O espelho digital: efeitos das redes sociais na construção da autoestima e imagem corporal

Compartilhe este conteúdo:

O principal mecanismo psicossocial em jogo é a Teoria da Comparação Social, originalmente proposta por Leon Festinger (1954). Festinger postulou que os indivíduos têm um impulso inato para avaliar suas próprias opiniões e habilidades comparando-se com os outros. As redes sociais exacerbam esse processo de forma exponencial e distorcida. Elas facilitam o que a literatura denomina de “comparação social ascendente”, na qual o indivíduo compara sua realidade (seu “bastidor”) com o “palco” altamente editado e curado da vida alheia (PERLOFF, 2014). Essa comparação é fundamentalmente assimétrica: o usuário é bombardeado por imagens de sucesso, felicidade e, crucialmente, perfeição estética, que são frequentemente inatingíveis por serem digitalmente alteradas ou resultado de estilos de vida financeiramente inacessíveis.

No que tange à imagem corporal, o efeito é particularmente agudo. As plataformas digitais operam como um “espelho digital” que reflete padrões de beleza globais, porém extremamente restritos e, muitas vezes, racialmente homogêneos. A proliferação de filtros que alteram a morfologia facial, o uso generalizado de softwares de edição de imagem e a ascensão da cultura influencer criam e normalizam um ideal estético que não corresponde à diversidade humana real. Em conformidade com a Teoria da Objetificação (Fredrickson & Roberts, 1997), os usuários, especialmente mulheres jovens, aprendem a internalizar essa “vigilância” estética, passando a se auto-objetificar. Elas fragmentam seus corpos em partes a serem avaliadas, corrigidas e otimizadas para o olhar do outro, resultando em níveis elevados de insatisfação corporal, que é um conhecido fator de risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares e dismorfia corporal.

Paralelamente, a autoestima é diretamente afetada pela “economia da validação”. A arquitetura dessas plataformas, baseada em métricas quantificáveis (curtidas, compartilhamentos, comentários, número de seguidores), transforma o “eu” em um produto a ser performado e validado. Como aponta Paula Sibilia (2012), vivemos a era do “show do eu”, onde a intimidade e a auto-apresentação se tornam espetáculos. A autoestima torna-se, assim, externalizada e frágil, dependente do feedback digital constante. A falha em atingir o engajamento esperado ou a recepção de feedback negativo pode ser devastadora, especialmente para adolescentes em fase de consolidação da identidade. Estudos longitudinais (VOGEL; ROSE, 2016) têm demonstrado uma correlação significativa entre o tempo de uso passivo de redes sociais (apenas “rolar o feed”) e a diminuição dos níveis de autoestima, alimentando ciclos de ruminação e sentimentos de inadequação.

Conclui-se, portanto, que a estrutura algorítmica e cultural das redes sociais não é neutra. Ela é projetada para maximizar o engajamento, muitas vezes explorando inseguranças humanas fundamentais, como a necessidade de pertencimento e a comparação social. O resultado é um ambiente que contribui significativamente para a erosão da autoestima autêntica e para a distorção da imagem corporal. A solução para esse problema de saúde pública não reside apenas na responsabilidade individual de “desconectar”, mas exige um movimento robusto de letramento digital, que ensine o consumo crítico dessas mídias e uma maior responsabilização das plataformas na moderação de conteúdos prejudiciais e na transparência de seus algoritmos de recomendação.

Referências

FESTINGER, L. A theory of social comparison processes. Human Relations, v. 7, n. 2, p. 117-140, 1954.

FREDERICKSON, B. L.; ROBERTS, T. A. Objectification theory: Toward understanding women’s lived experiences and mental health risks. Psychology of Women Quarterly, v. 21, n. 2, p. 173-206, 1997.

PERLOFF, R. M. Social media effects on young women’s body image concerns: Theoretical perspectives and an agenda for research. Sex Roles, v. 71, n. 11-12, p. 363-377, 2014.

SIBILIA, P. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.

VOGEL, E. A.; ROSE, J. P. Self-reflection and interpersonal connection: making the most of self-presentation on social media. Translational Issues in Psychological Science, v. 2, n. 3, p. 294-302, 2016.

Compartilhe este conteúdo: