Poesia como reencontro: memória, ancestralidade e permanência em Weiyamî de Sony Ferseck

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O sol como caminho de volta 

Ler ‘Weiyamî: Mulheres que fazem sol’, de Sony Ferseck, é entrar em contato com uma poesia construída entre memória, território e ancestralidade. Segundo a autora, em entrevista para Julie Dorrico (2022), o título da obra é inspirado na cosmologia Makuxi que conta a história das filhas de Wei, o Sol, responsáveis por iluminar os caminhos dos mortos pela Via Láctea até o reencontro com aqueles que já encantaram. A própria escritora também relaciona essa imagem ao reencontro com a identidade indígena. Com poemas em versos livres, escritos entre o português e a língua makuxi, o livro constrói uma experiência de leitura em que palavra, corpo, natureza e memória parecem existir em relação constante.

Escritora, poeta e artista indígena do povo Makuxi, Sony Ferseck vem construindo uma produção literária profundamente ligada à oralidade, à terra e às experiências dos povos originários do Norte do Brasil. Antes de ‘Weiyamî’, publicado em 2022, a autora lançou Movejo (2020), obra em que já apareciam elementos relacionados às cosmologias indígenas e aos vínculos entre território, linguagem e pertencimento. Em ‘Weiyamî’, no entanto, sua escrita parece alcançar uma dimensão ainda mais sensorial, aproximando poesia, canto, imagem e memória. O livro também dialoga com as ilustrações e bordados de Georgina Sarmento, ampliando a experiência estética da obra e fazendo da leitura uma experiência não apenas textual, mas também visual e afetiva. As imagens presentes no livro não aparecem apenas como acompanhamento dos poemas. Os bordados e desenhos também parecem participar da construção desse universo poético, aproximando textura, terra, corpo e linguagem.

Em muitas perspectivas indígenas, cuidado, pertencimento e bem-viver não aparecem separados da memória coletiva, da espiritualidade e da relação com o território. Oliveira, Zanello e Armstrong (2026), ao discutirem saúde mental e bem-viver de mulheres indígenas, destacam que território, espiritualidade, memória coletiva e relações comunitárias participam diretamente dos processos de cuidado e existência entre povos originários. Essa percepção parece atravessar também a poesia de Sony Ferseck, especialmente nos momentos em que a autora aproxima corpo, terra, linguagem e vínculos entre gerações.

O corpo que aprende com a terra  

Mais do que contar histórias, a poesia de Sony Ferseck cria imagens que aproximam aquilo que, muitas vezes, o pensamento ocidental separou: humano e natureza, corpo e território, memória e presente. Em “Grande reencontro”, o eu lírico escreve: “meu tom de terra / me confunde o corpo” (Ferseck, 2022, p. 13), dissolvendo os limites entre identidade e paisagem. A terra, aqui, não aparece apenas como cenário, mas como parte da própria existência. Mais adiante, ao afirmar “meu lugar — junto — às irmãs / à Wei” (Ferseck, 2022, p. 13), o poema aproxima pertencimento e coletividade, como se existir significasse também reconhecer-se ligada às mulheres, à terra e à presença das que vieram antes.

Essa relação entre corpo e natureza aparece de maneira ainda mais intensa em “Pi’pu”, poema inspirado em um taren, palavra encantada de cura da tradição makuxi. A palavra que dá título ao poema significa “vagina”, mas o corpo feminino não surge apenas como dimensão biológica. Ele se aproxima da madeira, da água, da ave, da semente e do sopro, compondo uma imagem de criação contínua da vida. “Wei me fecunda” (Ferseck, 2022,  p. 19), escreve Ferseck, associando o Sol à força vital que percorre o livro inteiro. Nos versos finais, “Do choro / Do riso / Da palavra / Vida”(Ferseck, 2022,  p. 20), a linguagem deixa de ser apenas forma de expressão e passa a participar da própria construção da existência.

Em muitos momentos de ‘Weiyamî’, a identidade também aparece ligada ao movimento. Em “Ka’sana’ yensi”, o eu lírico se apresenta como “corpo-voo”, “corpo-asas” e “corpo-círculo” , aproximando a experiência humana da água, das aves, do fogo e da dança. “Meu corpo-eu / Vem vindo / Como enfeite / Como gente / Como bicho” (Ferseck, 2022, p. 22), escreve a autora, sugerindo uma existência construída em relação constante com outras formas de vida. Não há uma identidade fixa ou encerrada em si mesma… há algo que continua vindo, aprendendo e se transformando. Quando o poema afirma que “As filhas de Wei / Me ensinam”(Ferseck, 2022, p. 25), pertencimento e ancestralidade aparecem menos como herança imóvel e mais como experiência compartilhada entre mulheres, natureza e memória.

