Caminhos de reconciliação entre fé e identidade LGBTQIAPN+: entre feridas espirituais e possibilidades de cura

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A relação entre fé cristã e identidade LGBTQIAPN+ é, para muitas pessoas, marcada por conflito, dor e rupturas. A espiritualidade, que deveria oferecer acolhimento e sentido, frequentemente se torna fonte de sofrimento, principalmente quando mediada por interpretações religiosas que condenam ou patologizam a diversidade sexual e de gênero. Entretanto, embora o sofrimento esteja amplamente documentado, também existem caminhos de reconciliação, reconstrução e cura espiritual possíveis, especialmente quando analisamos as dimensões subjetivas e comunitárias envolvidas nesse processo.

Grande parte das feridas espirituais surge da utilização da religião como instrumento disciplinador, que associa a orientação sexual ao pecado ou à falta moral. Essa associação, construída historicamente por meio de traduções distorcidas e leituras excludentes das Escrituras (Feitosa, 2018), produz no indivíduo a sensação de inadequação, culpa espiritual e temor da punição divina. A experiência de ouvir repetidamente que sua identidade é incompatível com Deus afeta profundamente a subjetividade, resultando em conflitos internos que atravessam corpo, emoção e espiritualidade.

Apesar disso, é importante reconhecer que fé e sofrimento não são indissociáveis. O sofrimento decorre da forma como a fé foi ensinada, interpretada ou usada, não da espiritualidade em si. Essa distinção é fundamental para compreender que a reconciliação é possível. Muitos indivíduos LGBTQIAPN+ não rompem com a fé por falta de espiritualidade, mas por não suportarem a dor associada às práticas e discursos violentos. Quando encontram espaços mais acolhedores, ressignificam sua relação com a religiosidade e descobrem que sua identidade não precisa ser negada para que a experiência espiritual seja genuína.

Um dos caminhos mais potentes de reconciliação é a revisão crítica dos discursos religiosos internalizados. Perucchi, Brandão e Vieira (2014) descrevem como a LGBTQIAPN-fobia internalizada atua como mecanismo de sofrimento psíquico, no qual o indivíduo incorpora crenças negativas sobre si mesmo. O processo de cura passa por desfazer essas crenças, compreendendo que elas foram construídas social e historicamente, e não representam uma verdade espiritual sobre sua existência. A psicoterapia afirmativa desempenha papel fundamental nesse percurso, ajudando o sujeito a identificar narrativas violentas, reconstruir sua autoestima e retomar sua autonomia emocional.

Outro caminho importante são as comunidades religiosas inclusivas, que oferecem novas formas de vivenciar a fé. Weiss (2013) destaca que esses espaços acolhem pessoas que antes foram expulsas, humilhadas ou silenciadas por suas igrejas de origem. Ao adotar leituras bíblicas comprometidas com a dignidade humana e ao rejeitar interpretações excludentes, essas igrejas criam lugares de pertencimento onde a espiritualidade pode florescer sem exigir sofrimento. Nelas, fiéis LGBTQIAPN+ encontram oportunidades de reconstruir suas trajetórias religiosas, reconstruir laços comunitários e ressignificar sua relação com Deus.

A reconciliação também envolve aceitar que a espiritualidade é uma dimensão pessoal, plural e dinâmica. A religiosidade não precisa ser vivida da mesma forma que foi aprendida; ela pode ser reinventada. Alguns indivíduos optam por permanecer em tradições cristãs, reformulando sua relação com as doutrinas; outros encontram novos modos de se relacionar com o sagrado, mais próximos de sua experiência interna e identidade. Há também aqueles que, após profundo sofrimento, escolhem se afastar de instituições religiosas, mas mantêm uma espiritualidade pessoal, livre de dogmas e coerente com seus valores e afetos.

A possibilidade de reconciliação não significa apagar as violências vividas. Pelo contrário, implica reconhecê-las, compreender sua origem e diferenciá-las da experiência espiritual autêntica. Muitas feridas são resultado direto de práticas religiosas coercitivas, como tentativas de conversão, humilhações públicas e discursos de ódio travestidos de doutrina. A cura começa quando o indivíduo identifica que a violência sofrida não é expressão da fé, mas distorção humana dela. Essa consciência permite abrir espaço para uma espiritualidade mais livre e integrada.

A reconciliação entre fé e identidade LGBTQIAPN+ é, portanto, um processo profundamente subjetivo, que envolve desaprender violências, reconstruir narrativas e reencontrar formas de espiritualidade que não oprimam, mas libertem. É um caminho que exige tempo, cuidado, suporte emocional e, muitas vezes, acompanhamento terapêutico. Mas é também um caminho possível e, para muitos necessário, para recuperar dimensões significativas da vida espiritual que foram sequestradas por discursos de exclusão.

A espiritualidade, quando vivida plenamente, não exige negação da identidade. Ao contrário, pode se tornar espaço de afirmação, celebração e potência. A reconciliação não é retorno a uma fé que fere, mas a descoberta de uma fé que acolhe; não é submissão a doutrinas excludentes, mas encontro com Deus, ou com o sagrado, de forma íntegra, digna e profundamente humana.

REFERÊNCIAS

FEITOSA, Alexandre. Quem está manipulando a Bíblia? 2018.


PERUCCHI, Elaine; BRANDÃO, Mariana; VIEIRA, Gabriela. Rejeição religiosa e sofrimento subjetivo em pessoas LGBTQIAP+. 2014.
WEISS, A. Religiões inclusivas e diversidade sexual. 2013.


CFP – CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Tentativas de aniquilamento de subjetividades LGBTI+: impactos das práticas de “cura” e repressão de identidades. Brasília: CFP, 2020.


AGUIAR, Denison Melo de. Religião, religiosidade e saúde mental LGBTQIAP+. In: SANTOS, M. H. F. et al. Saúde LGBTQIA+: práticas de cuidado transdisciplinar. Curitiba: CRV, 2021.

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Bacharel em Direito pela Faculdade de Palmas (FAPAL), Acadêmica e Estagiária de Psicologia da ULBRA Palmas.

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