A relação entre corpo e mente tem sido amplamente estudada nas últimas décadas, especialmente diante do aumento dos transtornos emocionais e da busca por qualidade de vida. Nesse contexto, a Educação Física tem se destacado como uma aliada essencial na promoção do bem-estar, da autoestima e da inclusão social.
Diante desse cenário, a acadêmica Mileide Barbosa Oliveira Nobre realizou uma entrevista com o profissional de Educação Física e personal trainer Kessioglenio Almeida, que compartilhou sua trajetória e reflexões sobre o papel do exercício físico na saúde mental e nas vivências de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Entrevista
Mileide Nobre: — Boa tarde, Kessioglenio! Hoje vamos conversar sobre um tema muito relevante: a importância da Educação Física para a saúde mental e como a prática de exercícios físicos pode contribuir positivamente para o desenvolvimento e bem-estar de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Para começarmos, conte um pouco sobre sua trajetória profissional e o que o motivou a seguir a carreira na área da Educação Física.
Kessioglenio: — Desde sempre tive o desejo de cursar duas áreas: Educação Física e Nutrição. Entretanto, na época, o curso de Nutrição era em período integral, o que me levou a optar por Educação Física, pois me permitiria estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Ambas as áreas sempre despertaram meu interesse, mas escolhi Educação Física por ser uma profissão que envolve movimento, saúde, qualidade de vida, alegria e a autoestima das pessoas.
Desde a infância, sempre estive envolvido com esportes e atividades físicas na escola, o que fortaleceu ainda mais minha paixão pela área. Concluí minha graduação em 2020/1 Bacharelado em Educação Física no Centro Universitário Luterano de Palmas – To (CEULP/ULBRA). Já no segundo período da faculdade, decidi deixar o trabalho formal para ingressar na área, atuando em academias e salões de musculação. Desde então, acumulo mais de dez anos de experiência profissional.
Durante minha trajetória, ministrei aulas de spinning, corrida de rua, treinamento funcional e aulas coletivas, como abdominal e step, além de atuar fortemente na musculação, que é meu principal campo de trabalho atualmente. Já atendi pessoas com diferentes objetivos, desde casos de obesidade e hipertrofia até aqueles que buscam melhora na qualidade de vida. Nos últimos anos, também tenho me dedicado ao atendimento de pessoas com autismo, um público que vem crescendo e que exige preparo, empatia e dedicação.
Educação Física, para mim, é mais do que uma profissão: é um meio de transformar vidas por meio do movimento.
Mileide Nobre: — Na sua visão, qual é a relação entre a prática regular de exercícios físicos e a saúde mental das pessoas?
Kessioglenio: — Na minha visão, a prática regular de exercícios físicos tem uma relação direta e extremamente positiva com a saúde mental das pessoas. O exercício contribui para a liberação de neurotransmissores, como endorfina, serotonina e dopamina, responsáveis pela sensação de prazer, bem-estar e equilíbrio emocional. Além disso, os exercícios ajudam a reduzir os níveis de estresse, ansiedade e sintomas depressivos, promovendo um melhor controle das emoções e um aumento da autoestima, a prática regular também favorece o sono de qualidade e melhora a concentração e estimula a socialização, fatores que fortalecem a saúde mental como um todo. Cuidar do corpo por meio do exercício fisico é também uma forma de cuidar da mente, pois o movimento gera benefícios que vão muito além do físico, transformando o estado emocional, o comportamento e até a forma como a pessoa se relaciona com o mundo.
Mileide Nobre: — Quais benefícios psicológicos e emocionais mais se destacam entre seus alunos e clientes que mantêm uma rotina de exercícios?
Kessioglenio: — Entre meus alunos e clientes que mantêm uma rotina regular de exercícios físicos, os principais benefícios observados são o aumento da autoestima, a melhora do humor e o fortalecimento da autoconfiança, é perceptível como, com o passar do tempo, eles passam a se sentir mais satisfeitos com o próprio corpo e com suas conquistas, desenvolvendo uma imagem mais positiva de si mesmo. Outro ponto importante é a redução do estresse e da ansiedade, a prática de exercícios funciona como uma válvula de escape para as tensões do dia a dia, proporcionando uma sensação de leveza e bem-estar, muitos relatam que se tornam mais calmos, focados e motivados após os treinos. Além disso, a convivência social durante as atividades físicas contribui para o fortalecimento de vínculos, o que gera sensação de pertencimento e apoio emocional, em resumo, o exercício físico atua como um poderoso aliado, não apenas do corpo, mas também da mente, promovendo equilíbrio, alegria e qualidade de vida.
Mileide Nobre: — Você acredita que o exercício físico pode funcionar como um recurso complementar no tratamento de transtornos emocionais, como ansiedade e depressão? Por quê?
