Maternidade atípica no Brasil: desafios, sobrecarga e a luta por direitos

Compartilhe este conteúdo:

Com base na análise aprofundada do estudo de Barbosa et al. (2025), a vivência da maternidade atípica no Brasil contemporâneo emerge como um fenômeno complexo, permeado por desafios que transcendem a esfera privada e se configuram como uma relevante questão de saúde pública. A pesquisa, delineada como uma revisão sistemática de abordagem qualitativa, objetivou identificar os principais obstáculos enfrentados por mães de crianças com necessidades especiais, revelando uma teia de dificuldades que afetam diretamente a saúde mental e o bem-estar dessas mulheres. O termo “mães atípicas” é empregado para designar as mães que cuidam de filhos com algum transtorno ou deficiência, cuja rotina é marcada por lutas e uma resiliência notável diante de um cenário de desamparo institucional e social.

A investigação aponta que a confirmação de um diagnóstico, como o de Transtorno do Espectro Autista (TEA), representa um momento de inflexão para a família, especialmente para a mãe, que frequentemente assume para si a responsabilidade quase integral pelos cuidados. Essa dedicação exclusiva resulta em uma rotina que pode levar ao esgotamento físico e mental, uma vez que muitas dessas mulheres abdicam de suas carreiras e de suas vidas sociais para se dedicarem inteiramente aos filhos. A partir da análise dos estudos selecionados, emergiram quatro categorias centrais que estruturam a experiência dessas mães: a sobrecarga de cuidar, a falta de uma rede de apoio, as barreiras no acesso a serviços de saúde e o despreparo do sistema educacional.

A sobrecarga de cuidar é a categoria que talvez melhor sintetize o cotidiano dessas mulheres, no qual a responsabilidade pelo cuidado recai, predominantemente, e, por vezes, exclusivamente sobre elas, gerando sentimentos de desamparo e insegurança. Essa sobrecarga é agravada pela ausência de uma rede de apoio sólida, seja por parte da família ou de equipamentos de políticas públicas, o que eleva significativamente os níveis de estresse, com prevalência de sintomas psicológicos e fases de quase-exaustão. A importância crucial dessa rede é verbalizada no relato de uma das participantes de uma pesquisa citada, que desabafa: “Primeira coisa é essa: que rede de apoio? Eu não tenho rede de apoio. É bem difícil” (COLOMÉ, et al., 2024, p. 6 apud BARBOSA et al., 2025, p. 106). A falta de suporte familiar e de amigos desencadeia tanto um desgaste físico quanto um sofrimento psíquico intenso.

Somam-se a isso as barreiras institucionais, especialmente no acesso aos serviços de saúde. A jornada das famílias frequentemente se inicia com a percepção de um desenvolvimento atípico nos filhos, seguida por uma longa busca por diagnóstico e tratamento em diversos serviços de saúde e assistência social. Nesse percurso, as famílias deparam-se com o despreparo de profissionais para acolher adequadamente as crianças e suas demandas, evidenciando um descumprimento de marcos legais como a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que garantem prioridade e atenção integral. De forma similar, o despreparo das escolas representa um obstáculo significativo. Embora a legislação brasileira, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), assegure a educação inclusiva, a pesquisa aponta uma notável discrepância entre o texto legal e a realidade prática. Muitas escolas não possuem estrutura e profissionais capacitados para promover uma inclusão efetiva, dificultando o aprendizado e o desenvolvimento das crianças.

Apesar de um arcabouço legal robusto, que inclui desde a Lei nº 7.853/1989 de apoio à pessoa com deficiência até legislações mais recentes como a Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012) e a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), a efetivação desses direitos ainda é um desafio. O estudo ressalta a necessidade urgente de aprimorar as políticas públicas, fortalecendo o Sistema Único de Saúde (SUS), as políticas educacionais e de assistência social para que atuem de forma integrada junto às crianças e suas famílias. Conclui-se que o desamparo institucional e a violência silenciosa a que essas mães são submetidas produzem efeitos sintomáticos graves, tornando imperativo o desenvolvimento de estratégias que ofereçam suporte não apenas às crianças, mas também a quem cuida, visando a saúde e a qualidade de vida de todo o núcleo familiar.

Referências

ARAÚJO, E. C. C; SOARES, M. T. N. Expectativas familiares sobre a inclusão de estudantes com deficiência: Interfaces com o currículo escolar. Research, Society and Development, v. 12, n. 9, p. 1-14, 2023.

BARBOSA, P. C. P. et al. Mães Atípicas: Desafios da Maternidade. Id on Line. Revista de Psicologia, v. 19, n. 77, p. 98-111, jul. 2025.

BRASIL. Lei n.º 7.853 de 24 de outubro de 1989. Dispõe sobre o apoio às pessoas portadoras de deficiência e dá outras providências. Presidência da República: Brasília, 24 de outubro de 1989.

Compartilhe este conteúdo: