A palavra que liberta: como “Entre Mulheres” mostra a força de falar sobre a dor

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Existem filmes que nos prendem pela ação, pelos efeitos especiais ou pelo suspense. E existem outros, mais raros, que nos seguram pelo que parece, à primeira vista, o oposto disso: por um grupo de pessoas conversando dentro de um celeiro. “Entre Mulheres”, dirigido por Sarah Polley e baseado no livro de Miriam Toews (Entre Mulheres, 2022), pertence a esse segundo grupo. Indicado ao Oscar e premiado pelo melhor roteiro adaptado, o filme acompanha mulheres de uma comunidade religiosa isolada que, depois de anos sofrendo abusos sexuais cometidos pelos homens do próprio vilarejo, se reúnem para tomar uma decisão coletiva: perdoar, lutar ou ir embora. O mais marcante é que a violência praticamente não aparece na tela. O que vemos é o que vem depois, o momento em que essas mulheres, juntas, finalmente encontram palavras para nomear aquilo que viveram. E é aí que mora a força do filme. Como já dizia Freud no início do século XX, muito do nosso sofrimento começa a se transformar quando conseguimos colocá-lo em palavras.

Antes da reunião no celeiro, essas mulheres viviam dentro de uma realidade distorcida. Por anos, os ataques noturnos foram explicados como “fruto da imaginação delas”, “histeria feminina”, “castigo divino” ou até “obra do demônio”. Hoje temos um nome para essa estratégia: gaslighting. É quando alguém nos faz duvidar da própria percepção, da própria memória, da própria sanidade. Não é coisa exclusiva de comunidades isoladas, acontece em relacionamentos abusivos, em ambientes de trabalho tóxicos, em famílias onde a verdade incomoda. A pessoa que sofre começa a achar que o problema é ela, que está exagerando, que precisa engolir o que sentiu. A psiquiatra americana Judith Herman, em sua obra Trauma e recuperação (Herman, 2015), uma das maiores referências mundiais em estudos sobre trauma, explica que essa distorção da realidade é uma das principais ferramentas usadas para manter o controle em situações de violência. Sem ela, o abuso seria insustentável. É justamente por isso que o primeiro ato de coragem das personagens é tão potente: quando elas finalmente dizem em voz alta “isso foi um crime”, o feitiço se quebra. Elas deixam de ser objetos da violência e voltam a ser autoras da própria história. Segundo Herman (2015), a recuperação do trauma sempre passa por dois passos fundamentais: criar um lugar seguro e reconstruir a verdade dos fatos. É exatamente isso que o celeiro se torna ao longo do filme, um lugar onde, pela primeira vez, a verdade pode ser dita sem ser engolida.

Uma das coisas mais bonitas do filme é não tratar as personagens como um bloco único de “vítimas”. Cada mulher carrega o trauma de um jeito, e cada reação faz sentido dentro da sua própria história. Salome explode em raiva e quer pegar em armas, ela representa aquele impulso visceral de quem não aguenta mais e prefere morrer lutando do que continuar sofrendo. Mariche, marcada por um casamento violento, defende ficar e perdoar, porque foi o que aprendeu a vida inteira a fazer para sobreviver. Ona, grávida em decorrência de um dos abusos, parece quase serena: ela racionaliza, faz perguntas filosóficas, tenta encontrar um sentido. As mais velhas, como Agata e Greta, trazem a sabedoria de quem já viu muito, mas também a culpa de quem se sente responsável por não ter protegido as mais novas. No começo, o grupo trava. Discutem, choram, gritam, se acusam. Não conseguem decidir nada. O psicanalista britânico Wilfred Bion, em Experiências com grupos (Bion, 1961), estudou exatamente esse fenômeno e percebeu que grupos sob estresse costumam oscilar entre três reações automáticas: brigar entre si, fugir do problema ou ficar esperando que alguém de fora resolva tudo. É quando o grupo consegue sair desse modo automático e passar a pensar junto que algo realmente novo aparece, Bion (1961) chamou isso de “grupo de trabalho”. O filme inteiro pode ser visto como essa travessia. As mulheres vão, aos poucos, deixando de reagir e começando a construir. O celeiro, que era só um depósito de feno, vira outra coisa. Vira um espaço intermediário, entre o passado que precisa ser compreendido e o futuro que precisa ser inventado. O psicanalista inglês Donald Winnicott, em O brincar e a realidade (Winnicott, 1971), tinha um nome bonito para esse tipo de lugar: “espaço potencial”. É o território simbólico onde a gente brinca, sonha, planeja, cria. Onde a realidade ainda pode ser remodelada. É o que toda criança faz quando inventa uma história com os brinquedos, e é o que essas mulheres fazem ali, com palavras, ao redor de uma assembleia improvisada.

