O tempo inscrito no corpo: uma leitura de ‘O peso do pássaro morto’ de Aline Bei

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Alguns livros narram acontecimentos, outros acompanham uma vida inteira… ‘O peso do pássaro morto’, da escritora Aline Bei, pertence a esse segundo grupo. Ao seguir uma personagem da infância à vida adulta, o romance não se limita a relatar o que acontece, mas evidencia aquilo que permanece. Capítulo a capítulo, o que se constrói na narrativa é a percepção de que o tempo não atua apenas no calendário, ele se materializa no corpo.

Publicado em 2017, o romance acompanha a trajetória de uma mulher dos 8 aos 52 anos. A narrativa se organiza em fragmentos, como lembranças que surgem e se apagam sem explicações completas. Não há encadeamentos longos nem descrições minuciosas. Há cenas, recortes, instantes. É dessa soma de momentos, e não de uma linearidade contínua, que uma vida vai sendo formada. A escrita de Aline Bei é direta e contida, mas carrega uma delicadeza poética que se constrói justamente pelo que não é dito.

Ao longo da narrativa, a personagem atravessa perdas, violências, relações afetivas, maternidade e luto. Nada disso aparece de forma grandiosa ou explicativa. Os acontecimentos surgem, muitas vezes, de maneira brusca ou silenciosa, e seguem adiante. Não há um ponto de resolução que reorganize a vida, ela continua mesmo quando algo se rompe. Nesse movimento, o romance produz uma sensação persistente: viver é seguir, mesmo sem clareza de como fazê‑lo.

Desde a infância, não há um tempo de amparo para a personagem. As primeiras experiências já são atravessadas por situações difíceis, que deixam marcas prematuras. Adolescência e juventude não rompem com esse percurso… o corpo segue sendo o lugar onde as experiências se instalam, muitas vezes sem escolha, sem preparo ou nome. Violência e silêncio atravessam essas vivências, não como episódios isolados, mas como algo que insiste em operar ao longo do tempo.

Crescer, construir relações, trabalhar e tornar‑se mãe não apagam o que veio antes. Ao contrário, o romance revela como as experiências se reorganizam, mas continuam atuando no presente. O corpo surge como espaço de acumulação: nele permanecem perdas, afetos, vazios e tentativas de continuar. O que foi vivido não se desfaz… transforma‑se em vestígio.

Olhar para essa trajetória pela psicologia nos impede de isolar a personagem em uma bolha. O que ela vive não nasce com ela, articula-se às pressões sociais e culturais que a cercam. Como pontua Maria Amalia Andery (2011), o comportamento não brota no vácuo, mas em práticas historicamente situadas. Afinal, ninguém começa do zero, pois existir pode também significar herdar formas de vida que já estão aí, circulando muito antes de nós. Isso explica por que as dores do livro parecem transbordar a própria protagonista. Não são apenas dramas individuais. Silêncios e resistências são construídos, repetidos e passados adiante. O romance de Aline Bei desenha essa linha invisível que atravessa gerações, uma herança de força e trauma que opera no silêncio, sem precisar de nome.  

Esse movimento dialoga com a visão de Emmanuel Tourinho (2009) acerca da subjetividade. Para ele,  a subjetividade não é um cofre trancado dentro da gente, mas algo forjado no mundo, nas relações. Em ‘O peso do pássaro morto’, o “eu” da personagem é uma escrita feita pelas circunstâncias. Suas experiências não são apenas fatos, são marcas que definem como ela pisa e respira no mundo. O romance, assim, não apresenta apenas uma sequência de acontecimentos, mas um processo de inscrição. O corpo é o lugar onde essa história se deposita. Ele é o que sente, reage, suporta e continua. Mais do que atravessar o tempo, o corpo é atravessado por ele, carregando os efeitos de tudo o que foi vivido.

A escrita de Aline Bei sustenta um silêncio que diz muito. No livro, as experiências que permanecem sem explicação ou fechamento não são falhas, mas uma escolha estética precisa. Afinal, a vida raramente entrega nomes para tudo o que dói. Algumas vivências seguem sem legenda, mas nem por isso deixam de produzir efeitos ou de ditar o ritmo do presente. Talvez por isso a obra funcione como uma cartografia do tempo,  não um mapa de rotas nítidas, mas um percurso de interrupções e continuidades. O que está em jogo não é o destino, mas os rastros deixados pelo caminho.

Nessa narrativa, ser mulher está profundamente ligado ao ato de atravessar experiências que deixam cicatrizes na memória e na forma de existir. Não se trata apenas do que passou, mas do que insiste em ficar. Viver, para a personagem, é um exercício de carregar.

Ao traçar essa trajetória, Aline Bei não nos entrega apenas a história de uma mulher, mas um espelho onde muitas outras podem se reconhecer. É uma jornada feita de perdas, silêncios e tentativas que não se organiza em linha reta, mas se inscreve, aos poucos, na própria carne. Ao fim da leitura, sobra a sensação de que o tempo não apenas passa… ele se deposita. Primeiro no corpo da personagem e, inevitavelmente, em quem lê.

Referências

ANDERY, Maria Amalia Pie Abib. Comportamento e cultura na perspectiva da análise do comportamento. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 27, n. 2, p. 161–168, 2011. Disponível em: <https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2177-35482011000200006>. Acesso em: 16 abr. 2026.

BEI, Aline. O peso do pássaro morto. São Paulo: Nós, 2017.

TOURINHO, Emmanuel Zagury. Subjetividade e relações comportamentais. São Paulo: Paradigma, 2009.

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Graduada em Letras e Mestra em Ensino de Língua e Literatura pela UFT. Acadêmica de Psicologia da ULBRA Palmas.

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