Há um momento da vida em que o tempo deixa de ser apenas uma medida; horas, dias, calendários, e passa a ser uma experiência sentida. Os dias parecem mais curtos, os anos mais rápidos, e aquilo que antes podia ser adiado começa a ganhar peso. Não é que o tempo tenha acelerado. É a consciência que mudou.
Time, do Pink Floyd, fala exatamente desse instante silencioso em que percebemos que a vida não está mais “começando”. Ela já está em andamento.
Lançada em 1973, a música integra o álbum The Dark Side of the Moon, um trabalho que se dedica a explorar temas universais da experiência humana: a mente, o medo, o dinheiro, a morte e, nesta música, o tempo. Mas Time não trata do relógio em si. Ela fala da maneira como nos relacionamos com o passar dos dias.
Do ponto de vista da Psicologia, um dos temas centrais da canção é a ilusão de que sempre haverá “depois”. Depois eu faço. Depois eu mudo. Depois eu vivo. Esse adiamento constante cria a sensação de movimento, mas muitas vezes esconde uma forma de imobilidade, uma forma de prisão. Estamos ocupados, mas não necessariamente presentes, o indivíduo contemporâneo se acostumou em viver em um tempo que não é o presente, mas sim o passado ou futuro, o que acabou se tornando um ciclo.
A música sugere que, enquanto esperamos o momento ideal, o tempo segue seu curso de forma indiferente. Não como uma força cruel, mas como algo neutro. O sofrimento não vem do tempo em si, mas da falta de consciência sobre como estamos usando nossa própria vida.
Há também, em Time, uma crítica sutil à rotina automática. Dias que se repetem, tarefas que se acumulam, objetivos que foram escolhidos sem reflexão. Para a Psicologia, isso se aproxima do que muitas pessoas relatam como viver “no piloto automático”: quando as escolhas deixam de ser conscientes e passam a ser apenas respostas às exigências externas.
O impacto mais forte da música não está na urgência, mas no arrependimento tardio. A percepção de que o tempo não foi perdido em problemas grandes, mas em pequenas distrações diárias. Em promessas feitas a si mesmo que nunca foram retomadas. Em sonhos que foram sendo reduzidos até caberem na rotina.
Ao mesmo tempo, a música Time não soa como uma acusação. Ela não grita. Ela apenas fala, de forma clara. E essa constatação pode ser desconfortável, mas também libertadora. Porque, se o tempo passou sem que percebêssemos, isso significa que ainda é possível percebê-lo agora.
A escuta atenta da música funciona quase como um espelho psicológico. Ela não diz ao ouvinte o que fazer com sua vida, mas devolve uma pergunta inevitável:
Como estou gastando meu tempo?
Com essa perspectiva, Time não fala sobre envelhecer. Fala sobre acordar. Sobre sair da espera inconsciente e assumir que viver é um ato ativo, não algo que se espera sentado. O tempo não precisa ser um inimigo, mas ele exige presença. E presença, na maioria das vezes, é uma escolha difícil.
Música: Time
Banda: Pink Floyd
Álbum: The Dark Side of the Moon
Ano de lançamento: 1973
Compositores: Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason, Richard Wright
Gênero: Rock progressivo
