Sexualidade na clínica psicológica: entre complexidades, silêncios e demandas

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A presença da sexualidade nas redes sociais não é um fenômeno novo, mas sua expansão recente mudou qualitativamente a forma como os sujeitos se percebem e se relacionam. A internet se tornou um espaço onde a sexualidade pode ser explorada, questionada, expressa e performada — mas também um lugar em que ela é frequentemente convertida em produto, espetáculo e ferramenta de validação.

Há uma diferença fundamental entre sexualidade e sexualização: – A sexualidade é expressão humana, dimensão subjetiva, parte da construção de identidade. – A sexualização é a transformação dessa dimensão em objeto de consumo, exibição compulsória ou mecanismo de aprovação social.

As redes sociais, ao mesmo tempo em que ampliam possibilidades de expressão, também criam pressões invisíveis. A lógica dos algoritmos privilegia corpos padronizados, poses erotizadas e conteúdos que performam desejo. Isso produz um ciclo em que exposição e validação se retroalimentam, afetando especialmente adolescentes e jovens adultos, ainda em processos importantes de formação identitária.

Para muitos usuários, a sexualização constante normaliza comparações, inseguranças corporais, distorções de autoimagem e dificuldade de estabelecer limites. Para outros, gera pressão para corresponder a modelos de sensualidade que não refletem sua realidade emocional, corporal ou subjetiva. Em alguns casos, há impactos significativos: ansiedade, queda de autoestima, compulsões relacionadas à busca por curtidas, sensação de inadequação e até comportamentos de risco.

Por outro lado, não se pode ignorar que as redes também se tornaram espaço de resistência, educação sexual, acolhimento e construção de identidades. Pessoas LGBTQIAPN+, corpos dissidentes, mulheres que buscam autonomia sobre sua sexualidade e indivíduos que foram silenciados socialmente encontram na internet um lugar para existir. Contudo, essa liberdade convive com a vigilância moral, a erotização precoce, o assédio e a violência digital — especialmente contra mulheres e minorias.

O desafio contemporâneo é compreender que as redes sociais amplificam tanto a potência quanto a vulnerabilidade da sexualidade humana. Elas não inventaram a sexualização, mas a intensificaram e a tornaram mais visível, mais cobrada e mais rápida. Navegar por esse ambiente requer educação crítica, fortalecimento emocional e consciência dos limites entre exposição saudável e autopreservação.

Para a Psicologia, isso implica reconhecer que a clínica precisa dialogar com esse novo cenário: compreender como as redes sociais influenciam autoestima, desejo, identidade e relações; acolher sofrimentos decorrentes das comparações constantes; e ajudar o sujeito a construir uma sexualidade que seja sua — e não produto do algoritmo.

Referências 

VELHO, M. Corpo, mídia e subjetividade: a sexualização na era digital. São Paulo: Cortez, 2021. 

ALMEIDA, R.; SILVA, T. Juventudes, redes sociais e sexualização. Porto Alegre: Penso, 2020.

BAUMAN, Z. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

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