
Fritz Eichenberg. The Grand Inquisitor. Ilustração para The Brothers Karamazov, Livro V, 1949.
Os Irmãos Karamazov foi o último romance escrito por Dostoiévski, que morreu quatro meses após sua publicação, em fevereiro de 1881, aos 59 anos. Já faz um tempo que leio seus livros e sempre fico perplexa, mesmo nas releituras. É difícil entender como uma única mente conseguiu produzir uma polifonia de vozes tão profunda e variada que parece abarcar quase todas as inquietações humanas.
Mas hoje quero falar de um único capítulo dessa obra, pois, em poucas páginas e de forma tão fenomenal e atemporal, Dostoiévski conseguiu revelar a complexa relação entre o ser humano e Deus, ou, mais precisamente, como essa relação é usada por muitos para construir verdades circunstanciais. Assim, em alguns momentos, tais verdades ajudam a dar sentido à vida, ainda que a simplifiquem, e, em outros, servem para ludibriar o fato de que o Deus-Filho crucificado é pouco querido pela grande maioria; logo, torna-se mais conveniente reinventá-lo.
O capítulo “O Grande Inquisidor” inicia-se com uma história contada por Ivan Karamazov a seu irmão Aliócha, o monge, sobre um possível retorno de Jesus à Terra, só que essa volta ocorre em Sevilha, na época da Inquisição Espanhola. Assim como o Messias do Novo Testamento, o Jesus da Espanha é um homem simples, portador de uma mensagem de amor e paz, que concede ao homem a liberdade de escolha, mesmo tendo poderes para fazê-lo acreditar por meio de milagres espetaculares. Isso me faz refletir sobre o Jesus descrito na Bíblia, que, analisado sob qualquer perspectiva, o que vem à tona é um homem que viveu de forma simples, sem preconceitos, sem bens materiais ou distinções de qualquer natureza. Essa análise é sempre inquietante, especialmente quando percebemos a forma como muitos deturpam sua palavra e seu testemunho ao demonstrar um tipo de poder e um discurso tão distintos daquilo que o Messias anunciou e pregou em vida.
O cerne do capítulo é o embate entre o grande inquisidor, que é uma importante figura da Igreja na Espanha, e o Filho de Deus. Ele, inicialmente, já entende que a pessoa à sua frente pode ser Jesus em um retorno à Terra, por isso diz: “Por que vieste nos atrapalhar?” (p. 347). Esse questionamento torna o capítulo atemporal, pois é bem provável que uma importante parcela daqueles que estão à frente de igrejas ou que defendem posicionamentos radicais em Seu nome perderia o chão se O vissem assim como é, sem espaço para interpretações obscuras movidas por interesses diversos.
No contexto do inquisidor, pessoas que não partilhavam da fé oficial poderiam até ser lançadas à fogueira, então a presença daquele Jesus do Novo Testamento ali tornava todo o cenário um absurdo. Ele pregava e demonstrava em suas ações que o perdão era necessário, afirmava que apenas aqueles sem pecado poderiam atirar a primeira pedra, evidenciando, assim, que todos erram, em maior ou menor grau, logo a violência não encontra legitimidade em cenário algum. Observando aquele Jesus silencioso de perto, essa contradição entre o poderio de sua igreja e aquela imagem o lança ao desespero, e o inquisidor brada:
“Queres ir para o mundo e estás indo de mãos vazias, levando aos homens alguma promessa de liberdade que eles, em sua simplicidade e em sua imoderada natureza, sequer podem compreender, da qual têm medo e pavor, porquanto para o homem e para a sociedade humana nunca houve nada mais insuportável do que a liberdade!” (p. 351)
Aqui o inquisidor já mostra o motivo de sua ira: esse Jesus, assim como aquele outro que viveu entre pescadores, dá ao homem a liberdade de escolha, algo que, para quem quer dominar as massas, seria insuportável. Isso nos remete aos dias atuais, em que é mais fácil ludibriar por meio de mistérios insondáveis, pregar um Deus distante e punitivo, mas que oferece pão e circo, do que permitir que as pessoas possam se enxergar sem rótulos ou divisões.
