As coisas que você só vê quando desacelera: respirar entre as pausas, de Haemin Sunim

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Comecei a ler “As coisas que você só vê quando desacelera, de Haemin Sunim” (2017), em um momento em que minha rotina parecia não ter pausas. Eu vivia em função de tentar fazer tudo ao mesmo tempo, sem reservar sequer um instante para simplesmente descansar. Talvez por isso o título tenha me atraído tanto, como um convite silencioso para respirar. Encontrei o livro por acaso, na casa dos meus avós, e resolvi abri-lo. A partir das primeiras páginas, senti que aquelas palavras me acolhiam, como se o autor me oferecesse um tempo diferente daquele que eu vinha vivendo.

Haemin Sunim, monge zen-budista, propõe uma escrita que combina espiritualidade, filosofia e psicologia de forma acessível e sensível. Convida o leitor a olhar para dentro, sem pressa, e a se reconectar com o essencial. Desde o início, ele nos apresenta uma inversão de lógica: não é o mundo que está acelerado, mas a mente que se move rápido demais. Essa ideia me fez refletir sobre quantas vezes a agitação nasce em mim mesma, nas expectativas, nas cobranças, nos pensamentos incessantes. Ao desacelerar o olhar, percebi que tudo muda de cor: a realidade se transforma conforme o foco da mente.

O autor fala sobre atenção plena, compaixão e aceitação de maneira prática, sem exigir qualquer conhecimento prévio sobre o budismo. Ele nos convida a sermos amigos das próprias emoções, inclusive das mais difíceis, observando-as como nuvens passageiras. Essa metáfora me marcou profundamente. Quantas vezes tentei controlar o que sentia, como se as emoções precisassem ser vencidas? O livro me lembrou que o silêncio e a observação, e não a resistência, são formas genuínas de cuidado.

Entre os capítulos, os temas sobre relacionamentos e perdão se destacaram para mim. Haemin (2017) compara um bom relacionamento a sentar-se diante de uma lareira: é preciso estar perto o suficiente para sentir o calor, mas não tanto ao ponto de se queimar. Essa imagem resume a delicadeza necessária nas relações humanas, o equilíbrio entre proximidade e espaço, entre afeto e liberdade. Quando fala sobre o perdão, o autor traz uma perspectiva libertadora: perdoar não é absolver quem feriu, mas deixar de carregar o agressor dentro de si. Essa compreensão torna o perdão menos um gesto de esquecimento e mais um ato de libertação pessoal.

Há também uma ternura muito bonita na forma como ele fala sobre a vida, a leveza e o futuro. Quando Sunim afirma que “as pessoas não estão tão interessadas em você quanto você pensa” (SUNIM, 2017, p. 184), é um lembrete simples e direto sobre a vaidade e o peso que damos à opinião alheia e, de certa forma, um convite a viver com mais autenticidade. O autor fala que a leveza também é uma forma de sabedoria, e que o verdadeiro desafio espiritual talvez esteja em viver em harmonia com os outros, sem deixar de ser quem se é.

Em um mundo em que o sucesso é frequentemente confundido com pressa, Haemin não propõe uma fuga da realidade, mas um retorno mais consciente a ela, um modo de existir com inteireza, gentileza e presença. Ao longo da leitura, compreendi que desacelerar não é parar, mas mover-se de outro jeito: com mais escuta, mais clareza e menos cobrança. Há algo de transformador em perceber que o mundo ganha outra textura quando o ritmo da mente se aquieta.

Terminei o livro com uma sensação específica, como quem respira fundo depois de muito tempo. Não é uma leitura para ser feita às pressas, mas sentir, refletir e se reconhecer nos silêncios entre as palavras. O autor nos conduz a encontrar o “observador silencioso” dentro de nós, aquele que existe antes das expectativas, das urgências e dos medos. Tornar-se amigo desse observador talvez seja o primeiro passo para redescobrir a paz. Depois de ler o livro, algumas perguntas ficaram ecoando em mim: O que deixo de perceber quando vivo com pressa?; O que realmente precisa da minha urgência e o que só precisa da minha presença? E, talvez, a mais importante de todas: o que em mim ainda precisa de silêncio para florescer?

FICHA TÉCNICA

Título: As coisas que você só vê quando desacelera

Autor: HAEMIN SUNIM 

Editora: SEXTANTE (GMT Editores Ltda.)

Data de publicação: 2 de Outubro de 2017

Número de páginas: 256 páginas 

Gênero: Meditação, Espiritualidade

ISBN 978-85-431-0529-1  

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