Transtorno de estresse pós-traumático: diagnóstico e tratamento

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O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é caracterizado pelo desenvolvimento de sintomas específicos após exposição a um ou mais eventos traumáticos que envolvam morte real ou ameaça, lesão grave ou violência sexual. A característica essencial do TEPT reside no fato de ser precipitado necessariamente por um trauma, sendo peculiar entre outros diagnósticos psiquiátricos pela grande importância dada ao estressor traumático. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 2 milhões de pessoas no Brasil são afetadas pelo TEPT, e, globalmente, o transtorno afeta cerca de 9% das pessoas em algum momento da vida e 4% dos adultos. Estudos indicam que entre 15% e 20% das pessoas expostas a eventos como agressão física, abuso sexual, acidentes graves, desastres naturais, guerras ou violência urbana desenvolvem o transtorno, embora a maioria só busque ajuda aproximadamente dois anos após a primeira crise. O TEPT não pode ser diagnosticado até que tenha passado pelo menos um mês da ocorrência do estressor traumático, sendo que sintomas que aparecem imediatamente após o trauma podem configurar Transtorno de Estresse Agudo, que pode evoluir para TEPT se não tratado adequadamente.

Os eventos traumáticos que podem precipitar TEPT são claramente diferentes dos estressores dolorosos que constituem vicissitudes normais da vida, como divórcio, rejeição, doença grave ou reveses financeiros. O trauma característico do TEPT envolve ameaça subjetivamente percebida à vida, à integridade física ou ao bem-estar psíquico do indivíduo. É importante ressaltar que mesmo pessoas que não foram vítimas diretas podem desenvolver o transtorno: testemunhar agressão, ser informado sobre acidente grave envolvendo familiar, ou trabalhar em contextos de exposição repetida a detalhes de eventos traumáticos (como profissionais de segurança pública e saúde) constituem situações de risco. Mulheres são duas vezes mais atingidas do que homens, e fatores de risco adicionais incluem eventos traumáticos na infância e adolescência, como violência doméstica, transtornos prévios, como TDAH, dificuldades de aprendizado, problemas de sociabilização, e diagnóstico de doenças que ameacem a vida. A violência estrutural e social, como desigualdades, constituem fatores de risco iminentes especialmente durante fases críticas de desenvolvimento pessoal.

A apresentação clínica do TEPT envolve quatro grupos principais de sintomas. A reexperiência traumática manifesta-se através de memórias espontâneas, recorrentes e involuntárias do evento traumático, denominadas flashbacks, além de pesadelos frequentes relacionados ao trauma. Durante os flashbacks, a pessoa sente-se como se estivesse revivendo o acontecimento, experimentando novamente as mesmas sensações físicas, medos e angústias que marcaram o momento específico. O segundo grupo inclui esquiva e isolamento social, caracterizados por evitamento de qualquer estímulo que provoque recordações do trauma, incluindo lugares, pessoas, atividades e conversas relacionadas. Sintomas de negatividade constituem o terceiro grupo, envolvendo incapacidade em se proteger de perigos, sensação de vazio, perda de interesse em atividades anteriormente prazerosas, sentimentos de culpa e vergonha, além de perda da esperança no futuro. O quarto grupo refere-se à hiperexcitabilidade psíquica e psicomotora, manifestada através de episódios de pânico com sintomas físicos como taquicardia, sudorese, náusea, tremores e dores de cabeça, além de estado de alerta constante, dificuldades para dormir e concentrar-se e explosões de raiva.

O diagnóstico diferencial é fundamental para assegurar tratamento adequado. No Transtorno Obsessivo-Compulsivo, existem pensamentos intrusivos recorrentes, mas estes satisfazem critérios de obsessão e não estão relacionados a evento traumático vivenciado, além de compulsões geralmente estarem presentes. Em transtornos de ansiedade generalizada, a preocupação é excessiva mas não está especificamente ligada ao trauma. O diagnóstico de TEPT requer avaliação abrangente que considere exposição ao estressor traumático, presença dos quatro grupos de sintomas, duração mínima de um mês, e sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo funcional. Instrumentos de avaliação padronizados podem auxiliar no processo diagnóstico, mas não substituem avaliação clínica cuidadosa que considere história detalhada, contexto cultural e características individuais do paciente.