Segundo o inquisidor, “não há preocupação mais constante e torturante para o homem do que, estando livre, encontrar depressa a quem sujeitar-se” (p. 352). Assim, essa parece ser a tônica atual, ou seja, pessoas manipuladas ao extremo, seja por políticos, por guias espirituais de todas as espécies, por “influenciadores”, por todos aqueles que insistem em tornar a maioria incapaz de pensar por si, sendo usada apenas como fantoche. Mas isso tem um propósito: quando a ignorância torna-se um vírus, o contágio aumenta, a necessidade de submissão se faz presente e a liberdade torna-se um algoz.
“Não desceste da cruz quando te gritaram, zombando de ti e te provocando: ‘Desce da cruz e creremos que és tu’. Não desceste porque mais uma vez não quiseste escravizar o homem pelo milagre e ansiavas pela fé livre e não pela miraculosa. Ansiavas pelo amor livre e não pelo enlevo servil do escravo diante do poderio que o aterrorizara de uma vez por todas. Mas até nisto tu fizeste dos homens um juízo excessivamente elevado, pois, é claro, eles são escravos ainda que tenham sido criados rebeldes.” (p. 355)
Com esse discurso, o inquisidor torna-se a representação de muitos de nós, desde aquele chefe que aterroriza o empregado para que, diante do medo de perder o emprego, aceite ser explorado, até políticos que buscam fazer valer seu poder por meio de discursos de ódio, pois acreditam em sua própria superioridade e na ideia de que a maioria merece ser subjugada, ou melhor, que clama por isso. No entanto, o Homem que não desceu da cruz, mesmo sendo um Deus, revela o quanto preza o livre-arbítrio e a liberdade humana.
Qualquer cenário diferente disso finalizaria a nossa espécie, pois nos tornaria fantoches de deuses, já que, se fizéssemos qualquer coisa fora daquilo que era esperado, poderíamos ser apagados como por mágica. Mas o livre-arbítrio, pouco compreendido, assim como a liberdade, muitas vezes assustadora, talvez sejam as variáveis que dão sentido à nossa existência, mesmo que não consigamos assimilar esse sentido de fato.
Durante toda a passagem do Grande Inquisidor, Jesus permaneceu calado, mas ouvia com atenção. Irritado por não conseguir provocar n’Ele a mesma ira que estava estampada em sua própria face, o Inquisidor tenta afrontá-lo, mostrando quem, de fato, detém o poder sobre os homens:
“Repito que amanhã verás esse rebanho obediente, que ao primeiro sinal que eu fizer passará a arrancar carvão quente para tua fogueira, na qual vou te queimar porque voltaste para nos atrapalhar.” (p. 360)
Mas Jesus permaneceu em silêncio. Não proferiu nenhuma profecia terrível, não usou seus poderes para mostrar quem, de fato, era o senhor. Apenas se aproximou do velho homem e o beijou, como um pai que beija um filho há muito tempo perdido no deserto de sua própria vida. Esse gesto perturbou o religioso; era-lhe preferível um tapa, um castigo, qualquer forma de punição, àquela benevolência. Incapaz de sustentar o olhar daquele Deus tão absurdamente bom e generoso, gritou: “Vai e não voltes mais… Não voltes em hipótese nenhuma… nunca, nunca!”.
Referências:
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os irmãos Karamázov. Tradução de Paulo Bezerra. 3. ed. São Paulo: Editora 34, 2012. 2 v. 1040 p.
EICHENBERG, Fritz. The Grand Inquisitor. 1949. Ilustração. In: DOSTOIÉVSKI, Fiódor. The Brothers Karamazov. New York: Heritage Press, 1949. Ilustração do Livro V.
