Em Pobres Criaturas (Poor Things, 2023), de Yorgos Lanthimos, somos apresentados a um experimento antropológico e psicanalítico radical: Bella Baxter, uma mulher adulta revivida com o cérebro de um feto. Essa premissa de ficção científica gótica serve como pano de fundo para investigar uma questão fundamental da psicologia: quem seríamos nós se não fôssemos socializados através da vergonha? A jornada de Bella é a construção de um sujeito que opera, inicialmente, sob o domínio do Id freudiano — o polo das pulsões e do princípio do prazer — sem a mediação censora do Superego.
Na teoria psicanalítica clássica, o Superego é a instância psíquica formada pela internalização das regras parentais e sociais; é ele o responsável pela culpa e pela moralidade (FREUD, 2011). Bella, contudo, “pula” as etapas tradicionais da infância onde essas normas são introjetadas. Seu desenvolvimento é acelerado e empírico. Sem o filtro da convenção social, sua descoberta do corpo e da sexualidade ocorre de forma puramente investigativa e hedonista. O ato sexual, que a sociedade vitoriana (e a contemporânea) reveste de tabus e romantismo, é descrito por ela pragmaticamente como “saltos furiosos”, evidenciando uma relação com o prazer desprovida de julgamento moral.
Essa ausência de inibição a torna incontrolável para as figuras masculinas que tentam possuí-la. Godwin (o pai criador), Duncan (o amante libertino) e Alfie (o marido castrador) representam diferentes faces do patriarcado que tentam impor limites ao corpo feminino. Segundo Simone de Beauvoir (2009), “não se nasce mulher, torna-se mulher”, indicando que o gênero é uma construção cultural. Bella desafia essa máxima ao “tornar-se” mulher em seus próprios termos, recusando as performances de submissão ou recato esperadas dela. Ela não entende por que não pode rir num momento solene ou por que não pode satisfazer seus desejos em público, expondo a arbitrariedade das normas sociais.
Além da sexualidade, o filme aborda a formação intelectual. A evolução de Bella passa do prazer sensorial para a curiosidade filosófica e o engajamento social (socialismo e direitos humanos), provando que a empatia e a ética podem surgir da compreensão lógica do sofrimento alheio, e não necessariamente do medo da punição divina ou social.
Conclui-se que Pobres Criaturas é uma fábula sobre a liberdade radical. Para a psicologia, a personagem oferece um estudo de caso hipotético sobre um desenvolvimento humano não neurotizado pelo recalque civilizatório. Bella Baxter nos fascina porque ela é aquilo que Freud apontou em O Mal-estar na Civilização como impossível: um ser humano plenamente integrado aos seus desejos, vivendo em sociedade sem sacrificar sua pulsão de vida.
Referências Bibliográficas:
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: Obras completas, volume 18. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FREUD, Sigmund. O Eu e o Id (1923). In: Obras completas, volume 16. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