Kessioglenio: — Sim, com certeza. Acredito que o exercício físico é um recurso extremamente eficaz como complemento no tratamento de transtornos emocionais, como ansiedade e depressão, pois estimula a liberação de neurotransmissores responsáveis pelo bem-estar, como endorfina, serotonina e dopamina, que ajudam a reduzir sentimentos de tristeza, tensão e angústia. Além disso, o exercício físico também proporciona uma sensação de propósito e superação, melhora a autoestima e contribui para a construção de uma rotina saudável, fatores fundamentais para o equilíbrio emocional, a prática regular favorece o sono, reduz o estresse e amplia a socialização, o que ajuda o indivíduo a sair do isolamento e a enfrentar melhor os desafios do dia a dia. Embora o exercício físico não substitua o tratamento médico e psicológico, é um importante aliado no processo terapêutico, potencializando os resultados e promovendo uma melhora significativa na qualidade de vida.
Mileide Nobre: — Em sua experiência profissional, já teve contato com alunos dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA)?
Kessioglenio: — Sim, ao longo da minha trajetória profissional, já tive contato e trabalhei com alunos dentro do Transtorno do Espectro Autista TEA. Esse público vem crescendo bastante nas academias e espaços de treinamento.
Mileide Nobre: — Quais estratégias e adaptações você considera mais eficazes ao trabalhar com pessoas autistas em treinos ou exercícios fisícos?
Kessioglenio: — Ao trabalhar com pessoas dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA), considero essencial adotar estratégias e adaptações que priorizem a individualidade, a segurança e bem-estar do aluno, entre as mais eficazes, destaco a comunicação clara e objetiva, com instruções simples, demonstrações práticas e, sempre que possível, o uso de recursos visuais para facilitar a compreensão das tarefas. Uma rotina estruturada também é fundamental, pessoas com TEA respondem melhor quando existe previsibilidade, saber o que vai acontecer em cada etapa da aula transmite segurança e reduz a ansiedade. Outra estratégia importante é o reforço positivo, valorizando cada conquista, por menor que pareça, pois isso motiva e fortalece a autoconfiança, além disso, procuro adaptar os exercícios conforme as necessidades e o nível de coordenação motora de cada aluno, respeitando seus limites sensoriais e emocionais.
Mileide Nobre: — Como o ambiente da academia ou das práticas corporais podem ser ajustados para favorecer a inclusão e o conforto de pessoas com TEA?
Kessioglenio: — O ambiente da academia ou de qualquer espaço destinado às práticas corporais deve ser organizado, previsível e acolhedor, evitando estímulos excessivos que possam gerar desconforto sensorial, como sons altos, luzes piscando ou ambientes superlotados. Outra adaptação importante é garantir rotinas bem estruturadas e instruções claras, com horários definidos e atividades planejadas de forma antecipada. Isso ajuda o aluno com TEA a se sentir mais seguro e confiante durante o treino. Os profissionais devem ser capacitados e sensíveis às particularidades desse público, desenvolvendo empatia e paciência para lidar com diferentes comportamentos e ritmos de aprendizagem. Por fim, promover um ambiente de acolhimento e respeito é essencial, quando o espaço valoriza a inclusão e a diversidade, todos se sentem à vontade para participar e é nesse clima de aceitação que o verdadeiro desenvolvimento acontece, tanto físico quanto emocional e social.
Mileide Nobre: — Em sua opinião, quais são os principais desafios que profissionais de Educação Física enfrentam ao promover inclusão e acessibilidade para pessoas com TEA?
Kessioglenio: — Em minha opinião, os principais desafios estão relacionados à falta de preparo técnico, à limitação de recursos adequados e à ausência de compreensão sobre as particularidades desse público. Ainda há uma carência de formação específica durante a graduação e também de capacitações contínuas que abordem sobre metodologias inclusivas, muitos profissionais não se sentem totalmente seguros para planejar, adaptar e conduzir atividades que atendam às necessidades individuais das pessoas com TEA. Outro desafio é o aspecto comportamental e sensorial, pois cada aluno dentro do Espectro Autista é único, o que exige sensibilidade, paciência e flexibilidade por parte do profissional de Educação Física, além disso, a falta de estrutura adequada em algumas academias e espaços esportivos pode dificultar o acolhimento e o conforto desses alunos. Apesar desses obstáculos, acredito que o maior desafio é, ao mesmo tempo, também a maior oportunidade: desenvolver empatia e amor no atendimento, quando o profissional atua com propósito, sensibilidade e conhecimento, ele transforma o ambiente em um espaço verdadeiramente inclusivo.
Mileide Nobre: — Você acredita que o exercício físico contribui para o desenvolvimento de habilidades sociais, motoras e cognitivas em pessoas com TEA? Poderia comentar um pouco sobre isso?