Tem uma camada do filme que não pode ser ignorada: a fé. O trauma dessas mulheres é ainda mais profundo porque foi cometido dentro da própria comunidade religiosa, por homens que rezavam ao lado delas, e em nome de uma moral que exige o perdão como prova de virtude. Os líderes da colônia dizem: se vocês não perdoarem, perderão o lugar no céu. Esse é um dos pontos mais delicados do filme, porque atinge algo essencial, para essas mulheres, ir embora não significa só mudar de endereço, significa arriscar a salvação eterna, da forma como sempre acreditaram. Decidir ficar ou partir, portanto, não é uma escolha prática. É uma escolha sobre quem elas querem ser, sobre o que é fé de verdade e o que é apenas pressão disfarçada de espiritualidade. Em determinado momento, uma das personagens diz algo que resume tudo: o perdão forçado não é perdão, é continuação da violência. Quando o perdão é exigido como condição para ser aceita, ele vira mais uma forma de calar quem foi machucada. A filósofa alemã Hannah Arendt, em A condição humana (Arendt, 1958), costuma ser lembrada em discussões assim, mesmo sendo da filosofia e não da psicologia. Ela dizia que falar e agir em público é uma espécie de “segundo nascimento”: é o momento em que deixamos de ser apenas corpos vivos e passamos a existir como pessoas no mundo, com voz e com posição. É isso que está acontecendo dentro do celeiro. Ao discutir e votar, essas mulheres nascem pela segunda vez, não para o mundo da paróquia, mas para o mundo onde elas, finalmente, contam.

Vale dizer também que o filme não trata os homens como vilões caricatos nem como salvadores. August, o professor que registra a ata da reunião, é um homem, talvez o único homem bom daquele universo, e ele está ali em silêncio, escutando, anotando, validando. Ele não fala pelas mulheres, não decide por elas, não interrompe. Apenas garante que as palavras delas fiquem registradas. Esse detalhe é precioso, porque mostra um modelo de presença masculina raro nesse tipo de história: o homem que se cala para que as mulheres possam falar. Em termos psicológicos, August representa a função do “outro testemunha”, figura essencial nos processos de elaboração do trauma. Não basta falar, é preciso ser ouvido por alguém que acredita. Como observa Herman (2015), a escuta valida a experiência. Sem isso, a palavra cai no vazio e a dor volta a se fechar em silêncio. E isso vale para muito além do filme. Em qualquer processo de cura, uma sessão de terapia, uma conversa com uma amiga, um grupo de apoio, a presença de alguém que escuta sem julgar é parte do remédio. Não é à toa que dizemos “desabafar”. Quando contamos algo difícil para alguém que sustenta nosso relato, parte do peso realmente sai.

No desfecho, o grupo decide ir embora. Mas a partida não é uma fuga. É uma decisão. É a diferença entre correr com medo e caminhar com clareza para outro lugar. Essas mulheres saem porque, depois de tantas horas conversando, elas entenderam o que querem, o que valorizam, do que precisam proteger as crianças. Saem com um plano, com uma escolha feita em conjunto, com a dignidade de quem se ouviu. “Entre Mulheres” (2022) é, no fundo, um filme sobre resistência, mas uma resistência que não tem nada a ver com gritar mais alto ou revidar com a mesma moeda. É a resistência de quem, mesmo destruída por dentro, encontra forças para se sentar em roda e construir, palavra por palavra, uma vida nova. Mostra que o trauma fragmenta, sim, abala a confiança no outro, em si mesmo, no mundo. Mas também mostra que essa fragmentação não precisa ser definitiva. Contar a própria história em voz alta, diante de quem escuta de verdade, é capaz de costurar de volta o que estava em pedaços. E talvez seja por isso que o filme toca tanta gente que nunca viveu nada parecido com o que as personagens viveram. Porque, em alguma medida, todos nós já sentimos o alívio profundo de ser escutado. Todos nós já tivemos algum silêncio que precisava ser quebrado. E todos nós podemos, se quisermos, ser para alguém aquilo que aquelas mulheres foram umas para as outras: uma testemunha confiável, uma presença que não duvida, um espaço onde a palavra pode finalmente ser dita. Como lembra Arendt (1958), é pela palavra compartilhada que nascemos para o mundo comum, e é por isso que “Entre Mulheres” continua sendo, antes de tudo, um lembrete dessa verdade.

 

Referências

ARENDT, H. A condição humana. Chicago: University of Chicago Press, 1958.

BION, W. R. Experiências com grupos. Londres: Tavistock Publications, 1961.

ENTRE MULHERES. Direção: Sarah Polley. Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Frances McDormand. Estados Unidos: Orion Pictures; Plan B Entertainment, 2022. 1 filme (104 min).

HERMAN, J. L. Trauma e recuperação: o legado da violência — do abuso doméstico ao terror político. Nova York: Basic Books, 2015.

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Londres: Tavistock Publications, 1971.

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