A dinâmica da liberdade: uma análise psicossocial do filme Spirit

Compartilhe este conteúdo:

O filme Spirit: O Corcel Indomável tem várias nuances a serem tratadas. Dentro dos vários temas abordados, podemos citar alguns, como o choque cultural e histórico entre os povos indígenas e a colonização urbana, que segue a todo vapor, esmagando qualquer coisa que esteja em seu caminho; o respeito entre humanos e animais; como também força, resiliência e esperança. Porém, o tema central do filme e o que será abordado nesse texto é o que mais motiva as ações do personagem principal e o que lhe faz agir de maneira inabalável, negando-se a desistir do que é seu por direito. Estou falando sobre a liberdade e o significado que tal sentimento tem para cada personagem do filme.

O filme conta a história de Spirit, um cavalo selvagem que vive sua vida de maneira tranquila na natureza selvagem. Desde o início, o filme apresenta Spirit com uma personalidade curiosa, impetuosa e determinada, liderando sua manada de maneira corajosa, inteligente e protetora. Ao se deparar com um acampamento montado por humanos próximo do local onde sua manada está localizada, ele decide investigar; porém, durante sua investigação, acaba sendo capturado pelos humanos e levado para o forte militar dos soldados do Exército dos Estados Unidos, durante o período de expansão para o Oeste.

Desde o momento de sua captura, Spirit se mostra extremamente resistente e persistente, recusando-se a desistir da sua liberdade e mostrando uma incrível força de vontade em não se dar por vencido. Na sua chegada e estadia ao forte militar, o corcel conhece o Coronel, um homem extremamente rigoroso, rígido e orgulhoso, que tenta domá-lo para transformá-lo em um cavalo de guerra. O que vemos é um verdadeiro embate entre duas personalidades fortes e totalmente contrárias e resistentes em seus objetivos. De um lado, temos o Coronel, com sua disciplina e doutrinação nas regras vigentes do Exército Americano, e, do outro, temos Spirit, com seu espírito de luta e resistência imbatíveis, não desistindo da sua liberdade e de seu desejo de retornar para casa.

Apesar de a expansão territorial do Exército Americano e os conflitos com os povos indígenas na briga por dominação de território serem um plano de fundo bastante relevante e de suma importância, o que torna o filme tão tocante e emocionante é justamente a luta do corcel por sua liberdade e sua recusa em aceitar que lhe tirem isso. Ao longo do filme, nos são apresentados outros personagens importantes, que fazem parte da jornada do nosso personagem e que nos mostram diferentes perspectivas e entendimentos do que consideram ser liberdade. Ainda no forte militar, conhecemos Little Creek, um jovem indígena capturado pelos militares. Após se unirem para fugir do forte e irem para a aldeia indígena, lá conhecemos Chuva, por quem Spirit se apaixona instantaneamente, uma linda égua que pertence a Little Creek e que tem uma ligação de carinho e amor genuíno com ele — algo que deixa Spirit confuso, pois ele não entende como um humano e um cavalo possam ter tal laço e, o mais chocante para si, é que Chuva, mesmo com as aberturas para ir embora e fugir do local, opta por ficar junto de Little Creek.

Pode-se diferenciar três perspectivas do significado de liberdade para cada um dos personagens. Para Spirit, a liberdade se apresenta de maneira mais selvagem, recusando-se veementemente a ser dominado por um humano. Para ele, é inconcebível a ideia de aceitar ser domesticado e doutrinado por um humano. Na perspectiva da égua Chuva, entende-se que liberdade significa estar próximo de quem ama — nesse caso, Little Creek —, estando completamente confortável em viver entre os costumes dos indígenas. Já para Little Creek, a liberdade se apresenta como a não desistência do território que pertence ao seu povo e a vivência plena de acordo com a cultura e os costumes de sua gente.

A resistência e o espírito de luta apresentados por Spirit são algo que impressiona qualquer um que cruze o seu caminho. Até mesmo o Coronel reconhece o impetuoso corcel como um animal livre, demonstrando-lhe um sinal de respeito e aceitação diante da força de vontade do cavalo frente aos seus objetivos. Apesar de o filme se apresentar de maneira despretensiosa e direcionada ao público infantil, a narrativa impressiona, encanta e emociona com uma história que apresenta um forte simbolismo sobre liberdade, resistência e a opressão diante do expansionismo urbano e da desconsideração com a natureza e a cultura apresentada por povos originários dos territórios explorados.

Ficha técnica

Título Original: Spirit: Stallion of the Cimarron

Ano: 2002

Gênero: Animação, Aventura, Faroeste

Estúdio: DreamWorks Animation & DreamWorks Pictures

Direção: Kelly Asbury e Lorna Cook

Roteiro: John Fusco (e Michael Lucker)

Trilha Sonora: Hans Zimmer (Músicas) e Bryan Adams (Canções)

Produção: Jeffrey Katzenberg, Mireille Soria

Duração: Aproximadamente 1h 23min

Nacionalidade: Estados Unidos

Compartilhe este conteúdo: