Luto por si mesma: quando o olhar do outro fere a existência

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Há um aperto no peito que não encontra palavras. A dor é tão intensa que silencia, impede o choro, paralisa o corpo. O desejo é simples e profundo: um abraço onde seja possível descansar, um colo que permita desaparecer por alguns instantes. No lugar disso, instala-se a solidão. E, sem aviso, o tempo se dobra. Volto a ser adolescente. As feridas que eu acreditava cicatrizadas se reabrem, lembrando que algumas dores não desaparecem; apenas aprendem a se esconder.

Carrego um arco-íris dentro de mim, mas ele já não encanta. As cores que me constituem, minha sexualidade, meu desejo, minha forma de amar, passam a ser lidas como erro, desvio ou pecado. Onde há diversidade, veem ameaça. Onde há vida, projetam culpa. Nesse olhar moralizante, algo em mim morre. Instala-se um luto silencioso, não apenas por quem eu fui, mas por quem me ensinaram que eu não deveria ser.

Quando a fé, que deveria oferecer acolhimento e sentido, se transforma em instrumento de exclusão, o sofrimento deixa de ser apenas social e passa a ser psíquico. A rejeição religiosa atinge o núcleo da identidade, produzindo vergonha, medo e uma sensação profunda de inadequação. A saúde mental, então, é atravessada por conflitos internos constantes. Amar passa a doer, existir passa a exigir defesa, e ser quem se é se torna um risco.

Aos poucos, deixo de ser pessoa e passo a ser rótulo. “Má influência”, “sem moral”, “indecente”. A identidade, antes plural e viva, é reduzida a uma única dimensão, aquela que o discurso religioso condena. O olhar que antes era cuidado se transforma em vigilância. O afeto cede lugar ao silêncio. Quando isso acontece, o sujeito não é apenas rejeitado. Ele é apagado simbolicamente.

Essa experiência tem efeitos diretos sobre a saúde mental. Ansiedade, culpa, tristeza profunda e sentimentos de não pertencimento não surgem do nada. São respostas a um ambiente que nega reconhecimento e dignidade. Ser vista apenas através desses olhos é experimentar uma forma de morte simbólica. Continuar existindo, mas sem espelho, sem lugar, sem autorização para ser inteira.

Ainda assim, eu sei quem sou. Sei do valor que carrego, das vezes em que escondi minhas cores para caber no amor e na fé, das estratégias de sobrevivência que precisei construir para não desaparecer. Conheço minha força, minha ousadia, minhas belezas. Mas há algo profundamente amargo em viver sob o julgamento constante. Em sentir que a própria espiritualidade, que deveria ser fonte de cuidado, torna-se um espaço de ferida.

Talvez uma das dores mais profundas da exclusão seja essa: não a perda de quem se é, mas o sofrimento de continuar sendo, mesmo quando o mundo insiste em negar humanidade àquilo que existe fora das normas.

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Bacharel em Direito pela Faculdade de Palmas (FAPAL), Acadêmica e Estagiária de Psicologia da ULBRA Palmas.

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