Ser mulher, pensar gênero, enfrentar o mundo: (En)cena entrevista Gleys Ially Ramos

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O Portal (En)Cena recebe a professora doutora Gleys Ially Ramos para uma conversa sobre um tema urgente: as questões de gênero e os desafios que ainda atravessam a vida das mulheres. Em tempos de tantas disputas em torno de direitos, voz e reconhecimento, ouvir mulheres que pesquisam e sustentam esse debate é também uma forma de ampliar o pensamento e fortalecer a escuta.

Professora da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Gleys possui uma trajetória acadêmica marcada pelos estudos sobre mulheres, feminismos e questões sociais contemporâneas. Com formação em Geografia e Desenvolvimento Regional, realizou pós-doutoramentos no Brasil e no exterior, além de coordenar o OUTRAS – Observatório Transdisciplinar sobre Feminismo, Política e Métodos e o OUTRAS – Observatório Feminista, espaços que articulam pesquisa, extensão e compromisso social. Teórica negro-feminista, ensaísta, cronista e escritora, Gleys também lançou em 2025 o livro A Quarta Parede, ampliando sua atuação para além da universidade. É com grande satisfação que o Portal (En)Cena abre espaço para essa entrevista, em uma conversa sobre trajetória, resistência, mulheres e os desafios que ainda atravessam suas vidas.

É com grande satisfação que o Portal (En)Cena abre espaço para essa entrevista com Gleys Ially Ramos.

  • Em que momento da sua trajetória você percebeu que as questões de gênero deixariam de ser apenas um tema de estudo e passariam a ocupar um lugar central no seu modo de ler o mundo?

Sou egressa da Universidade Federal do Tocantins, formada em Geografia. Quando ingressei na universidade, tudo era muito novo para mim, então comecei a procurar grupos de estudo. Entrei no NEAB, o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, e depois no NURBA, o Núcleo de Estudos Urbanos, Regionais e Agrários, por conta da minha formação. Nesses espaços, a presença masculina era muito maior do que a feminina, e isso me incomodava. Não porque eu fosse diretamente silenciada, mas porque, muitas vezes, quando eu tinha algo a dizer, alguém acabava tomando a frente da fala. Hoje, olhando para trás, percebo que ali já existiam inquietações que mais tarde se tornariam centrais na minha trajetória de pesquisa e atuação. Na época, eu ainda não sabia que as questões de gênero seriam o eixo das minhas investigações, mas sabia que precisava me movimentar. Comecei a chamar minhas colegas para esses espaços e a provocá-las a participar mais. Costumava dizer que tinha medo de voltar sozinha do campus para casa, embora, na realidade, eu tivesse a companhia dos meus colegas. Era uma forma de sensibilizá-las para o debate e para a importância de estarmos juntas. As questões de gênero entraram como tema de estudo porque, antes de serem objeto de pesquisa, já me atravessavam como experiência. Elas sempre fizeram parte da minha vida, mas foi na universidade que passei a compreendê-las de maneira mais crítica, quando fui convocada a olhar para essas vivências e transformá-las em reflexão.

  • Sua caminhada acadêmica cruza diferentes áreas, instituições e experiências. O que, ao longo desse percurso, mais foi refinando o seu olhar sobre questões de gênero?

Penso que o que mais refinou o meu olhar foi a percepção da desigualdade presente em todos os espaços, instituições e áreas de atuação. E essa desigualdade reduz as experiências concretas das mulheres, limitando suas possibilidades de participação e reconhecimento. No meu caso, esse processo começou por uma sensação de solidão. Primeiro, pela ausência de parcerias entre mulheres e, mais tarde, pela necessidade de encontrar mulheres sensíveis às questões de gênero. Eu precisava contar com pessoas que compreendessem essas experiências e estivessem dispostas a problematizá-las. Muitas vezes, as mulheres que ocupavam esses espaços não reconheciam a existência de um sistema de opressão ou não se sentiam diretamente afetadas por ele.

