Eu não queria que o mundo parasse. Eu nunca quis isso. O que eu queria, desesperadamente, era que o mundo dentro da minha cabeça diminuísse o volume. Que não fossem tantas vozes ao mesmo tempo, tantos cenários sendo criados por minuto, tantos medos antecipados, tantas cobranças se empilhando umas sobre as outras. Eu queria silêncio interno. Nem felicidade, nem vitória. Silêncio. Um pouco de paz para conseguir existir sem sentir que estava sempre atrasada comigo mesma.
Terminar o curso de Psicologia foi atravessar anos em que estudar era só mais uma camada sobre algo que já estava pesado demais. Eu sou mulher, esposa, profissional, dona de uma casa, filha, parte de uma família cheia de conflitos e histórias que não se resolvem com força de vontade. Tudo isso coexistia dentro de mim enquanto eu tentava aprender sobre sofrimento humano, como se o conteúdo não estivesse acontecendo, ao mesmo tempo, na minha própria pele. Não havia separação entre o que eu estudava e o que eu vivia. Era tudo junto, misturado, doendo.
O cansaço não era físico, era mental. Um esgotamento que não se resolve dormindo porque a mente não desliga. Pensamentos que não pedem licença, medo de errar, medo de falhar, medo de não ser suficiente. Uma cobrança externa que nunca cessava e uma interna que era ainda pior, porque não dava trégua nem quando eu estava sozinha. Eu me sentia sempre devendo alguma coisa a alguém, e principalmente a mim.
Houve momentos em que tudo o que eu vinha construindo para melhorar em mim pareceu ser arrancado sem aviso. Como se cada tentativa de amadurecer, de me fortalecer, de entender meus limites, fosse colocada à prova por situações que eu não tinha controle algum. E isso machuca de um jeito muito específico, porque não é sobre incompetência, é sobre impotência. Sobre perceber que, às vezes, a vida atravessa sem pedir permissão e desmonta coisas que levaram anos para serem erguidas.
Eu não cheguei ao fim do curso sentindo que “deu certo”. Eu cheguei sustentando. Sustentando dias em que o máximo que eu consegui entregar era o mínimo do mínimo. Sustentando a culpa por não render mais, por não ser mais forte, por não conseguir dar conta como parecia que todo mundo dava. O diploma nunca foi o objetivo real. O que eu queria era paz. Silêncio. Era dormir sentindo um peso a menos no peito, uma preocupação a menos na cabeça. Um mundo a menos dentro de mim.
Esse texto não é sobre vitória, nem sobre superação bonita. É sobre permanecer quando não havia escolha melhor. Sobre continuar mesmo sem esperança, mesmo cansada, mesmo vazia. Eu não venci nada. Eu aguentei. E houve dias em que aguentar foi tudo o que existia. Quando tudo acabou, não veio alívio. Veio uma pergunta que não sossega: quem eu sou sem tudo isso? O que sobra de mim quando os papéis, as exigências e o excesso deixam de ocupar cada espaço? Existe algo além do que eu precisei sustentar por tanto tempo?
Há vontade de encerrar, de finalizar, mas junto dela vem o medo. Medo de se reconstruir, medo de não saber por onde começar, medo de descobrir que eu não faço ideia de quem sou sem o excesso. E talvez seja isso. Talvez o que eu busque há tanto tempo nunca chegue.
Silêncio.
