Publicado pela primeira vez em 1774, Os Sofrimentos do Jovem Werther é um símbolo do Romantismo alemão no Ocidente. E o romantismo de que vos falo não diz respeito às propagandas capitalistas que vemos no Dia dos Namorados ou às frases encontradas em embalagens de chiclete, mas ao movimento romântico artístico e filosófico que surgiu como uma reação direta ao Iluminismo e à Revolução Industrial. Na obra, vemos Werther como símbolo do “Sturm und Drang” (Tempestade e Ímpeto), e essa característica está presente desde as descrições que ele faz sobre o mundo externo quanto nas que ele faz do seu mundo interno, alegando, inclusive, que ser incompreendido é o destino de todos aqueles que se parecem com ele. No entanto, onde Werther vê um “destino de incompreensão”, Viktor Frankl proporia que o sofrimento não é um beco sem saída, mas um espaço onde o homem é questionado pela vida.
Recém-chegado a uma nova comunidade, Werther se percebe embebido de uma paixão sem precedentes. O protagonista, então, passa a sofrer profundamente, já que Charlotte, a mulher do seu desejo, está comprometida com outro homem. Para Frankl, o sofrimento humano só se torna insuportável quando é um sofrimento sem sentido, e Werther comete o erro existencial de transformar seus sentimentos e sua dor na única forma de expressão de sua alma. O desdém que alimentou por anos a toda forma de ponderação e comedimento fez com que não possuísse ferramentas para atenuar o sofrimento, centrando toda a sua existência em Charlotte, esvaziando o mundo de qualquer outro propósito e caindo no que Frankl chama de vácuo existencial.
Amargamente, vemos seus pensamentos e lemos conclusões das quais o próprio Werther não se orgulha. Mesmo que tente se afastar fisicamente do casal, sua mente propõe observações como a de que o marido não se encontra tão feliz como deveria, como se, de alguma forma, pelo amor atribuído às almas que se encontram apenas uma vez, ele estivesse em posição de se indignar com o homem que não é “sensível” ao amor de Charlotte. Nesse ponto, pode-se afirmar que Werther sofre pela hiperintenção, focado tanto na “paixão absoluta” que o resto do mundo perde a relevância.
Para a Logoterapia de Viktor Frankl, quando o homem reduz sua existência a um único ponto (Charlotte), qualquer abalo nesse ponto destrói o edifício inteiro da alma. A neurose noogênica de Werther nasce desse vazio onde nada mais importa. Infelizmente, igual a gasolina lançada às chamas, para ele próprio, só resta sucumbir diante da tragédia anunciada de um amor que jamais viverá.
O desfecho da obra não é apenas o resultado de um coração partido, mas de uma profunda crise de sentido. Na visão de Frankl, Werther declina ao que ele descreve como a “tríade trágica”: a dor, a culpa e a morte; e, sem a ferramenta da autotranscendência, ou seja, da capacidade de se voltar para algo ou alguém fora de si mesmo de forma saudável, não pode superar a urgência de pôr fim ao sofrimento.
Olhando para as cinzas do destino de Werther, vejo um homem que esqueceu sua liberdade última: a de escolher sua atitude diante do destino. O sofrimento, por si só, não possui um valor intrínseco, ele ganha valor pela forma como o homem o carrega. Se Werther tivesse olhado para além de Charlotte, talvez pudesse ter visto que sua sensibilidade artística, seu amor pela natureza e sua capacidade de sentir profundamente eram dons que o mundo precisava.
Porém, Werther carregou sua dor como um ídolo, sacrificando o resto do mundo inteiro em seu altar. Ele acreditava que sua dor era o ponto final de sua história, quando, na verdade, ela poderia ter sido o ponto de partida para uma nova dimensão de ser, afinal, o sentido da vida não depende de sermos felizes ou de possuirmos o objeto do nosso desejo. O sentido reside na nossa capacidade de transformar a tragédia pessoal em um triunfo humano.
Referências:
GOETHE, Johann Wolfgang von. Os sofrimentos do jovem Werther. Tradução de Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM, 2001. (Coleção L&PM Pocket).
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Tradução de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 40. ed. Petrópolis: Vozes, 2016.
