(En)Cena entrevista o acadêmico de Psicologia da Ulbra Palmas, Adhemar Chufalo Filho, que aos 70 anos carrega uma trajetória marcada por resiliência, pelo conhecimento e pela constante busca de novos sentidos para a vida. Bacharel em Direito pela Faculdade de Franca (SP), Juiz aposentado, Advogado e Mestre em Prestação Jurisdicional e Direitos Humanos pela UFT/ESMAT, Adhemar hoje se dedica à Psicologia, cursando o último semestre da graduação.
Marido e pai, sua história foi atravessada por um acontecimento marcante aos 33 anos, quando sofreu um acidente que resultou na perda das pernas, levando-o a utilizar cadeiras de rodas. Essa experiência transformadora não o limitou, mas ampliou sua visão sobre a existência, sobre a força do ser humano e sobre a possibilidade de recomeços. Sua jornada une vivência, superação e conhecimento, compondo uma narrativa inspiradora que conecta o Direito, Justiça, Direitos Humanos e, agora, Psicologia.
EnCena: Adhemar, você tem uma história de vida impactante e imagino que o acidente possa ter trazido mudanças profundas na sua vida. Qual desafio considera ter sido o maior e mais profundo nesse processo? E o maior aprendizado?
Adhemar: Adaptação e reestruturação em razão da deficiência. Foi mais física.
Adhemar: O maior desafio foi a adaptação e a reestruturação em razão da deficiência, no aspecto físico mesmo. Quanto ao aprendizado, destaco a resiliência e a paciência, a capacidade de trabalhar a si mesmo.
EnCena: Qual foi o papel da família e das pessoas próximas, como amigos, nesse processo de adaptação?
Adhemar: Tiveram papel fundamental na minha busca de força para superação, pois, sozinho, não teria conseguido. Todos os familiares deram muito apoio para superação, especialmente minha esposa e mãe.
EnCena: Perdas como a que você viveu, de perder os membros que dão liberdade e autonomia, também representam um luto. O que o ajudou a encontrar resiliência?
Adhemar: Curiosamente, não sofri o luto de forma intensa. Praticamente saí do hospital animado, tanto que o pessoal até achava que eu estava meio doido (risos). Para mim, a questão central foi a adaptação física, e não tanto a dor da perda.
EnCena: É muito inspirador perceber, a partir da sua trajetória, que existem diferentes formas de enfrentar situações tão impactantes. Você sempre demonstrou leveza e positividade diante das adversidades da vida? Diante disso, qual mensagem você deixaria para aqueles que hoje enfrentam dor e limitações?
Adhemar: Sempre! Lá em São Joaquim da Barra, eu era popular e sempre assim, bem disposto. Óbvio que têm os altos e baixos, normal das oscilações, mas, no geral, é o otimismo. E a mensagem seria não desanimar jamais. Ter esperança e confiança em você mesmo e em Deus, assim você consegue superar. Se tiver isso no coração e pessoas que te apoiem, não têm barreiras.
Encena: Como foi lidar com as novas condições de vida?
Adhemar: Tranquilo, mais a adaptação da casa, de carro, nas viagens, os postos de gasolina naquela época não tinham banheiros adaptados, então a gente ia tendo que se adequar a essas questões de acessibilidade.
EnCena: E, nesse processo, pensou em desistir de algum sonho?
Adhemar: Não, não! Sempre busquei meus sonhos e to aqui hoje!
EnCena: Quais foram suas maiores inspirações ao longo da vida?
Adhemar: Olha, eu sempre me baseei em pessoas que superaram. Minha maior inspiração, independente da religião, foi Jesus, a maior. Independente de ser católico, evangélico, espírita, e do quer que seja. Outros exemplos, como Francisco De Assis, Chico Xavier, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce, são pessoas que vemos que venceram muitas dificuldades e me espelhei.
EnCena: O que significa, para você, a palavra superação?
Adhemar: Para mim, é a realidade. Acredito que estamos sempre nos superando, desde que não nos acomodemos. A superação em todos os sentidos e em todos os graus.