Desde muito cedo, também fui provocada a compreender que gênero não poderia ser pensado sem a questão racial. Algumas mulheres se mobilizavam a partir de suas próprias vivências, mas essas vivências eram, em grande parte, marcadas pela experiência de serem mulheres brancas. A universidade ainda é um espaço muito mais permeado por mulheres brancas do que por mulheres negras, embora isso tenha mudado significativamente com as políticas de cotas e outras ações de inclusão e permanência. O que fui percebendo é que a desigualdade não desaparece apenas porque há mais mulheres presentes em determinados espaços. Muitas vezes, elas estão lá, mas continuam afastadas dos lugares estratégicos de decisão. E a ausência nesses espaços produz uma forma particular de silenciamento: você pode até falar, mas sua voz não encontra ressonância. Foi essa constatação que transformou a questão de gênero em algo maior do que um tema de pesquisa. Ela se tornou um compromisso de atuação. Naquele momento, eu ainda não sabia exatamente quais caminhos seguiria profissionalmente, mas tinha clareza de que não poderia permanecer indiferente. Também compreendi algo fundamental: nenhuma mulher avança sozinha. A ideia de que a meritocracia, por si só, garante igualdade de oportunidades é insuficiente. Algumas mulheres até conseguem avançar individualmente, mas isso não altera as estruturas que continuam produzindo desigualdades e tentando afastá-las desses espaços.

  • Antes da pesquisadora, da professora e da feminista, houve uma mulher em formação. Que vivências pessoais ou coletivas você sente que ajudaram a construir esse compromisso com as mulheres e com o feminismo?

Essa pergunta me emociona profundamente. Eu sempre fui mulher porque venho de uma casa de mulheres. Sou filha de uma mãe que foi abandonada e costumo evitar a expressão “mãe solo”, porque ela sugere uma escolha. Minha mãe não escolheu criar as filhas sozinha, assim como tantas outras mulheres não escolhem essa condição. Por isso, prefiro dizer que ela foi uma mulher abandonada. Venho de uma família marcada por sucessivos abandonos paternos. Não foi apenas o meu pai; essa experiência atravessou também a vida dos meus irmãos e de outras mulheres da família. Diante disso, construímos relações muito fortes entre nós, embora profundamente atravessadas pela pobreza e pelas dificuldades materiais. Tivemos que trabalhar cedo, assumir responsabilidades cedo e aprender a cuidar umas das outras desde muito novas. Antes de qualquer reflexão crítica, era preciso sobreviver.

Hoje, olhando para essa trajetória, percebo que essa experiência também nos fortaleceu. Ela nos ensinou que não era possível enfrentar a vida sozinhas. Algumas violências eram inevitáveis, mas aprendemos a reconhecê-las e a não naturalizá-las. Minha mãe, especialmente, sempre foi muito comprometida com a educação das filhas. Ela nunca abriu mão disso. Somos todas formadas, e ela própria concluiu sua graduação depois dos cinquenta anos. Inclusive, entramos na universidade juntas. Por isso, costumo dizer que cheguei à universidade já me percebendo como mulher. Lembro da frase de Simone de Beauvoir de que não se nasce mulher, torna-se mulher. Eu me tornei mulher a partir dessa experiência matriarcal, cercada por mulheres que resistiram ao abandono e encontraram força umas nas outras.

Quando entrei na universidade, já compreendia, de alguma forma, que existiam desigualdades que favoreciam os homens e colocavam as mulheres em posições de desvantagem. E percebi que precisaria reproduzir ali o mesmo pacto que havia aprendido em casa: o compromisso com outras mulheres. Se minha família não sucumbiu, foi porque nós nos comprometemos umas com as outras. Essa é uma lógica que procuro levar para os grupos de estudos de mulheres que coordeno. Antes mesmo de conhecerem a teoria feminista, acredito que as mulheres precisam aprender a se enxergar, a se apoiar e a construir vínculos de solidariedade. Nem sempre conseguimos escapar completamente das armadilhas da rivalidade que nos são ensinadas, mas esse é um compromisso fundamental. Antes da ciência, antes da teoria, existe um compromisso que precisamos assumir conosco mesmas e com outras mulheres.

  • Quando falamos em questões de violência de gênero sofridas por mulheres, sobre o que você acredita que ainda estamos falando pouco na universidade e na sociedade?

