Enquanto os futuros apodrecem: uma reflexão sobre luto, arrependimento e o peso das escolhas não feitas a partir da metáfora da figueira de Sylvia Plath

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Há um tipo muito específico de fome que não nasce da ausência, mas do excesso.

Imagine uma mulher ajoelhada diante de uma figueira. Os galhos se estendem acima dela como veias abertas no céu, carregados de frutos verdes, densos, brilhando sob a luz. Os figos são enormes. Gordos. Tão vivos que parecem pulsar. Cada um deles carregando uma vida inteira dentro de si. Um figo é uma casa feliz com crianças correndo no fim da tarde. Outro é uma carreira brilhante. Outro é um amor avassalador em alguma cidade estrangeira. Outro é um caminho de fama como uma escritora famosa.  Em cada ponta da árvore, um futuro esperando para ser escolhido. E todos eles chamam ao mesmo tempo. Todos parecem certos. Todos parecem indispensáveis.

E ainda assim a mulher permanece imóvel. O corpo inteiro vazio, a barriga doendo, morrendo lenta e agonizantemente de fome enquanto dezenas de frutos maduros pesam acima de sua cabeça. Faminta.

Em The Bell Jar, Sylvia Plath evoca o ato de escolher em uma das imagens mais dolorosas da existência. A personagem observa os figos amadurecendo acima de sua cabeça enquanto a fome cresce dentro do próprio corpo. Ela não consegue esticar a mão. Não consegue arrancar nenhum deles sem precisar abrir mão de todos os outros. E enquanto hesita, os frutos começam a apodrecer. Um por um. Caindo aos seus pés com a delicadeza irreversível das coisas que perderam o tempo de existir.

Existe algo profundamente cruel nessa metáfora porque ela vai muito para além das escolhas. Ela fala sobre luto. Toda escolha exige o enterro silencioso de outras vidas possíveis.

E é isso que, muitas vezes, torna o ato de decidir algo tão insuportavelmente difícil. Não é apenas o medo do fracasso. É o peso de abandonar futuros inteiros. É perceber que existir significa necessariamente renunciar. Escolher um caminho implica fechar dezenas de portas que talvez nunca mais voltem a se abrir.

E o mundo contemporâneo transformou essa angústia em um estado permanente.

Existe sempre outra possibilidade atravessando a tela. Outra pessoa vivendo uma vida aparentemente mais bonita, mais completa, mais interessante. Outra carreira. Outro amor. Outro corpo. Outra cidade. Outra estética de felicidade cuidadosamente iluminada para parecer a melhor, porque “a grama do outro é sempre mais verde”. A internet tornou impossível não sentir que existe algo acontecendo em outro lugar enquanto o próprio corpo permanece parado, tentando decidir qual vida merece ser vivida primeiro.

E nisso temos vontade de ser e experienciar tudo ao mesmo tempo. Ler todos os livros, assistir a todos os filmes, testar todos os hobbies e viajar para todos os lugares, porque é exatamente isso que vemos as pessoas performarem a todo tempo, ao passo em que estamos paralisados e frustrados, até porque poder experienciar todas essas vidas vai muito além da escolha ou do desejo.

E a prostração por si só também cansa, até porque entramos em outro viés. Raramente se escolhe sozinho. Existem expectativas respirando atrás de cada decisão. Famílias. Afetos. Pessoas que amam, projetam, todos aguardam e esperam alguma coisa. Existe uma espécie de multidão invisível acompanhando cada tentativa de se tornar alguém. E, para muitas mulheres, o tempo ainda pesa de maneira diferente. Como se houvesse um relógio escondido dentro do próprio corpo lembrando constantemente que certas escolhas possuem prazo de validade.

Então a urgência cresce.

Os figos não permanecem para sempre na árvore.

E então nos encontramos com a dor e o luto inevitável nisso. Cada escolha carrega uma renúncia, e não importa o caminho escolhido, sempre restará a sombra daquilo que não foi vivido. Sempre nos arrependeremos de alguma coisa, especialmente do que não escolhemos, pois é um caminho fantasioso de “e se?”. Mesmo as escolhas felizes carregam fantasmas. Mesmo diante do amor, da realização e da alegria genuína, ainda existe uma voz pequena perguntando o que teria surgido do outro lado da decisão abandonada.

Mas aqui encontramos um pouco de conforto, pois  amadurecer tem menos relação com encontrar a escolha perfeita e mais relação com suportar a impossibilidade dela existir. O arrependimento não nasce apenas das escolhas erradas. Muitas vezes nasce justamente do fato de que nenhuma vida consegue conter todas as vidas que cabem dentro de alguém.

E ainda assim existe certa beleza na limitação. Existe algo profundamente humano em não conseguir ser tudo. Em precisar deixar partes de si espalhadas pelos caminhos não escolhidos. Em compreender que viver também significa perder.

E aqui entra a verdadeira questão, se é impossível viver uma vida sem arrependimentos, então a chave não é buscar a escolha da qual não iremos nos ressentir, mas buscar escolher qual arrependimento somos capazes de suportar.

Se ficarmos parados com toda certeza não chegaremos a lugar nenhum, e o peso das indecisões pode condenar nosso futuro e presente até morrermos de fome, e aqui cabe a reflexão: “Meus figos não podem apodrecer, porque eu sou a árvore”. 

Isso significa controlar as narrativas da própria vida, compreender que não existem futuros prontos ou decisões que levem à um caminho específico, previamente pensado. Tomar decisões com base no sentido subjetivo, não buscando ler o futuro, mas sabendo que, se a decisão em questão “der errado”, novos figos virão, porque eu sou a árvore, e posso produzir novos frutos, novas escolhas, novas vidas, mas para isso preciso ter a coragem de agir.

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