A Psicologia Hospitalar no contexto da amputação: entre apontamentos técnicos e humanísticos

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A amputação é um procedimento médico que transcende a dimensão biológica, desencadeando uma profunda crise de identidade e a vivência da chamada “morte de um projeto de vida”. Segundo Goellner e Paiva (2008), o paciente passa por um luto complexo, comparável à perda de um ente querido, e manifesta reações emocionais intensas como ansiedade (pré e pós-operatória), dor fantasma, negação, raiva e tristeza, além da dificuldade em aceitar a nova imagem corporal.  Rocha (2020) explica que, sem o suporte adequado, há risco elevado de depressão, isolamento social e até automutilação, fatores que comprometem a adesão à reabilitação e à reintegração social. Nesse cenário de vulnerabilidade, a Psicologia Hospitalar se estabelece como um pilar estratégico e indispensável, cuja intervenção deve ocorrer de forma precoce e integrada nas fases pré, trans e pós-cirúrgica. O psicólogo atua como uma “ponte terapêutica”, auxiliando o paciente na reconstrução da identidade e favorecendo sua conexão com o processo de reabilitação física, mental e social (Alamy, 2024).

O papel do psicólogo vai além do suporte clínico, abrangendo também a função de facilitador da comunicação e de orientador da equipe multiprofissional, garantindo a qualidade do cuidado ao identificar e manejar demandas que afetam tanto o paciente quanto o corpo hospitalar. Nesse sentido, a escuta psicológica desempenha papel fundamental no enfrentamento do luto, auxiliando o paciente a lidar com o desconhecido e a atravessar os estágios do luto descritos por Elisabeth Kübler-Ross (2005), promovendo a aceitação, o manejo da síndrome do membro fantasma e a reconstrução da autoimagem. Esse processo inclui também o acolhimento da família, reconhecida como a principal rede de apoio, fortalecendo-a para atuar ativamente no processo de recuperação (Seren e De Tilio, 2014).

Além disso, a Psicologia Hospitalar contribui para o fortalecimento do empoderamento do paciente, funcionando como canal informativo sobre os direitos sociais da pessoa com deficiência, incluindo a lei de cotas e as possibilidades de retorno ao trabalho, reemprego e recolocação profissional (Ferreira, 2016; Ministério da Saúde, 2013). Essa orientação amplia as perspectivas do indivíduo e garante que sua capacidade seja valorizada para além da perda física, estimulando sua participação ativa na vida social. Outro aspecto essencial é a otimização da reabilitação, especialmente em casos de cirurgias eletivas, nos quais a preparação psicológica prévia se mostra decisiva para favorecer a aceitação da prótese e aumentar as chances de sucesso no processo de reabilitação. A facilitação do contato com outros amputados também se apresenta como estratégia valiosa, permitindo a troca de experiências e a observação de modelos de superação que funcionam como recursos motivacionais (Falkenbach, 2008).

A tomada de consciência da nova realidade é sempre um processo gradual, e o êxito terapêutico dependerá da habilidade do psicólogo em integrar fatores biopsicossociais, como apoio familiar, recursos sociais disponíveis e singularidades emocionais do paciente. Por esse motivo, Saúde (2012) diz que a intervenção psicológica deve ser considerada um componente estratégico obrigatório nos protocolos de atendimento ao paciente amputado, preferencialmente se iniciado já na fase pré-cirúrgica. Assim, a reabilitação dependerá diretamente da capacidade do psicólogo de articular a dimensão emocional, social e legal no plano de cuidados hospitalar, garantindo uma assistência humanizada e integral (Paiva e Goellner, 2008).

REFERÊNCIAS

ALAMY, Susana. Ensaios de Psicologia Hospitalar: a Ausculta da Alma – Compêndio de Psicologia Hospitalar – 4ª Edição Revista e Ampliada. São Paulo, SP: Da Autora, 2024.

AS FASES DO LUTO – Família Acolhedora. Disponível em: https://familiaacolhedora.org.br/guia/602-2/. Acesso em: 29 set. 2025.

ASPECTOS NEUROPSICOLÓGICOS DE UM MEMBRO FANTASMA | PDF | Dor | Psicoterapia. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/399643257/Aspectos-Neuropsicologicos-de-Um-Membro-Fantasma. Acesso em: 29 set. 2025.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Diretrizes de atenção à pessoa amputada. 1. ed. 1. reimp. – Brasília: Ministério da Saúde, 2013. p. 17.

FALKENBACH, L. A. A. P. Imagem corporal em indivíduos amputados. Revista Digital, v. 14, n. 131. Disponível em: http://www.efdeportes.com/efd131/imagem-corporal-em-individuos-amputados.htm. Acesso em: 29 set. 2025.

FERREIRA, Peixoto de Andrade. Perfil epidemiológico dos amputados de membro inferior em um centro de reabilitação. [S.l.: s.n.], [2016]. Disponível em: https://www.reabilitar.org.br/ceir/wp-content/uploads/2017/11/PERFIL-EPIDEMIOL%C3%93GICO-DOS-AMPUTADOS-DE-MEMBRO-INFERIOR-EM-UM-CENTRO-DE-REABILITA%C3%87%C3%83O.pdf?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 1 out. 2025.

GOELLNER, Silvana Vilodre; PAIVA, Luciana Laureano. Reinventando a vida: um estudo qualitativo sobre os significados culturais atribuídos à reconstrução corporal de amputados mediante a protetização. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, v. 12, n. 26, p. 485-497, 2008.

KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a morte e o morrer. Tradução de Paulo Menezes. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

PAIVA, Luciana Laureano; GOELLNER, Silvana Vilodre. Reinventando a vida: um estudo qualitativo sobre os significados culturais atribuídos à reconstrução corporal de amputados mediante a protetização. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, v. 12, p. 485–497, 2008.

ROCHA, Fabiana Esperança. Aspectos neuropsicológicos de um membro fantasma – Projeto Acolher. Portal Educação, 2020. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/399643257/Aspectos-Neuropsicologicos-de-Um-Membro-Fantasma. Acesso em: 2025.

SAÚDE, Ministério da. Diretrizes de atenção á pessoa amputada. [S.l.]: Ms, 2012.

SEREN, Renata; DE TILIO, Rafael. As vivências do luto e seus estágios em pessoas amputadas. Revista da SPAGESP, v. 15, n. 1, p. 64–78, 2014. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702014000100006&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 29 set. 2025.

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