Quebrando o ciclo do estresse: o esgotamento profissional em foco

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Em um cenário corporativo cada vez mais acelerado e demandante, a fronteira entre a dedicação profissional e o esgotamento torna-se perigosamente tênue, transformando a síndrome de burnout e o estresse crônico em uma realidade palpável para inúmeros profissionais. A síndrome de burnout, ou síndrome do esgotamento profissional, é formalmente reconhecida como um “fenômeno ocupacional”, não sendo classificada como uma condição médica, mas como um fator que influencia o estado de saúde (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2019). Este distúrbio emocional, caracterizado por sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico, emerge de situações de trabalho desgastantes que não são gerenciadas com sucesso. 

No livro “Burnout: O segredo para romper com o ciclo de estresse”, as autoras Emily e Amelia Nagoski aprofundam essa definição, explicando que o esgotamento se manifesta por meio de três componentes interligados: exaustão emocional, despersonalização e uma diminuição do senso de realização pessoal. A exaustão, segundo elas, é a peça central do quebra-cabeça: “a sensação de estar exaurido, de que suas fontes de energia internas e externas estão esgotadas” (NAGOSKI; NAGOSKI, 2020, p. 16). 

O estresse crônico, por sua vez, atua como o precursor desse quadro, mantendo o corpo em um estado de alerta constante, sem a capacidade de retornar ao seu estado de relaxamento fisiológico. A questão central, como destacam as autoras, não é o estresse em si, mas a falha em completar seu ciclo biológico. Conforme explicam Nagoski e Nagoski (2020, p. 20), “o estresse não é o problema. O problema é que o mundo nos deixa presos no meio do ciclo da resposta ao estresse”. Biologicamente, a resposta ao estresse é um mecanismo de sobrevivência que, para ser concluído, necessita de uma “descarga” que sinalize ao corpo que a ameaça passou; quando isso não ocorre, a energia acumulada se cronifica, pavimentando o caminho para o burnout.

A identificação precoce dos sinais de alerta é, portanto, o primeiro passo indispensável para a mudança. No plano físico, a fadiga constante, dores de cabeça e musculares, alterações no apetite e no sono, e uma notável queda da imunidade são indicadores comuns. Emocionalmente, surgem sentimentos de fracasso, negatividade, perda de motivação, irritabilidade e dificuldade de concentração. Esses sintomas são acompanhados por alterações comportamentais, como isolamento social, agressividade, e uma visível queda na produtividade.

A prevenção exige uma abordagem multifacetada. Um caminho eficaz começa por aprender a completar o ciclo do estresse. É fundamental entender que “os estressores são as fontes externas de estresse. […] O estresse é a resposta neurológica e fisiológica que acontece em nosso corpo quando nos deparamos com uma ameaça” (NAGOSKI; NAGOSKI, 2020, p. 20). Para processar essa resposta, atividades como exercícios físicos, técnicas de respiração, interação social positiva ou expressão criativa são ferramentas poderosas. 

As autoras insistem que “o exercício físico é a estratégia mais eficiente para completar o ciclo da resposta ao estresse” (NAGOSKI; NAGOSKI, 2020, p. 33), pois ele comunica ao corpo, de forma primitiva e direta, que você sobreviveu à ameaça. Adicionalmente, é crucial desafiar a “Síndrome da Doação Humana”, um conceito que descreve a crença de que “você tem a obrigação moral de ser bonita, feliz, calma, generosa e atenta às necessidades dos outros; que ser todas essas coisas é seu propósito maior” (NAGOSKI; NAGOSKI, 2020, p. 153). 

Internalizar essa expectativa social leva à negligência do próprio bem-estar em favor do cuidado com o outro, tornando-se um fator de risco significativo para o esgotamento. O descanso, nesse contexto, deve ser encarado não como um luxo, mas como uma necessidade biológica, envolvendo sono de qualidade, pausas e momentos de completa desconexão.

Contudo, a responsabilidade não é apenas do indivíduo. A psicóloga organizacional Marisa Salanova destaca que o burnout é frequentemente um sintoma de disfunções no ambiente de trabalho, não uma falha pessoal. Ambientes laborais tóxicos, caracterizados por sobrecarga de trabalho, falta de autonomia, recompensas insuficientes, ausência de equidade e conflito de valores são os verdadeiros catalisadores do esgotamento (SALANOVA, 2008). 

Portanto, a prevenção eficaz do burnout é, em grande medida, uma obrigação organizacional. Empresas que fomentam uma cultura de apoio, com cargas de trabalho realistas, comunicação transparente, reconhecimento e um incentivo genuíno ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional, são essenciais para construir um ambiente onde os colaboradores possam prosperar de forma sustentável e saudável.

Referências

NAGOSKI, Emily; NAGOSKI, Amelia. Burnout: o segredo para romper com o ciclo de estresse. Rio de Janeiro: BestSeller, 2020.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Burn-out an “occupational phenomenon”: International Classification of Diseases. Geneva: WHO, 2019. Disponível em: https://www.who.int/news/item/28-05-2019-burn-out-an-occupational-phenomenon-international-classification-of-diseases. Acesso em: 2 set. 2025.

SALANOVA, Marisa. El Engagement en el Trabajo: cuando el trabajo se convierte en pasión. Madrid: Alianza Editorial, 2008.

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