Mulheres que ensinam a cantar   

Ao longo do livro, a memória também se manifesta pela voz das mulheres. Em um dos poemas mais delicados da obra, Sony Ferseck escreve: “Cheguei à idade em que / As mulheres cantam”. O amadurecimento, aqui, não surge associado à ideia de autonomia individual, mas à entrada em uma linhagem de vozes femininas. “Pela voz minha mãe / Ensina a cantiga dos afetos”, diz o poema, aproximando cuidado, escuta e transmissão entre gerações. 

Mais adiante, o eu lírico afirma: “hoje já não me meço pelo espelho / teço minha própria canção”. A identidade deixa de ser construída pela imagem refletida e passa a nascer da relação com os cantos, com os afetos e com as mulheres que vieram antes, mesmo quando a garganta permanece “partida / repleta de silêncios”. Em Weiyamî, a voz não aparece apenas como expressão individual, mas como vínculo entre mães, filhas, avós e netas. 

Essa mesma relação reaparece nos poemas em que barro, água, fogo e linguagem se aproximam das mulheres que preservam os cantos e os vínculos entre gerações. Ao escrever sobre “percorrer com os dedos / a linguagem da terra”, Sony Ferseck transforma a memória em algo vivo, transmitido pelas mãos, pela escuta e pela convivência. “As mães do barro”, escreve a autora, “decoram as cantigas que encantam / de carinho as netas das netas que virão”. A ancestralidade, aqui, não aparece como algo distante. Ela continua viva nos gestos, nas palavras e nos afetos compartilhados entre mulheres. 

O silêncio que guarda    

Embora profundamente marcado pela delicadeza, Weiyamî também se aproxima das experiências de apagamento vividas pelas mulheres indígenas. No poema dedicado “às mulheres indígenas”, a autora escreve: “nós mulheres invisíveis / aprendemos pela casa / a linguagem dos cômodos”. O silêncio aparece como experiência histórica, marcada pela violência, pelo desprezo e pela perda dos antigos nomes.

Ainda assim, o poema transforma esse silêncio em permanência. “Toda aquela que faz silêncio / guarda o intocável”, escreve Ferseck, sugerindo que existem saberes e formas de existir que permanecem vivos apesar das tentativas de apagamento. Ao final, essas mulheres surgem como “uma língua de fumaça / que só diz palavras de cura”, imagem que talvez sintetize a própria força da obra.

Mesmo quando a poesia se aproxima do medo e da escuridão, a memória continua viva. Em “Ewaron”, o medo ocupa o corpo, mas não interrompe os vínculos entre gerações. “Quando o vento / Cortar meus ossos / Brancos / Eles cantarão de memória / Meu nome”, escreve a autora. O poema sugere que até os ossos continuam falando, como se a existência ultrapassasse os limites entre vida, morte e ancestralidade.

A poesia como permanência     

Ao longo de ‘Weiyamî’, Sony Ferseck transforma memória, território e ancestralidade em matéria poética. A terra, as mulheres, os cantos, a língua e os afetos aparecem como partes inseparáveis de uma existência coletiva que continua viva no presente.

Em um dos últimos poemas da obra, a autora escreve: “dessa terra filha mãe irmã tia / compartilho a veia o nome a valentia / faço deles tintura da minha poesia”. Talvez seja justamente isso que o livro realiza: transformar experiência, memória e afeto em linguagem e fazer da poesia um caminho de reencontro.

Referências

DORRICO, Julie. “Weiyamî”: poeta e ilustradora macuxi valorizam a identidade indígena em obra. ECOA/UOL, 2022. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julie-dorrico/2022/05/04/weiyami-poeta-e-ilustradora-macuxi-valorizam-a-identidade-indigena-em-obra.htm?utm_source  Acesso em: 16 abr. 2026.

FERSECK, Sony. Weiyamî: mulheres que fazem sol. Boa Vista, RR: Wei Editora, 2022.

OLIVEIRA, Iasmim; ZANELLO, Valeska; ARMSTRONG, Anderson da Costa. Saúde mental / bem viver de mulheres indígenas: uma revisão integrativa de 2000 a 2025. Punto Cunorte, v. 12, n. 22, 2026. Disponível em: https://revistas.cunorte.udg.mx/punto/article/view/278. Acesso em: 16 abr. 2026.

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Graduada em Letras e Mestra em Ensino de Língua e Literatura pela UFT. Acadêmica de Psicologia da ULBRA Palmas.

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