Narcisismo: o reflexo soberano

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O mundo de Artur era um grande palco de vigilância constante. Quando ele acordava, a primeira coisa que fazia não era sentir o dia, mas verificar se a sua armadura estava intacta. Cada elogio que recebia no trabalho não era um prazer, era um tributo. Era o oxigénio que mantinha a chama acesa. Sem o olhar de admiração dos outros, Artur sentia que começava a desaparecer, a dissolver-se num vácuo negro que ele não ousava nomear.

Para Artur, as pessoas eram como baterias. Helena, por exemplo, servia para um propósito específico: ser o espelho onde ele via a sua melhor versão. Quando ela sorria e o elogiava, Artur sentia-se um deus. Mas Helena tinha o péssimo hábito de ser humana.

Às vezes, ela trazia problemas. Às vezes, ela brilhava demais por conta própria. E, pior de tudo: às vezes, ela via as suas falhas.

Naquela terça-feira, quando Helena sugeriu que ele tinha sido “um pouco rude” com o estagiário, Artur sentiu um soco no peito. Não era culpa; era ameaça. Como ela se atrevia a manchar a imagem perfeita que gastava tanta energia a polir?

— Tu não percebes nada, Helena — disse ele, a voz calma, mas carregada de veneno. — Se eu fui duro, foi para ensinar. O mundo é dos fortes, mas tu sempre preferiste o lado dos fracos. É por isso que nunca chegaste a lado nenhum.

Enquanto falava, Artur sentia um alívio quase físico. Ao diminuir Helena, ele crescia de novo. Se ele se sentia mal por dentro, era óbvio que a culpa era dela. Ela era o ruído que tentava estragar a sua sinfonia.

Ele não se sentia mal por fazê-la chorar. Na verdade, ele via as lágrimas dela como uma prova do seu poder. Se ele pudesse controlar as emoções dela daquela forma, então ele ainda estava no comando. Ele nunca assumiria um erro, porque, na cabeça de Artur, o erro era uma invenção de pessoas medíocres para tentar derrubar os grandes.

          Ele voltou para o espelho do quarto. Ajeitou a gravata. O reflexo devolveu o homem que ele precisava que o mundo visse. O vazio no seu peito ainda estava lá, mas contanto que Helena carregasse a culpa por esse vazio, Artur poderia continuar a fingir que era feito de ouro.

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