Eu parto sempre do princípio de que a gente está muito centrada nas mulheres. E não que eu ache isso insuficiente. No entanto, quem precisa, de fato, ter acesso a uma revolução – e não estou falando de uma transformação de pensamento, mas de uma revolução mesmo – são as mulheres. Elas precisam tomar as forças estruturais de formação, porque, ao fazer isso, elas revolucionam. E revolucionam porque não têm poder. Então, ao tomar esses espaços, elas transformam as estruturas.

Eu penso que os homens não nos ouvem. Você pode pensar que o homem que está ali na universidade é mais sensível, mais aberto ao debate, mas não é bem assim. Porque, quando se trata de privilégios, até o mais progressista dos homens vai se movimentar para mantê-los. Nesse sentido, a universidade é uma enorme produtora de privilégios, talvez uma das instituições que mais produz privilégios na sociedade, por causa do status quo. Eu penso que a gente não discute o status quo da universidade. Não discute, por exemplo, que mesmo uma mulher assumindo um cargo de liderança, ela pode continuar replicando modos de operação institucionais e estruturais como qualquer outro homem faria. Então, a meu ver, estamos falando pouco de estruturas sociais, estamos falando pouco de poder e de como esse poder se manifesta. Estamos muito focados na identidade e na representatividade. Ou seja, se estivermos representadas e se essa representação tiver alguns aspectos de identidade, nos conformamos e nos sentimos, de alguma forma, contempladas. E isso não é verdade. A representatividade é importante para endossar a presença de determinadas pessoas nesses espaços, mas ela não preenche; ela apenas representa.

A meu ver, ainda não tocamos no principal elemento, que é o status quo, que é a relação de poder. Porque mesmo quando mulheres ocupam determinados espaços, se elas não rompem com essas lógicas, acabam fortalecendo-as. A representação faz parecer que existe um preenchimento, que existe igualdade ou equidade, quando isso está longe de ser verdade. Estamos falando muito pouco de revolução e de transformação estrutural na universidade. Não tocamos em elementos cruciais, como o fato de que, dentro das reitorias, superintendências e coordenações, os homens continuam tendo poder e acesso ao poder. E aqui posso citar um caso específico da Universidade Federal do Tocantins. Temos uma reitora mulher, negra, nortista e tocantinense. Mas, quando observamos os demais segmentos e hierarquias, eles continuam muito permeados por pessoas brancas, por homens e por pessoas que não estão necessariamente comprometidas com essa igualdade. Percebe como identidade e representatividade podem ser insuficientes? Porque não estamos movimentando as relações de poder, estamos movimentando as relações representativas. E isso produz uma falsa sensação de mudança. Por isso, vejo que estamos falando muito pouco sobre o status quo, sobre o poder e sobre o próprio conceito de poder. Porque o conceito de poder que conhecemos é, em grande medida, um conceito patriarcal. Para as mulheres, poder é outra coisa. Para as mulheres negras, poder é outra coisa. Para as mulheres indígenas, poder é outra coisa. E para aquelas que ainda nem são mulheres, mas meninas que ingressam na universidade aos 16 ou 17 anos, poder também significa outra coisa.

  • Que papel a universidade pode exercer, de forma concreta, no enfrentamento das desigualdades de gênero e das violências contra as mulheres?

Gostaria de retomar algo que disse na questão anterior. Não estou relativizando a importância da representatividade nem da identidade. Estou dizendo que esses elementos são insuficientes. Ao mesmo tempo, defendo que o poder precisa ser tensionado do ponto de vista estrutural. E não apenas o poder de ter, para ou com, mas o próprio conceito de poder que assumimos, aceitamos e manifestamos. Dito isso, qual papel a universidade pode exercer de forma concreta? A meu ver, a criação de uma política institucional permanente de equidade de gênero. Algumas universidades já possuem estruturas voltadas para isso. Existem, inclusive, universidades na América Latina que contam com pró-reitorias de equidade e igualdade de gênero. Por que isso é importante? Porque fazemos muitas coisas, produzimos muitos dados, realizamos pesquisas, promovemos ações, mas nem sempre sabemos para onde esses resultados estão indo. Não sabemos como sistematizá-los, analisá-los ou garantir que a comunidade universitária tenha acesso a eles. Produzimos informações o tempo todo, mas quem está absorvendo esse conhecimento? Quem está comprometido em amplificar aquilo que está sendo produzido? Às vezes, confesso que me sinto cansada desse processo. Produzimos dados, analisamos dados, coletamos dados, divulgamos dados. Mas, quando olhamos para dentro da universidade, quem está sistematizando tudo isso para que a comunidade acadêmica tenha acesso? E aqui, quando falo em acesso, não estou dizendo necessariamente leitura ou análise, porque sei que muitas pessoas continuam não se comprometendo com essas discussões mesmo quando a informação está disponível. Mas, ao menos, não poderiam alegar desconhecimento.

