Antes de uma criança conseguir explicar o que sente, ela já aprende, nas relações, quais emoções pode expressar, como deve reagir diante de uma frustração e que tipo de resposta recebe quando busca cuidado. Por isso, o desenvolvimento psicossocial não pode ser reduzido ao comportamento visível ou à capacidade de conviver bem com os outros. Ele envolve a construção progressiva dos vínculos, da regulação emocional, da identidade e das formas de relação com o mundo, articulando aquilo que a criança sente, o modo como é acolhida e as experiências sociais que atravessam sua história (Papalia; Feldman; Martorell, 2013).
Esse processo não ocorre apenas quando a criança recebe orientações diretas sobre como deve se comportar. Ele também se constitui nas pequenas experiências cotidianas: no modo como um adulto responde ao choro, na forma como nomeia uma emoção, na maneira como sustenta um limite ou acolhe uma frustração. Aos poucos, a criança passa a reconhecer estados internos, diferenciar sensações, buscar apoio e elaborar respostas mais organizadas diante das situações que vive. A regulação emocional, portanto, não corresponde apenas à capacidade de “controlar-se”, mas envolve processos construídos nas interações e nas respostas oferecidas pelo ambiente (Silva; Pessôa, 2025). Por isso, aprender a lidar com o que se sente depende também da qualidade das relações que tornam essa elaboração possível.
À medida que a criança cresce, essas experiências passam a se ampliar para outros espaços de convivência. A família, a escola, os pares e a comunidade oferecem diferentes formas de reconhecimento, pertencimento e limite, contribuindo para que ela construa uma imagem de si e dos outros. É nesse movimento que a criança aprende a esperar, negociar, lidar com conflitos, perceber regras compartilhadas e ocupar lugares nas relações. O desenvolvimento psicossocial, portanto, não acontece em um espaço neutro: ele se constitui em contextos concretos, marcados por vínculos, expectativas, condições de vida e formas culturais de convivência (Bronfenbrenner, 1996).
Essa influência do contexto também pode ser observada quando determinados sujeitos são expostos, de forma repetida, a experiências de desvalorização, preconceito ou ameaça. Pessoas negras, por exemplo, podem vivenciar situações frequentes de racismo em espaços escolares, profissionais, institucionais e cotidianos, o que tende a produzir marcas emocionais importantes. Nesses casos, a reação diante de uma fala, de um olhar ou de uma abordagem não pode ser compreendida apenas como resposta a um episódio isolado, mas como parte de uma história de exposições sucessivas. Estudos brasileiros sobre racismo e saúde mental indicam que a discriminação racial pode produzir sofrimento psíquico, afetar a forma como a pessoa se percebe e dificultar a busca por cuidado quando as instituições também reproduzem práticas discriminatórias (Conselho Federal de Psicologia, 2017; Prado et al., 2022). Ao mesmo tempo, essa experiência pode ampliar a percepção de sinais de exclusão e desigualdade, funcionando como uma forma de leitura social construída na própria vivência.
Outro exemplo, que pode ser observado é como as experiências relacionadas à expressão emocional atravessam de modo diferente a vida de meninos e meninas. Desde cedo, muitos meninos aprendem que chorar pode ser visto como fraqueza, que demonstrar medo pode gerar vergonha e que pedir cuidado pode ameaçar a imagem de força esperada deles. Essas mensagens, repetidas em frases, gestos e reações cotidianas, não apenas orientam comportamentos; elas também ensinam quais emoções podem ser mostradas e quais precisam ser escondidas. Estudos sobre masculinidades indicam que normas tradicionais associadas à virilidade, ao autocontrole e à restrição emocional podem dificultar o reconhecimento do sofrimento e a busca por ajuda (Guerra et al., 2014). Assim, aquilo que aparece na vida adulta como frieza, silêncio ou dificuldade de falar sobre sentimentos pode ter sido aprendido, pouco a pouco, como forma de pertencimento e proteção.
Compreender o desenvolvimento psicossocial por esse caminho não significa afirmar que todos os meninos e homens vivenciam suas emoções da mesma forma, nem reduzir suas dificuldades a uma única explicação. Significa reconhecer que os modos de sentir, falar sobre si e se relacionar são produzidos também por expectativas sociais. Quando a cultura limita as formas possíveis de expressão emocional, ela também interfere na maneira como os sujeitos constroem vínculos, lidam com conflitos e reconhecem o próprio sofrimento. Por isso, pensar o desenvolvimento psicossocial exige olhar para além do comportamento individual, considerando as relações, os discursos e os contextos que ensinam, desde cedo, quem pode sentir, como pode sentir e de que modo pode pedir cuidado.
BRONFENBRENNER, Urie. A ecologia do desenvolvimento humano: experimentos naturais e planejados. Tradução de Maria Adriana Veríssimo Veronese. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Relações raciais: referências técnicas para atuação de psicólogas/os. Brasília: CFP, 2017.
GUERRA, Valeschka Martins et al. Ser homem é…: adaptação da Escala de Concepções da Masculinidade. Psico-USF, Itatiba, v. 19, n. 1, p. 155-165, jan./abr. 2014. DOI: 10.1590/S1413-82712014000100015.PAPALIA, Diane E.; FELDMAN, Ruth Duskin; MARTORELL, Gabriela. Desenvolvimento humano. 12. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.
PRADO, Carolina Conceição; NASCIMENTO, Dheneffer Santana; CADER-NASCIMENTO, Fatima Ali Abdalah Abdel; FERREIRA, Larissa Oliveira Alves. Fatores promotores de sofrimento psíquico na população negra em vulnerabilidade social. Psi Unisc, Santa Cruz do Sul, v. 6, n. 1, p. 48-68, 2022. DOI: 10.17058/psiunisc.v6i1.16456.
SILVA, Leticia Oliveira da; PESSÔA, Luciana Fontes. Regulação emocional infantil: uma revisão integrativa da literatura brasileira. Estudos e Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, v. 25, 2025. DOI: 10.12957/epp.2025.73864.
