A banalidade do mal e a dissociação psíquica: a cegueira voluntária em ‘Zona de Interesse’

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O filme Zona de Interesse (The Zone of Interest, 2023), dirigido por Jonathan Glazer, apresenta o horror do Holocausto por uma perspectiva perturbadoramente asséptica: a da família de Rudolf Höss, comandante de Auschwitz. Ao focar na rotina idílica da família que vive “muro a muro” com o campo de extermínio, o filme se torna um estudo visual definitivo sobre o conceito de Banalidade do Mal, cunhado pela filósofa Hannah Arendt (1999). A obra nos força a confrontar não a psicopatia sádica, mas a terrível capacidade humana de normalizar o impensável através da burocracia e da alienação.

Para a psicologia, o comportamento da família Höss ilustra um mecanismo de defesa maciço conhecido como dissociação ou compartimentalização. A esposa de Höss, Hedwig, cuida de seu jardim florido enquanto, ao fundo, chaminés expelem fumaça de corpos incinerados e gritos são ouvidos. Essa justaposição evidencia a negação (Verneinung) em seu sentido freudiano: a realidade perceptiva (o som, o cheiro) é registrada, mas seu significado afetivo e moral é rejeitado pela consciência para preservar a integridade do ego e o conforto do sujeito (FREUD, 2014). O muro do jardim atua como uma metáfora física para a barreira psíquica que separa o “nós” (civilizados, limpos, arianos) do “eles” (desumanizados, invisíveis).

Zygmunt Bauman (1998), em Modernidade e Holocausto, argumenta que o genocídio moderno foi facilitado não apenas pelo ódio, mas pela racionalidade instrumental e pela divisão social do trabalho. No filme, Rudolf Höss não é retratado como um monstro colérico, mas como um gestor corporativo preocupado com eficiências logísticas (“cargas”, “unidades”). Essa desconexão ética é o que a Psicologia Social chama de desengajamento moral: o indivíduo reestrutura cognitivamente atos desumanos como sendo apenas “o cumprimento de deveres” ou “necessidades técnicas”, diluindo a responsabilidade pessoal.

O filme utiliza o design de som de forma magistral para representar o retorno do recalcado. Enquanto as imagens mostram piqueniques e brincadeiras, a trilha sonora é composta pelos ruídos industriais da morte. Esse contraste gera no espectador a dissonância cognitiva que os personagens se recusam a sentir. A apatia de Hedwig ao provar um casaco de pele roubado de uma prisioneira judia exemplifica a total perda de empatia gerada pela ideologia.

Em conclusão, Zona de Interesse serve como um alerta contemporâneo. Ele demonstra que a barbárie não requer necessariamente monstros, mas sim “pessoas comuns” que optam pela cegueira deliberada em nome da manutenção de seu status quo. Para a saúde mental e a ética, o filme questiona: quais “muros” estamos construindo hoje para não ouvir os gritos do lado de fora de nossas zonas de conforto? A patologia aqui não é o sofrimento mental, mas a sua completa ausência diante do sofrimento alheio.

Referências Bibliográficas:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BANDURA, Albert. Moral Disengagement: How People Do Harm and Live with Themselves. New York: Worth Publishers, 2016.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

FREUD, Sigmund. A Negativa (1925). In: Obras completas, volume 16. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

MILGRAM, Stanley. Obedience to Authority: An Experimental View. New York: Harper Perennial, 2009.

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