Digo isso porque, toda vez que falamos sobre desigualdade, interseccionalidade, violência institucional ou violência política de gênero, encontramos pessoas que dizem não conhecer esses dados ou não terem acesso a essas discussões. E, de fato, ainda nos falta uma sistematização mais ampla que permita que toda a comunidade acadêmica tenha contato com essas informações. Além disso, isso diminuiria a carga que recai sobre pesquisadoras feministas e negro-feministas, que frequentemente se veem obrigadas a exercer um trabalho permanente de pedagogia. Muitas vezes estamos transformando as redes sociais em sala de aula, transformando espaços de convivência em espaços de explicação constante. Deixamos de socializar, descansar ou simplesmente existir para continuar justificando e explicando questões que já deveriam estar minimamente compreendidas por quem tem acesso à universidade. Por isso, acredito que falta um espaço concreto para essa discussão. Eu mesma já apresentei inúmeras vezes a proposta de criação de uma política permanente de equidade de gênero na universidade em que atuo. Já propus, já participei da construção de projetos, mas eles não avançam. Talvez seja necessária uma mobilização mais ampla. Talvez seja necessário que a proposta venha de alguém com uma cor de pele ou um gênero considerados mais dignos de escuta. Hoje, não tenho mais a vaidade de acreditar que essas iniciativas precisam partir especificamente de mim. Para mim, o importante é que aconteçam. Se saírem do papel, independentemente de quem as conduza, isso já será suficiente.

  • Ao longo da sua trajetória, houve alguma ideia sobre mulheres, feminismo ou liberdade que você mesma precisou rever, aprofundar ou amadurecer?

Com certeza. As minhas ideias sobre muitas coisas mudaram bastante ao longo do tempo. A própria ideia de feminismo mudou. Acho que muitas vezes somos apresentadas a uma visão muito romântica do feminismo, como se todas as mulheres fossem dar as mãos e, juntas, construir uma nova sociedade. Como se essa transformação surgisse apenas de sentarmos em uma roda de conversa. E não é assim. Penso que o feminismo, enquanto plataforma política, precisa ser crítico e criterioso. Com isso, não estou dizendo que as mulheres tenham que entrar ou sair do feminismo, ou que existam “carteirinhas feministas”. O que estou dizendo é que o feminismo precisa manter sua capacidade crítica. Nem todas as ideias são revolucionárias e nem todas as ideias contribuem para a libertação das mulheres. Muitas vezes caímos em armadilhas liberais. Um exemplo é o lema “meu corpo, minhas regras”, que, em determinados contextos, acabou sendo utilizado para reforçar lógicas de consumo do próprio corpo, como se as regras estivessem sendo produzidas pelas mulheres, quando, na verdade, elas continuam sendo atravessadas por estruturas maiores, como o patriarcado e o capitalismo. Eu já tive debates difíceis com mulheres liberais – e faço questão de usar esse termo. Eu me recuso a falar em “feminismo liberal”, porque, para mim, se o feminismo é uma plataforma política comprometida com a superação das estruturas que produzem desigualdade e opressão, não faz sentido estabelecer alianças com o capitalismo. Considero essa uma contradição profunda. Por isso, prefiro falar em mulheres liberais, reconhecendo que elas têm o direito de defender as perspectivas que consideram adequadas.