O tratamento do TEPT deve ser multifacetado e incluir, além da psicofarmacoterapia, psicoeducação, suporte e mudanças no estilo de vida. Entre as intervenções psicoterapêuticas, a Terapia Cognitivo-Comportamental Focada no Trauma (TF-CBT) é reconhecida como uma das abordagens mais eficazes, ajudando o paciente a reconhecer e modificar padrões de pensamentos e sentimentos associados ao trauma que por vezes reforçam o próprio trauma. Técnicas estruturadas desafiam cognições distorcidas como “o mundo é um lugar perigoso”, promovendo ressignificação da experiência traumática. A Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares (EMDR) constitui outra abordagem baseada em evidências, utilizando estimulação bilateral através de movimentos oculares durante a recordação controlada do trauma, facilitando o processamento adaptativo das memórias traumáticas. Embora o ato de recordar evento traumático possa parecer intrusivo e desagradável, a exposição repetida a essas memórias de maneira segura e controlada constitui mecanismo importante para enfrentar e superar o trauma.

Em relação ao tratamento farmacológico, antidepressivos com atividade serotonérgica são considerados de primeira linha, sendo eficazes tanto como tratamento primário quanto em associação com psicoterapia. Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) demonstram eficácia na redução de sintomas nucleares do TEPT, incluindo reexperiência, esquiva e hiperexcitação. Ansiolíticos podem ser utilizados para manejo de sintomas ansiosos agudos, embora seu uso prolongado deva ser evitado devido a riscos de dependência. Outros medicamentos como estabilizadores de humor e antipsicóticos em doses baixas podem ser considerados em casos específicos, particularmente quando há comorbidades ou sintomas refratários ao tratamento de primeira linha. O tratamento farmacológico deve sempre ser integrado a intervenções psicossociais, e a decisão terapêutica deve considerar perfil sintomático individual, comorbidades, respostas prévias a tratamentos e as preferências do paciente.

A abordagem holística no tratamento do TEPT considera não apenas aspectos psicológicos, mas também fatores sociais e biológicos que influenciam o curso do transtorno. Estratégias complementares incluem técnicas de manejo de estresse, mindfulness, atividade física regular, estabelecimento de rotinas saudáveis de sono, fortalecimento de rede de suporte social, e, em alguns casos, intervenções familiares. A importância da detecção e tratamento precoces não pode ser subestimada, considerando que intervenção oportuna pode prevenir cronificação e desenvolvimento de comorbidades como depressão, outros transtornos de ansiedade e uso de substâncias. O contexto da pandemia de COVID-19 contribuiu para aumento de casos de TEPT, com pessoas vivenciando perdas de entes queridos, internações prolongadas, e exposição a situações ameaçadoras relacionadas à doença. Profissionais de saúde da linha de frente constituem um grupo particularmente vulnerável, demandando atenção especial em termos de suporte e prevenção. A Segurança Pública brasileira reconheceu a importância da prevenção ao TEPT entre seus profissionais, implementando o Programa Nacional de Qualidade de Vida que aborda prevenção e manejo do transtorno, evidenciando a necessidade de políticas institucionais de cuidado para populações em situação de risco ocupacional. O TEPT, embora seja condição crônica sem cura definitiva, pode ser efetivamente manejado com tratamento adequado, permitindo significativa melhora na qualidade de vida e no funcionamento dos indivíduos afetados.

Referências:

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Caderno Técnico de Tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático – TEPT. Brasília: Secretaria Nacional de Segurança Pública, 2015.

MELLO, M. F.; FIKS, J. P. Transtorno de estresse pós-traumático: Violência, medo e trauma no Brasil. São Paulo: Atheneu, 2011.

SOARES, D. C. S. et al. Transtorno de estresse pós-traumático e prejuízos cognitivos, intervenções e tratamentos: uma revisão de literatura. Revista Eixo, v. 10, n. 2, e834, 2021.

YEHUDA, R. et al. Post-traumatic stress disorder. Nature Reviews Disease Primers, v. 1, 15057, 2015.

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