e fronteiras, tornando possível uma leitura mais refinada das interações familiares que influenciam o modo como cada idoso vive seu processo de envelhecimento.

Entre os desafios discutidos, destacam-se as relações intergeracionais e o papel crescente dos avós como cuidadores. O aumento da expectativa de vida alterou significativamente a organização emocional e social das famílias. O papel dos avós, historicamente associado à transmissão de valores, apoio afetivo e presença simbólica, passou por uma expansão ao longo do século XX. Na contemporaneidade, eles tornaram-se responsáveis por tarefas antes restritas aos pais, assumindo rotinas de cuidado diário, educação e até sustento financeiro. Em muitos contextos, avós funcionam como “pais substitutos”, o que pode gerar forte sobrecarga física e emocional, intensificar o isolamento social e ampliar o desgaste psicológico. Essa nova configuração exige um olhar atento dos profissionais para entender suas repercussões e apoiar adequadamente idosos que cuidam e idosos que são cuidados.

Outro ponto central da obra refere-se à fragilidade e às doenças crônicas. A autora discute a fragilidade como uma síndrome multifatorial marcada por declínio energético, perda muscular (sarcopenia), alterações imunológicas e maior vulnerabilidade global. Importante destacar que a autora diferencia envelhecimento de fragilidade: todos envelhecem, mas nem todos se tornam frágeis. A família, nesse contexto, é apresentada como a principal fonte de apoio diante da incapacidade ou dependência. Quando o idoso adoece cronicamente, ela se torna a primeira unidade de cuidado, oferecendo suporte físico, emocional e social. No entanto, o livro evidencia que esse processo traz sobrecarga significativa ao cuidador, que vivencia estresse emocional, físico, financeiro e social, podendo enfrentar conflitos familiares, sensação de isolamento e sofrimento psíquico.

A obra também aborda de maneira profunda o tema da violência contra a pessoa idosa, considerada uma grave violação dos direitos humanos. Essa violência pode se manifestar por meio de abuso físico, psicológico, emocional, sexual, negligência, abandono ou exploração financeira. Um dado importante apresentado é que, na maioria das vezes, a violência é perpetrada por familiares, sendo o abandono percebido como uma das formas mais dolorosas. O silêncio, o sigilo familiar e a invisibilidade pública do problema dificultam sua identificação e intervenção.

Falcão (2015) destaca ainda que famílias que convivem com idosos portadores de Doença de Alzheimer enfrentam conflitos intensos, uma vez que o cuidado geralmente recai sobre mulheres (esposas, filhas, netas ou noras). Nesse cenário, a abordagem sistêmica torna-se essencial para compreender a dinâmica relacional, as fronteiras, os papéis e os padrões de funcionamento familiar frente aos desafios da doença.

Assim, o livro apresenta uma visão multifacetada dos desafios contemporâneos relacionados ao envelhecimento, evidenciando que envelhecer não é apenas um processo biológico individual, mas um fenômeno dinâmico, relacional e profundamente influenciado pela estrutura familiar. A obra mostra como o aumento da longevidade, embora seja uma conquista histórica, traz consigo desafios complexos: reorganização de papéis, necessidade de suporte ampliado, maior vulnerabilidade às doenças crônicas e dependência, e a difícil convivência com violências silenciosas.

A mensagem central do livro é clara: é urgente compreender as dinâmicas familiares e intergeracionais para promover qualidade de vida aos idosos. O envelhecimento é uma vitória, mas requer preparação, sensibilidade e suporte. Falcão reforça que cada família é um universo próprio, marcado por pluralidade, histórias singulares e arranjos diversos. Para os profissionais que atuam com essa população, o convite é olhar além dos estereótipos, reconhecer a diversidade das famílias brasileiras e compreender que o apoio social depende de uma escuta qualificada, olhar sistêmico e intervenção ética.


INFORMAÇÕES TÉCNICAS

Título: A família e o idoso: desafios da contemporaneidade

Organização: Deusivania Vieira da Silva Falcão

Coleção: Vivaidade

Edição/ Ano de Publicação: 1º Edição/2015

Editora: Editora afiliada à associação brasileira dos direitos reprográficos (ABDR)

Local de publicação: Campinas- SP

Número de páginas: 258

Gênero: Obra acadêmica / Ensaio / Estudos sobre Envelhecimento

Área temática: Gerontologia, Psicologia, Serviço Social, Estudos da Família

Público-alvo: Profissionais e estudantes das áreas de saúde, psicologia, gerontologia, serviço social e demais áreas humanísticas. 

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