O complexo de prometeu: culpa, cisão psíquica e a pulsão de morte em ‘Oppenheimer’

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A cinebiografia Oppenheimer (2023), dirigida por Christopher Nolan, estrutura-se não apenas como um drama histórico, mas como um thriller psicológico que mergulha na mente fraturada de J. Robert Oppenheimer. O filme visualiza o psiquismo do protagonista através de partículas, ondas e explosões, metaforizando a turbulência interna de um homem que, ao buscar desvendar os segredos do universo, acabou por entregar à humanidade a chave para sua própria aniquilação. A narrativa evoca o mito grego de Prometeu — que roubou o fogo dos deuses e foi condenado ao sofrimento eterno — para discutir a psicopatologia do poder e o peso esmagador da responsabilidade.

Do ponto de vista psicanalítico, a jornada de Oppenheimer durante o Projeto Manhattan é marcada por um intenso mecanismo de racionalização e dissonância cognitiva (FESTINGER, 1957). Para liderar a construção da bomba, o físico precisou compartimentalizar sua psique: de um lado, o teórico fascinado pela beleza da física quântica; do outro, o humanista que sabia que estava forjando a morte. Ele sustenta a crença de que a bomba “acabaria com todas as guerras”, uma justificação moral necessária para aplacar o Superego e permitir que o trabalho continuasse. Essa cisão é brutalmente rompida após o teste Trinity e, subsequentemente, os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki.

A célebre frase citada por ele, “Agora eu me tornei a Morte, o destruidor de mundos” (do Bhagavad Gita), sinaliza o momento em que a Pulsão de Morte (Thanatos) se torna consciente. Freud (2011), em O Mal-estar na Civilização, postula que a agressividade e a autodestruição são componentes inatos da condição humana. Oppenheimer percebe que serviu como o instrumento definitivo dessa pulsão em escala global. A cena do discurso no ginásio, onde o som dos aplausos é substituído pelo som de gritos e pela visão da pele derretendo dos rostos da plateia, ilustra um episódio dissociativo traumático. É a irrupção do Real (no sentido lacaniano) que não pode mais ser simbolizado ou justificado pela teoria.

Além da culpa, o filme explora o Narcisismo e a rivalidade através da figura de Lewis Strauss. A perseguição política que Oppenheimer sofre no pós-guerra funciona como uma castração simbólica pública, onde ele é despido de sua autoridade e reputação. Curiosamente, o filme sugere que Oppenheimer aceita esse martírio em silêncio, talvez como uma forma inconsciente de expiação (punição autoprovocada) pelos pecados nucleares que cometeu.

A obra dialoga diretamente com o conceito de “Ciência com Consciência” de Edgar Morin (2005). Oppenheimer representa o perigo da disjunção entre o saber técnico e a reflexão ética. Ao final, o olhar vago do protagonista diante das gotas de chuva no lago (que se assemelham a explosões na superfície) nos deixa com a ansiedade perene da Guerra Fria: a de que a caixa de Pandora, uma vez aberta pela curiosidade científica, jamais poderá ser fechada. O legado psicológico de Oppenheimer é a introdução do medo da extinção iminente no inconsciente coletivo da humanidade.

Referências Bibliográficas:

BIRD, Kai; SHERWIN, Martin J. Oppenheimer: O triunfo e a tragédia do Prometeu americano. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2023.

FESTINGER, Leon. A Theory of Cognitive Dissonance. Stanford: Stanford University Press, 1957.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: Obras completas, volume 18. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

JUNG, Carl G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000.

MORIN, Edgar. Ciência com consciência. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

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