As cicatrizes do refúgio: identidade e saúde mental em Persépolis

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A animação Persépolis (2007), baseada na autobiografia de Marjane Satrapi, se passa no Irã entre o final da década de 1970 e os anos 1990, período marcado por profundas transformações políticas e sociais. O filme faz um papel importante em mostrar o impacto causado na vida de alguém que é obrigada a deixar seu país de origem, as marcas da guerra e violência, bem como a interrupção de projetos de vida e rompimento de vínculos afetivos com familiares e amigos.

Nesta autobiografia, contada diretamente do ponto de vista de uma pessoa que passou por tais acontecimentos, nos mostra as consequências que tais acontecimentos causaram em sua vida, iniciamos o filme com a infância de Marjane, uma cidadã iraniana, vendo através de sua ótica jovem e inocente as repercussões da Revolução Islâmica Iraniana (1979). Nesse período, estavam acontecendo vários conflitos e manifestações populares contra a monarquia, após a revolução, o país foi assumido por um líder religioso que passou a adotar uma interpretação rigorosa da lei islâmica, havendo bastante mudanças políticas e profundas alterações e impactos no cotidiano da população.

Nesse contexto, somos levados a uma visão de como tais acontecimentos influenciaram a vida de Marjane, sua infância já permeia um contexto político marcado pela violência e horrores da guerra, evidenciando como a violência passa a fazer parte do cotidiano dela, impactando a forma como percebe a si mesma, sua família e o mundo ao seu redor. Em diversos momentos no filme vemos a luta pela sobrevivência que Marjane teve que passar, fugindo para esconderijos subterrâneos devido a bombardeios, perda de familiares, amigos e vizinhos para a guerra, insegurança alimentar devido a falta de alimentos para a população nos mercados e, especialmente para as mulheres, como a submissão, violência sexual e repressões pesavam mais fortemente devido aos valores rigorodos impostos através da ideologia política e religiosa.

Dessa forma, entendemos o peso que tal contexto tem para a vida de uma criança, considerando que essa fase da vida se caracteriza pelo desenvolvimento emocional, estabelecimento de vínculos afetivos e criação de referências para si e modulação da visão de mundo do indivíduo. Ao se deparar com experiências traumáticas, é perceptível como o desenvolvimento infantil é profundamente impactado ao se ter a percepção de segurança, pertencimento e confiança no mundo em tamanha ameaça e perigo.

Em Persépolis, quando Marjane já se encontra em seus 14 anos, seus pais temem por sua vida no Irã, sendo notável como desde mais nova ela se destacava por ser uma jovem muito questionadora e com forte senso de imposição pelos seus ideais, isso faz com que seus pais decidam a mandar morar na Áustria, como forma de proteção da guerra e da perseguição. Tal acontecimento marca um momento de virada na vida da protagonista, iniciando nova etapa permeada por desafios emocionais e identitários.

A condição de refugiado é permeada pela complexidade das vivências experienciadas por pessoas que foram forçadas ao deslocamento. É de fundamental importância entender que os indivíduos forçados a esse processo migratório deixam para trás muito além do que bens materiais, essas pessoas vivenciam um processo de luto migratório, pois acabam deixando para trás familiares e amigos, sua cultura, choque cultural, discriminação e ruptura de vínculos sociais, sendo esses fatores grande potencializadores do sofrimento psiquico, além de variáveis vulnerabilidades socioeconômicas.

Nesse cenário, acompanhamos o processo migratório experienciado por Marjane, os vários desafios que ela enfrentou ao se encontrar agora em um outro país, longe da sua família e amigos, inserida em uma cultura e costumes totalmente diferentes dos seus, sendo necessário uma exaustiva necessidade de adaptação constante. Em diversos momentos do filme nos é mostrado como a jovem passou por diversas situações de insegurança e vulnerabilidade, não encontrando um lugar fixo para morar, em que pudesse chamar de casa, barreiras na inclusão social e dificuldade no estabelecimento de vínculos e relacionamentos, bem como frequentes situações em que sofreu preconceito e xenofobia. Em determinado momento do filme nos é mostrado que o desamparo e falta de apoio foram imensos, que a jovem se tornou uma pessoa em situação de rua, não tendo um lugar para ficar, passando fome e exposta às violência das ruas.

Diante das dificuldades que marcaram a trajetória de Marjane, é notável o grande impacto psicossocial que tais experiências causam na sua saúde mental. Um dos aspectos mais marcantes de Persépolis é a forma como o refúgio atravessa a construção da identidade de Marjane. Em diversos momentos do filme ela deixa claro como acaba perdendo o senso de pertencimento e como sente muita culpa por estar refugiada em outro país, enquanto as pessoas que ama estavam vivendo os horrores da guerra. Em determinado momento, a jovem retorna ao seu país de origem, acreditando que agora irá se sentir bem consigo mesma novamente, porém ao retornar, sente-se desconectada da realidade que os familiares e amigos vivem e pelo o que passaram, conflitando com suas próprias vivências e atual percepção de si mesma e do mundo.

Nessa perspectiva, ao longo de Persépolis, percebe-se como as consequências da guerra e do refúgio impactam não somente os aspectos físicos e materiais, mas também afetam profundamente a saúde mental de Marjane. Em vários momentos da sua trajetória são evidenciados a vivência de sentimentos de perdas, choque cultural, medo devido as ameaças a sua integridade física, isolamento social, desesperança e até perda do sentido da vida.

O filme desempenha um papel primordial em mostrar a realidade de muitas pessoas em situação de refúgio podem passar, evidenciando também como essas pessoas ficam sem nenhum tipo de apoio ou assistência adequada ao se encontrarem no país de acolhimento praticamente jogadas à própria sorte. A narrativa decorrida no filme mostra que o deslocamento forçado causa impactos e consequências na vida das pessoas refugiadas mesmo não havendo mais a ameaça à integridade física, reforçando também a importância e necessidade de uma visão mais ampliada da saúde mental, sendo necessário considerar também as experiências de violência, rupturas de vínculos afetivos, exclusão social e desafios cotidianos enfrentados durante o processo de reconstrução da vida.

Ademais, Persépolis também evidencia a capacidade humana de ressignificar experiências e reconstruir a própria identidade diante das adversidades. A partir da trajetória de Marjane, observa-se que, apesar das inúmeras perdas, desafios e barreiras enfrentados ao longo de sua vida, ela continuou buscando reconstruir sua história e encontrar novos sentidos para sua existência, destacando sua força e resiliência diante dos desafios. Através da sua trajetória, é possível perceber que a resiliência é um importante recurso no processo de adaptação e reconstrução de sentidos para a vida. Continuar seguindo em frente, mesmo diante do sofrimento, também é uma forma de resistência.

Referência

PERSÉPOLIS. Direção: Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud. França: Diaphana Distribution, 2007. 1 filme (95 min), son., color.

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