Melancolia produtiva e o resgate da sensibilidade masculina

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O filme Diário de uma Paixão narra a história de amor entre Noah e Allie, um romance de verão iniciado sem pretensões que se transforma rapidamente. Eles vêm de realidades distintas, pois ele é um operário de serraria e ela é uma herdeira rica educada para a alta sociedade. A relação acaba interrompida pela desaprovação da família da jovem e pela eclosão da Segunda Guerra Mundial. Após anos de separação e centenas de cartas enviadas por Noah que nunca chegaram às mãos de Allie, o destino os coloca em rotas divergentes. Ela fica noiva de um soldado herói de guerra, enquanto o rapaz retorna do front obcecado em restaurar uma antiga mansão que prometera reformar para que no futuro morassem juntos.

Mesmo após entender que a amada poderia não voltar por se casar com outro homem, a casa de Windsor Plantation nunca foi meramente um projeto imobiliário, mas um corpo físico para um sentimento abstrato. Diferente do modelo de masculinidade pós-moderna que descreve o homem apenas como um ser funcional e pragmático, Noah utiliza sua capacidade técnica como meio de validar um mundo interno que nem o silêncio e nem a distância foram suficientes para atenuar. Para a psicologia, esse processo é chamado de objetivação do afeto.

Diferentemente do que se pode pensar, um propósito por si só já é capaz de ordenar nossas ações, sendo mais forte do que qualquer palestra motivacional. Em latim, propósito, carrega o significado de “daquilo que coloco diante de mim”, logo, entendemos que um objetivo de vida necessita que compreendamos as razões pelas quais agimos. Isso dá mais sentido à existência e é um processo, segundo Hegel, de reconhecer-se na própria obra ao objetivar a subjetividade. Enquanto movimentos hostis incentivam que homens recorram ao cinismo ou à agressividade para mascarar a dor de uma rejeição, Noah decide pelo trabalho criativo, canalizando a energia vinda do sentimento de abandono para algo que além de significado pudesse ser visto e tocado.

Essa dedicação em transformar a dor em matéria palpável revela a nobreza de Noah, mas também abre espaço para uma sombra psicológica importante.Existe uma linha tênue entre a devoção romântica e o risco da fixação patológica que necessita ser abordado.  O perigo de usar um afeto não correspondido como única base para a vida é que, se Allie jamais voltasse, aquela residência não seria um sonho, mas um mausoléu. Noah teria se condenado a viver dentro de um monumento erguido à própria solidão. Psicologicamente, manter o apego por alguém que não dá mais sinais de retorno pode ser uma forma de evitar novos riscos emocionais. Afinal, parece mais seguro amar memórias do que se arriscar em algo novo que traria desafios próprios.

O que torna Noah um personagem ainda mais curioso é que ele assume o risco de parecer patético até mesmo em sua época. Do ponto de vista de um telespectador atual que preza pela eficiência emocional, o protagonista poderia estar perdendo tempo ou se colocando em uma condição de inferioridade. Contudo, considerando que o sentimento ainda é uma de nossas fragilidades soberanas, ele prova que a masculinidade atinge seu ápice quando a força bruta se coloca inteiramente a serviço da sensibilidade. Ele não persegue Allie quando a vê seguindo em frente, não interfere no noivado e não a torna alvo de desprezo. O que Noah escolhe fazer é criar um espaço transicional onde possa recorrer à melancolia produtiva em vez da violência compensatória.

No final das contas, o filme atesta que o drama de Noah Calhoun não é apenas uma fixação, mas um espelho de nossas reconstruções diárias. Todos temos uma casa de Windsor Plantation, seja um projeto ou uma ferida que insistimos em restaurar com o suor do esforço e o silêncio da esperança. Assim como o personagem, podemos usar o trabalho ou a produtividade como forma de proteger vulnerabilidades que são socialmente chamadas de fraqueza. Ainda assim, somos seres que possuem carências e necessidades, e sempre construiremos o mundo a partir de nós mesmos, pois sem isso não haveria como existir.

 

Ficha Técnica: Diário de uma Paixão

Título Original: The Notebook

Ano de Lançamento: 2004

Direção: Nick Cassavetes

Roteiro: Jeremy Leven (baseado no livro de Nicholas Sparks)

Gênero: Drama Romântico

Duração: 123 minutos

Distribuição: New Line Cinema

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Estudante de psicologia. Escritora criativa e transcritora de pensamentos nas horas vagas.

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