Há algo de profundamente revelador naquilo que uma cultura escolhe ridicularizar. Em tese, gostar é uma experiência banal: gostar de um time, de uma coleção, de uma artista, de um universo ficcional, de um objeto estético, de um personagem. Na prática, porém, nem todo gosto recebe o mesmo tratamento social. Alguns são imediatamente reconhecidos como paixão, identidade, tradição e pertencimento. Outros são reduzidos a exagero, futilidade, histeria, infantilidade. E essa diferença raramente é neutra. Ela costuma obedecer a uma lógica antiga: tudo aquilo que se associa ao masculino tende a ser legitimado; tudo aquilo que se associa ao feminino permanece sob um olhar de desprezo.
Um homem adulto que coleciona camisas de futebol, memoriza escalações históricas, compra chuteiras específicas, lota estádios, grita, chora, xinga e organiza parte da própria rotina em torno do calendário esportivo é visto como alguém apaixonado. Sua devoção ganha status de cultura, de tradição e de amor ao clube. O mesmo vale para coleções de Pokémon, camisas de super-herói, action figures, videogames, cards, sagas intermináveis e hobbies cultivados até a vida adulta. Quase nunca se pergunta a esse homem quando ele pretende “amadurecer”. Quase nunca lhe dizem que já passou da idade. Quase nunca seu entusiasmo é usado para diminuir sua inteligência, sua seriedade ou sua credibilidade.
Mas basta que o objeto de afeição seja lido como feminino para a régua mudar. Meninas e mulheres que colecionam Sylvanian Families, photocards de idols, álbuns, referências de doramas ou símbolos ligados a artistas como Taylor Swift e nomes do K-pop são frequentemente empurradas para o lugar do ridículo. O que, num caso, é chamado de hobby, no outro vira obsessão vergonhosa. O que, para eles, é demonstração legítima de vínculo afetivo, para elas vira prova de imaturidade. Homens lotam estádios e têm a agressividade celebrada como “paixão”. Mulheres choram em um show porque se reconhecem na letra de uma canção e são tratadas como descontroladas. Homens pintam o corpo, quebram cadeiras, brigam, humilham adversários, e a cultura ainda procura nisso alguma nobreza emocional. Mulheres vestem rosa para assistir Barbie e imediatamente surgem vozes apressadas para ridicularizar a cena, como se ali houvesse algo menor, risível, superficial demais para ser levado a sério.
A pergunta que fica é simples, mas incômoda: por que a comoção masculina costuma ser traduzida como autenticidade, enquanto a feminina é tão rapidamente convertida em caricatura? Por que um homem com uma parede cheia de camisas de time parece fiel às próprias paixões, mas uma mulher com prateleiras de objetos vinculados a ícones femininos parece menos adulta, menos racional, menos digna de respeito? Por que a nostalgia masculina é celebrada, ao passo que o feminino associado ao gosto e estética é constantemente empurrado para o território da tolice?
Talvez porque nunca tenha sido apenas sobre gosto. O deboche dirigido ao que as mulheres gostam funciona como uma pedagogia de rebaixamento. Ele ensina, repetidamente, que aquilo que mobiliza mulheres vale menos. Ensina que o prazer feminino precisa ser corrigido ou diminuído. Ensina que o entusiasmo delas é excessivo, que sua entrega é ridícula, que sua sensibilidade é um defeito público. E, com isso, vai se formando um terreno subjetivo perverso: meninas aprendem cedo que gostar do que gostam pode custar vergonha. Aprendem a modular a própria alegria para não parecerem bobas. Aprendem a esconder referências, a fingir desinteresse, a tratar com ironia aquilo que as toca de verdade, só para sobreviver ao julgamento.
