O Smartphone é uma extensão da sua mente ou um parasita cognitivo?

Compartilhe este conteúdo:

Na última década, especialmente após o lançamento dos smartphones e das redes sociais, temos observado uma mudança de comportamento social com o eco na ansiedade digital.

 “Não consigo me concentrar”;

 “Sinto que estou perdendo algo”;

 “Não consigo dormir sem rolar o feed”…

Esses aparelhos tornaram-se uma extensão do nosso próprio ser, ampliando nossa capacidade cognitiva, ou estamos diante de uma relação biológica mais sinistra?

Essa é a provocação central que une duas obras recentes e perturbadoras: o artigo acadêmico “Smartphones: Parts of Our Minds? Or Parasites?” (Smartphones: Partes de Nossas Mentes? Ou Parasitas?), publicado em 2025 por Rachael Brown e Robert Brooks no Australasian Journal of Philosophy, e o livro-reportagem “A Máquina do Caos” (Todavia), do jornalista Max Fisher. 

Por muito tempo, a teoria da “Mente Estendida” (proposta pelos filósofos Clark e Chalmers nos anos 90) nos seduziu. A ideia parecia coerente: se um caderno de anotações serve como memória externa, então o smartphone seria um progresso dessa função, tornando-nos mais inteligentes e capazes.

Brown e Brooks, no entanto, jogam um balde de água fria nessa hipótese otimista. No artigo recém-publicado, os autores argumentam que, para algo ser uma “extensão” da mente, deve haver um alinhamento de interesses: a ferramenta serve aos objetivos do usuário (como um martelo serve ao carpinteiro). O problema do smartphone “moderno” (leia-se: o smartphone das redes sociais) é que ele foi desenhado propositalmente para frustrar os objetivos do usuário em favor dos objetivos de terceiros.

Você pega o celular para “ver a previsão do tempo” (seu objetivo consciente), mas emerge 40 minutos depois de um buraco negro de vídeos curtos, ansioso e sem saber se vai chover. Se o seu “braço” decidisse bater no seu rosto quando você tentasse coçar a cabeça, você não o chamaria de extensão do corpo, mas de uma patologia. 

Os autores sugerem, portanto, que a melhor metáfora biológica não é a simbiose mútua, mas o parasitismo. O hospedeiro (nós) perde recursos vitais (tempo, atenção, regulação emocional) para nutrir o parasita (as plataformas), que devolve pouco além de toxinas psíquicas.

Se o artigo acadêmico nos dá a teoria biológica dessa relação tóxica, o livro de Max Fisher, “A Máquina do Caos”, descreve a anatomia da infecção. Fisher disseca como as redes sociais foram moldadas pelo algoritmo não para conectar pessoas, mas para maximizar o tempo de tela a qualquer custo moral.

A obra de Fisher detalha o funcionamento dos algoritmos de recomendação, que aprenderam (sem precisarem ser ensinados explicitamente) que sentimentos de ultraje moral, medo e tribalismo são os gatilhos mais potentes para manter o usuário engajado. Do ponto de vista psicológico, o que Fisher descreve é um sequestro do sistema dopaminérgico. O algoritmo é um parasita que aprendeu a hackear nossos vieses cognitivos mais primitivos.

O livro mostra o impacto na saúde mental é direto: polarização extrema, distorção da autoimagem e uma sensação constante de perigo iminente. Não é que o usuário seja “viciado” por fraqueza de caráter; é que ele está lutando contra um supercomputador desenhado por algumas das mentes mais brilhantes da engenharia para explorar suas vulnerabilidades psicológicas.

Precisamos parar de tratar o uso problemático de telas apenas como uma questão de “força de vontade” ou “detox digital”. Estamos lidando com uma arquitetura desenhada para ser predatória.

Portanto, reconhecer o smartphone (em sua configuração atual de apps) como um potencial “parasita” não significa demonizar a tecnologia, mas sim reavaliar a nossa imunidade psíquica, questionando se o dispositivo está servindo aos seus objetivos conscientes ou ditando comportamentos que você não escolheu.

A leitura de Fisher e do artigo de Brown & Brooks sugere que a solução não virá apenas do indivíduo que desliga o celular, mas de uma compreensão coletiva de que nossa atenção é um recurso finito e valioso, que está sendo extraído industrialmente. Até lá, a pergunta permanece: quem está no comando da sua mente agora? Você ou a notificação que acabou de chegar?

____________________________________

Ficha Técnica:

Artigo:

Brown, R. L., & Brooks, R. C. (2025). Smartphones: Parts of Our Minds? Or Parasites? Australasian Journal of Philosophy, 1–16. https://doi.org/10.1080/00048402.2025.2504070. Acessado em 03 de dezembro de 2025.

Livro:

Título: A Máquina do Caos: Como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

Autor: Maxi Fisher

tradução èrico Assis

1ª ed. São Paulo

editora todavia

ano 2023– Max Fisher (Todavia).

Compartilhe este conteúdo:
Bacharel em Direito (PUC-GO/2008) Acadêmica de Psicologia.

Deixe um comentário