O dia 27 de Julho ficou marcado na minha memória como um daqueles dias em que a gente acorda sabendo que nada será igual depois. Eu cheguei ao hospital misturando medo, alívio e uma sensação de que finalmente estava entregando o corpo para aquilo que eu vinha me preparando há alguns meses — mesmo sem saber exatamente como seria.
O pré-operatório imediato no hospital foi rápido, e isso aumentou um pouco a minha ansiedade. Mal deu tempo de pensar direito. Enquanto a equipe checava meus sinais vitais e fazia as últimas perguntas, eu sentia meu estômago revirar mais pelo emocional do que pela hérnia que me acompanhou por tanto tempo. Ainda assim, a equipe foi atenciosa, cuidadosa, e isso me deu alguma sensação de segurança e de que eu havia feito a escolha certa.
Quando me levaram para a sala de cirurgia, lembro de olhar para o teto e pensar que aquela seria a última vez que eu veria meu corpo da forma como ele sempre funcionou. A última vez do estômago maior, da sensação constante de desconforto, da fome confusa, da luta silenciosa com meu próprio metabolismo. E, ao mesmo tempo, a primeira vez que eu permitia uma mudança tão grande, e sim, uma mudança grande.
A anestesia chegou mais rápido do que eu esperava, e a última coisa de que lembro foi tentar controlar meu medo enquanto ouvia a movimentação da equipe. O Bypass e a correção da hérnia hiatal aconteceram enquanto eu dormia, e isso ainda me parece estranho: enquanto eu estava completamente inconsciente, meu corpo estava sendo reorganizado por mãos experientes, abrindo espaço para outro tipo de relação comigo mesma.
Acordar foi difícil. Eu estava grogue, confusa e sentindo uma mistura de ansiedade e alívio. A primeira percepção foi de peso no abdômen e de uma sonolência profunda. Ainda assim, havia algo diferente: pela primeira vez, em muitos meses, não senti o refluxo imediato que fazia parte da minha rotina. Era como se meu corpo estivesse dizendo que algo realmente tinha mudado lá dentro.
O restante do dia foi de adaptações. Caminhei no corredor com ajuda, senti medo de desmaiar, senti incômodos, mas também senti uma esperança que eu não esperava. Ter
passado pela cirurgia me colocou diante de uma sensação estranha de vulnerabilidade e esperança ao mesmo tempo. Vulnerabilidade porque eu dependia da equipe e do meu corpo para me recuperar; esperança e força porque eu tinha feito algo enorme por mim.
O dia da cirurgia não foi apenas um procedimento médico. Foi um marco simbólico: a fronteira entre o corpo que eu conhecia e o corpo que começaria a existir a partir dali. E, apesar de toda a fragilidade do momento, eu sabia que tinha feito o que precisava ser feito.
