O que podemos aprender sobre a condição humana com o Álbum Animals do Pink Floyd

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Lançado em 1977, Animals é um dos discos mais diretos e menos metafóricos do Pink Floyd, mas, simultaneamente, um dos mais ricos em simbolismos quando observado à luz da psicologia e da filosofia. Inspirado livremente em A Revolução dos Bichos, de George Orwell, o álbum transforma a sociedade industrial-capitalista em um cenário zoológico, onde cada animal representa um modo de funcionamento psíquico, um papel social e uma estrutura de poder internalizada.

De maneira geral, o álbum parte de uma visão existencialista: o ser humano, isolado em sistemas que ele próprio criou, torna-se estranho a si mesmo. Ao mesmo tempo, ele aponta temas psicológicos centrais, desde mecanismos de defesa e relações de poder até alienação e crise de identidade, revelando o que acontece com o sujeito quando sua vida é moldada por estruturas que estimulam competição, dominação e conformismo. Mesmo que alguém nunca tenha ouvido o disco, ele pode reconhecer facilmente os tipos de personalidade que aparecem ali: os que competem sem descanso, os que controlam com arrogância e os que seguem a multidão com medo de pensar por conta própria. Por trás da aparência política ou social, Animals é, antes de tudo, uma reflexão psicológica sobre quem somos quando vivemos dentro de sistemas que exigem força, submissão ou obediência.

O álbum se abre com um respiro de humanidade. “Pigs on the Wing (Part 1)” é uma curta canção acústica, com apenas um violão e o vocal. É uma canção íntima, que traz um sentimento de conforto. Filosoficamente, ela expõe o paradoxo central de Animals: em meio a uma sociedade marcada pela violência simbólica e pela dominação, ainda há uma necessidade profunda de vínculo, de acolhimento e de cuidado, temas essenciais tanto para a psicologia humanista quanto para a psicologia analítica. É uma canção simples que fala sobre a importância de ter alguém que nos apoie em meio a um mundo duro. 

“Dogs” é a faixa mais longa e, talvez, a mais psicologicamente densa. Os “cachorros” simbolizam a classe dos competitivos, dos manipuladores, dos que vivem pelas regras brutais da sobrevivência corporativa e social. Psicologicamente, eles representam o arquétipo do predador, mas também o sujeito moldado por uma cultura de performance e autocobrança radical. Eles acreditam que precisam ser fortes o tempo todo, sempre prontas para vencer, impressionar e conquistar. À primeira vista, parecem confiantes e capazes, mas carregam uma vida interna marcada pela ansiedade, pela vigilância constante e pela solidão. A música mostra como, ao tentar sobreviver sempre competindo, essas pessoas acabam se afastando de si mesmas e dos outros, e a vitória vira um peso que as consome.

Depois aparecem os “Pigs (Three Different Ones)”, símbolos daqueles que não competem de igual para igual, mas dominam, controlam e julgam. São os que gostam de impor regras, ditar padrões e se apresentar como moralmente superiores. Psicologicamente, representam pessoas que projetam nos outros aquilo que não conseguem admitir dentro de si: suas falhas, inseguranças e contradições. Usam discursos prontos para manter poder e esconder fragilidades. Em vez de enfrentar a própria vida interior, preferem apontar o dedo. O tom da música é de crítica à hipocrisia e ao autoritarismo cotidiano, que existe tanto nos grandes líderes quanto nas pequenas relações. Pigs (Three Different Ones)” apresenta a psicologia do dominador moralista, figuras sociais que exercem poder através de discurso, manipulação e ideologia. São os “porcos” que Orwell já personificava, mas aqui o símbolo adquire camadas psicológicas.

O “porco” é o indivíduo tomado pela sombra psicológica projetada no outro. É alguém que, para manter posição de poder, cria e reforça normas, discursos e moralismos enquanto oculta as próprias fragilidades internas. A música critica: líderes políticos, autoridades religiosas e morais, pessoas que exercem micropoderes no cotidiano, a classe dominante que se percebe como superior

“Sheep” representa o rebanho: aqueles que se submetem, obedecem e não questionam. Mas a faixa não funciona apenas como crítica aos “alienados”, ela expõe um fenômeno psíquico profundo: a renúncia do sujeito ao próprio poder de pensar.  A música representa pessoas que se acostumam a obedecer porque isso parece mais seguro do que assumir a responsabilidade por suas escolhas.

O álbum se encerra com a segunda parte de “Pigs on the Wing (Part 2)”, voltando ao tom humano e íntimo da abertura. Depois da jornada pelos predadores, dominadores e submissos, resta uma conclusão essencialmente psicológica e existencial: O que salva o indivíduo da lógica desumanizadora da sociedade é o vínculo humano autêntico.

Se a primeira parte anunciava a importância do afeto, a segunda reafirma que o amor  entendido como cuidado, apoio e acolhimento, funciona como o antídoto existencial contra os mecanismos sociais que fragmentam o sujeito. A música retoma a ideia de que, em meio a tantas pressões, o que realmente nos humaniza são os vínculos que construímos.

Assim, o álbum funciona como um espelho: não apenas denuncia estruturas sociais, mas revela as estruturas internas que sustentam essas formas de vida. Às vezes, somos competitivos demais e nos perdemos na pressa de vencer; outras vezes queremos controlar e julgar; em outros momentos, apenas seguimos o fluxo sem pensar. O álbum nos convida a observar esses movimentos, não para nos culpar, mas para compreender como eles surgem e como podemos fazer escolhas mais livres e humanas. É uma obra que continua atual justamente porque fala sobre algo que permanece em todas as épocas: o desafio de não perder nossa humanidade em meio às estruturas que tentam moldá-la. 

FICHA TÉCNICA:

Artista: Pink Floyd
Lançamento: Janeiro de 1977
Gravado: Abril – Dezembro de 1976
Estúdio: Britannia Row Studios, Londres, Inglaterra
Gênero: Rock progressivo
Duração Total: ~41:40

Produção: Pink Floyd  

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