Kessioglenio: — Sim, acredito plenamente que o exercício físico tem um papel fundamental no desenvolvimento de habilidades sociais, motoras e cognitivas em pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Do ponto de vista motor, as atividades físicas contribuem para a melhora da coordenação, do equilíbrio, da força e da percepção corporal, ajudando o aluno a desenvolver maior controle sobre seus movimentos, isso reflete diretamente na autonomia e na confiança em realizar tarefas do dia a dia. No aspecto cognitivo, o exercício estimula a atenção, a memória e a capacidade de seguir instruções, o que favorece o aprendizado, o raciocínio e auxilia na regulação emocional, ajudando a lidar melhor com frustrações e mudanças de rotina. No aspecto social, o ambiente de treino oferece oportunidades de interação, cooperação e convivência, aspectos essenciais para o desenvolvimento das habilidades interpessoais. Quando bem orientadas, essas experiências fortalecem o senso de pertencimento e promovem a inclusão de forma natural e saudável. Portanto, o exercício físico vai muito além da saúde corporal: ele é uma ferramenta poderosa de desenvolvimento integral, que transforma vidas e amplia as possibilidades de inserção social e emocional das pessoas com TEA.
Mileide Nobre: — Como o profissional de Educação Física pode atuar em parceria com outros profissionais da saúde (como psicólogos, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas) no atendimento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA)?
Kessioglenio: — O profissional de Educação Física tem um papel essencial dentro da equipe multidisciplinar que atua no atendimento de pessoas com TEA. A atuação em parceria com outros profissionais da saúde, como psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e fonoaudiólogos é fundamental, pois permite oferecer um cuidado integral, coerente e eficaz. Cada área possui uma perspectiva e uma metodologia específica, e, quando essas competências se unem, o resultado é um plano de intervenção mais completo e personalizado. O profissional de Educação Física, por exemplo, pode compartilhar observações sobre o comportamento motor, o nível de interação social e a resposta emocional do aluno durante os treinos, informações que ajudam os outros profissionais a compreenderem melhor o desenvolvimento global da pessoa. Da mesma forma, o profissional de Educação Física pode adaptar suas práticas com base nas orientações recebidas dos colegas, respeitando as limitações e potencializando as habilidades do aluno, essa comunicação constante entre os profissionais cria um ambiente de cooperação, favorecendo o progresso físico, cognitivo e emocional. Em resumo, o trabalho em equipe é essencial, quando há diálogo, respeito e alinhamento entre as áreas, o aluno com TEA se beneficia de forma integral, recebendo um atendimento mais humano, eficiente e transformador.
Mileide Nobre: — Para encerrarmos, que mensagem você deixaria para os profissionais de Educação Física que desejam contribuir de forma mais efetiva para o bem-estar mental e inclusão de pessoas com TEA?
Kessioglenio: — Minha mensagem é que o papel do profissional de Educação Física vai muito além do aspecto físico: ele é um agente de transformação, que pode impactar a saúde mental, emocional e social de seus alunos. Para contribuir de forma efetiva com o bem-estar e a inclusão de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), é fundamental buscar capacitação contínua e compreender as particularidades desse público, atuando com empatia, paciência e respeito. Cada aluno é único, e pequenas adaptações, atenção aos sinais e reforço positivo fazem uma grande diferença no aprendizado e no desenvolvimento integral. Em resumo, o profissional de Educação Física deve unir conhecimento técnico, sensibilidade e amor pelo que faz. Quando atuamos dessa forma, promovemos não apenas a saúde física, mas também o bem-estar mental, emocional e a inclusão social, transformando vidas de maneira significativa e duradoura.
Mileide Nobre: — E, por fim, qual conselho você daria às famílias de pessoas autistas sobre a importância da prática regular de exercícios físicos?
Kessioglenio: — Que enxerguem a prática regular de exercício físico como uma ferramenta essencial para o desenvolvimento integral de seus filhos, o exercício físico contribui não apenas para a saúde corporal, mas também para o bem-estar emocional, o desenvolvimento motor, cognitivo e social. É fundamental que as famílias incentivem, apoiem e acompanhem a participação de seus filhos nas atividades, criando uma rotina segura e motivadora. Celebrar cada conquista, respeitar os limites individuais e escolher atividades prazerosas faz toda a diferença no engajamento e na confiança da pessoa com TEA. Além disso, quando a família se envolve de forma ativa e positiva, fortalece-se o vínculo entre todos, e o ambiente se torna mais acolhedor e propício ao aprendizado, à autonomia e à inclusão.
Agradecimento
Mileide Nobre:
Kessioglenio (Maninho) agradeço imensamente pela disponibilidade e por compartilhar seus conhecimentos e experiências. Essa conversa contribui para ampliar a compreensão sobre o papel fundamental da Educação Física na promoção da saúde mental e na inclusão de pessoas com autismo.
Créditos
Entrevista realizada por Mileide Barbosa Oliveira Nobre, acadêmica do curso de Psicologia da ULBRA Palmas, em 25/10/2025.
