A solidão das mães na universidade

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Se você perguntar para qualquer mulher se ser mãe é fácil… ela irá sorrir, e dizer que não é. Agora, pouco se fala da mãe que apresenta jornada dupla, ou tripla… Dentro da universidade, a discrepância entre a rotina de uma jovem que apenas estuda, mora sozinha ou com amigos, e apresenta disponibilidade de tempo pra estudar, se difere muito da situação de uma outra mulher jovem que tem filhos esperando em casa, que muitas vezes só dormem com a mãe, que anseiam por sua presença, além dos compromissos extras que vem com a maternidade: ida às reuniões escolares, farmácias, consultas pediátricas, etc.

Quando essas mães veem que são as únicas que estão se programando para dar mamadeira ou amamentar seu bebê, antes de estudar pra prova tarde da noite, enquanto seus amigos estão indo para um happy hour, o sentimento de isolamento aparece. As pesquisas sobre gênero e maternidade na educação superior (Carvalho & Borges, 2021) já mostraram o que essas mulheres vivem na pele: a universidade foi feita pensando em jovens sem filhos, disponíveis 24 horas para se dedicar à vida acadêmica. Quando entra uma mãe nesse cenário, a engrenagem range. Como uma mãe que depende de creche, com vários compromissos durante o dia vai poder se destacar ou ao menos entregar o mínimo para professor que sequer flexibilizam prazos? Essas estudantes vão sendo empurradas para as margens, mesmo quando elas estão sentadas na primeira fila da sala.

O isolamento social talvez seja o ponto mais doloroso. Não é que elas não queiram ter amigos ou participar de projetos extras, é que simplesmente não sobra espaço na agenda.  Muitas vezes, as aulas, provas e palestras obrigatórias já preenchem mais do seu tempo do que deveriam. E aí vem aquela sensação de não-pertencimento: não ser “inteiramente universitária”, mas também sentir que não está sendo a mãe “100% presente”. É uma culpa dupla, que acompanha a cada passo: quando está na faculdade, pensa no filho; quando está com o filho, pensa na faculdade.

E, claro, não dá pra ignorar o peso estrutural disso tudo. Enquanto pais universitários muitas vezes passam despercebidos (ninguém pergunta se eles vão “dar conta”), as mães são tratadas como se estivessem fazendo um sacrifício quase heroico. Mas o heroísmo não deveria ser requisito para estudar. O que falta é suporte: creches, bolsas específicas, horários flexíveis, professores mais conscientes de que maternidade e vida acadêmica não são inimigas. Apesar de toda essa solidão, também existe resistência. Coletivos de mães universitárias têm surgido em várias instituições, criando redes de apoio, denunciando desigualdades e, principalmente, mostrando que não estão sozinhas. No fundo, essa solidão é fruto de uma estrutura ultrapassada, que insiste em fingir que todos os alunos são iguais, quando, na prática, não são.

Então, talvez, a pergunta não seja como essas mulheres conseguem “dar conta” de tudo, mas por que as universidades continuam não dando conta delas.


Referência: Pesquisas de gênero e maternidade na educação superior (Carvalho & Borges, 2021).

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