Existe aí uma violência que, por ser cotidiana e socialmente banalizada, quase sempre passa despercebida. Afinal, muita gente ainda prefere chamar isso de brincadeira, meme, zoeira, implicância inofensiva. Mas o riso também disciplina. O escárnio também educa. A humilhação reiterada de gostos associados ao feminino não é um detalhe sem consequências; ela participa da produção de subjetividades femininas marcadas pela autocensura, pela insegurança e pela necessidade constante de validação. Quando tudo aquilo que as meninas amam é tratado como menor, elas não recebem apenas uma opinião sobre um artista, um filme ou um objeto; recebem uma mensagem sobre si. A mensagem é: o que te move é pequeno. O que te emociona é ridículo. O que te encanta não merece ser respeitado.
E o mecanismo é ainda mais cruel porque opera em duas direções ao mesmo tempo. Mulheres que escapam do que se espera como “feminino” são punidas por desvio: são vistas como estranhas, frias, inadequadas, masculinizadas, arrogantes ou deslocadas. Já aquelas que performam a feminilidade esperada são punidas por excesso: são lidas como rasas, frágeis, infantis, fúteis. Ou seja, a norma não foi feita para acolher mulheres, mas para enquadrá-las. Se recusam o roteiro, são sancionadas. Se o seguem, também. A feminilidade, nesse arranjo, não aparece como possibilidade livre de expressão, mas como armadilha: exige-se sua performance e, ao mesmo tempo, usa-se essa mesma performance para justificar a inferiorização.
É por isso que homens podem ser eternos garotos sem que isso comprometa sua dignidade social. Podem carregar hobbies da infância pela vida inteira, transformar paixões em estilo de vida, gastar dinheiro, tempo e energia com objetos, jogos, clubes, narrativas e coleções sem que isso os desqualifique como adultos. Para eles, o amadurecimento não exige renúncia ao prazer. Para elas, a cobrança costuma ser outra: crescer parece significar abandonar tudo aquilo que possa ser lido como excessivamente feminino, excessivamente jovem, excessivamente sensível, excessivamente encantado. Como se o ingresso na vida adulta, para as mulheres, dependesse de um processo contínuo de poda. Como se amadurecer fosse endurecer. Como se toda leveza feminina precisasse ser sacrificada em nome de respeitabilidade.
No contexto das redes sociais, esse processo ganha escala, velocidade e plateia. Meninas são expostas por gostar “demais”, por decorar quartos, por colecionar objetos, por se vestir de determinada forma, por admirar artistas, por se emocionar publicamente, por criar comunidades de afeto em torno de interesses comuns. E o que poderia ser vivido como pertencimento passa a ser atravessado pela vigilância: até onde posso demonstrar? O quanto posso gostar sem virar piada? O que preciso esconder para continuar sendo levada a sério? A saúde mental sofre justamente aí, nesse ponto em que o desejo deixa de ser espontâneo e passa a ser administrado sob medo.
Porque não se trata apenas de preferência cultural, mas de uma política cotidiana de deslegitimação do feminino. Uma sociedade que aplaude a violência de homens em estádios como expressão de paixão, mas zomba da emoção de mulheres diante da arte que as representa, não está apenas sendo incoerente: está reiterando quais afetos merecem dignidade e quais podem ser humilhados em praça pública. Uma cultura que permite aos homens envelhecerem sem vergonha de seus entusiasmos, mas exige das mulheres um abandono precoce de tudo o que as encanta, não está promovendo maturidade: está treinando submissão. Está ensinando que elas devem caber numa medida impossível, onde nunca podem ser “demais”, nunca podem ser plenamente livres no que sentem, gostam ou escolhem mostrar.
No fim, a questão talvez não seja por que o gosto feminino é tão ridicularizado, mas por que ainda aceitamos isso como algo pequeno. Não é pequeno. Nunca foi. Quando uma cultura ri sistematicamente do que as mulheres amam, ela não está apenas atacando objetos de consumo, artistas ou tendências; está corroendo a legitimidade da experiência feminina em si. E uma sociedade que subjuga mulheres até em seus gostos não está só dizendo do que elas deveriam gostar menos. Está dizendo, de maneira muito mais funda e cruel, o quanto elas mesmas deveriam ocupar menos espaço.