EnCena: Muitas vezes falamos em “limitação”, mas você percebe que ganhou novas perspectivas após essa experiência?
Adhemar: Sim. Quando não temos uma deficiência, não enxergamos limites. Depois que passei a conviver com a deficiência, percebi que as limitações existem, mas, sobretudo, que elas nos desafiam a superá-las constantemente.
EnCena: Se pudesse resumir sua vida em uma palavra ou metáfora, qual seria?
Adhemar: Um foguete! (risos). Sempre reinventando e buscando o alto.
Agora entrando no quesito envelhecimento
EnCena: Para você, envelhecer é mais um limite ou uma oportunidade de reinvenção?
Adhemar: São oportunidades. A vida tem fases, e precisamos nos adequar a elas, viver de acordo com o que nos é permitido. Não vejo como limitação, mas como realidade que exige reinvenção.
EnCena: E qual o papel da sociedade em enxergar pessoas com mais de 60 anos se reinventando, para além do estereótipo da aposentadoria?
Adhemar: Olha, existe a cultura de que o idoso não pode fazer nada, é improdutivo por não ter condições de avançar e crescer, mas é uma visão equivocada. Aos poucos, a sociedade vem começando, por meio das políticas públicas e da própria coletividade, a mudar esse pensamento. Então, a sociedade deve incluir e ver o idoso como participante, adequando as necessidades.
EnCena: Em sua experiência, você acredita que a psicologia pôde ajudar a ressignificar o envelhecimento?
Adhemar: Sem dúvida. A Psicologia ajuda a compreender que envelhecer é natural. Quem não morre cedo, vai envelhecer. Ela auxilia aqueles que têm dificuldade de aceitar essa fase do desenvolvimento a enxergá-la com mais serenidade.
Sobre a Psicologia
EnCena: O que o motivou a buscar a psicologia nesta etapa da vida, depois de ter já passado pela magistratura por tanto tempo?
Adhemar: Olha, eu sempre gostei da psicologia. Só que eu tive dois sonhos que eram a magistratura e a psicologia, mas aí, em razão dos limites de idade, optei pela magistratura primeiro e, depois disso, próximo à aposentadoria, surgiu a oportunidade de estudar no período noturno enquanto trabalhava pela manhã, antes da pandemia. Minha aposentadoria é bem recente, coisa de 1 ano e meio. Já engatei um sonho no outro.
EnCena: E como tem sido a experiência de voltar a estudar depois dos 65 anos? Teve diferença da primeira graduação para a psicologia?
Adhemar: Olha, diferença teve, porque a idade vai chegando e a mente da gente, a memória, é diferente. Mas assim, em relação aos conteúdos e ritmo do curso, foi tranquilo, pelo interesse que sempre tive nos estudos. Os dois cursos demandam muita leitura, então não tive essa dificuldade na psicologia por não ter tido interrupção.
EnCena: Você acredita que o Direito e a Psicologia se complementam no olhar sobre o ser humano?
Adhemar: É o seguinte: no caso do direito, existe uma guerra de interesses, em que são duas pessoas, degladiando, duas partes. Na psicologia, é uma só, é ela com ela mesmo. Então, você tem que trabalhar com o indivíduo, o elemento, a não ser que o profissional esteja em uma perspectiva sistêmica em que olhar para o ser humano em conjunto, em um sistema. Acredito que a semelhança vem por esse quesito e por serem ciências humanas, o foco é sempre o ser humano.
EnCena: Estamos caminhando para o fim e quero saber se existe algo que gostaria de ter aprendido antes e que só agora, com a Psicologia, está descobrindo?
Adhemar: A psicologia abre muito a nossa visão, em diversos sentidos. Com o tempo e a experiência, com tudo que você vai vivenciando, a psicologia mostra novos horizontes aquilo que já conheceu. Mesmo tendo muitas experiências, continuo me descobrindo e esse é o sentido da vida.
Agradeço bastante sua disponibilidade e atenção! Conhecer e compartilhar um pouco da sua história, vivências e visão de mundo é inspirador para todos nós!!