Ao longo da minha trajetória, também mudei muito a minha compreensão sobre liberdade. Durante muito tempo, pensei que liberdade fosse simplesmente fazer o que se quer, quando se quer. Hoje entendo a liberdade como responsabilidade. E por que responsabilidade? Porque o exercício das minhas possibilidades não pode diminuir, oprimir ou desestabilizar outras pessoas, especialmente outras mulheres. Quando retomamos, por exemplo, o debate sobre “meu corpo, minhas regras”, percebemos que determinadas reivindicações de liberdade costumam partir de experiências muito específicas. A nudez, por exemplo, pode representar libertação para algumas mulheres, mas, para outras, especialmente mulheres negras, indígenas e racializadas, o corpo exposto sempre esteve associado a processos de objetificação e hipersexualização. Não há nada de revolucionário para uma mulher negra em ver um corpo nu ocupando determinados espaços, porque, historicamente, nossos corpos já foram expostos, consumidos e utilizados dessa forma. Por isso, passei a compreender que a liberdade precisa ser pensada em relação às diferentes experiências das mulheres e aos contextos em que elas estão inseridas.

Também tenho repensado o próprio conceito de mulher. Recentemente, venho relacionando essa reflexão ao exercício da minha sexualidade. Vivemos em uma sociedade marcada pela heterossexualidade compulsória e por normas muito rígidas sobre como as mulheres devem viver seus afetos e desejos. Revisitar essas questões tem sido uma experiência importante para mim. Ao mesmo tempo em que é um processo prazeroso de descoberta, também envolve desafios e tabus, especialmente quando tentamos compartilhar essas reflexões com pessoas que nos conheceram a partir de outras referências e expectativas.

  • O que você pode nos dizer hoje sobre sua atuação profissional e luta feminista?

Sobre a minha atuação profissional e luta feminista, eu não disssossio, eu sou professora, pesquisadora, extensionista e escritora. E não faço distinção entre esses espaços. Quando entro em sala de aula, deixo muito claro de onde parto. Sou mulher, sou negra e sou feminista. Faço questão de apresentar esses marcadores desde o início para que ninguém possa dizer, em algum momento, que foi levado a acreditar em algo diferente. Obviamente, a sala de aula exige uma relação de complexidade. Eu trabalho com diferentes perspectivas e diferentes formas de pensamento, mas sem abrir mão das minhas próprias convicções. Faço questão disso. Afinal, ser mulher e ser negra não é apenas uma posição teórica; são experiências que me acompanham o tempo todo. Não existe a possibilidade de dissociá-las de quem eu sou. Em alguns momentos, isso produziu afastamentos e até espanto. Mas acredito que uma das tarefas que temos pela frente é justamente construir uma metodologia e uma didática feministas. Não porque sejamos obrigadas a isso, mas porque, se queremos ampliar nossas compreensões e possibilidades de diálogo, também precisamos repensar a forma como comunicamos nossas ideias.

E aqui não estou falando sobre existir uma maneira certa ou errada de falar, se devemos falar alto ou baixo, se devemos demonstrar raiva ou não. O que quero dizer é que precisamos nos encontrar nessa luta. Precisamos construir formas de comunicação que permitam às pessoas perceberem que não abrimos mão de nós mesmas para ocupar os espaços que ocupamos. Para mim, esse é um dos maiores ganhos. Já houve momentos em que exteriorizei a minha raiva de forma mais intensa, porque acredito que precisamos sentir raiva das estruturas que nos oprimem. Precisamos rejeitar aquilo que produz desigualdade. Mas também é preciso compreender que mesmo quem ocupa posições de privilégio nem sempre teve acesso a determinadas reflexões. E talvez a sala de aula seja justamente um dos espaços em que esse acesso pode acontecer. Por isso, penso que precisamos desenvolver uma didática verdadeiramente transformadora. Uma didática que permita conversar com outras mulheres, ter paciência com outras mulheres e construir caminhos coletivos, mesmo quando isso é difícil ou nos leva aos nossos próprios limites. Não significa que eu consiga fazer isso o tempo todo, mas acredito que, em maior ou menor grau, tenho conseguido sensibilizar algumas pessoas para essas questões.

Na prática, isso aparece inclusive na forma como organizo minhas disciplinas. Sou professora de Geopolítica e começo a disciplina com a leitura de A Criação do Patriarcado, porque entendo que a subordinação das mulheres ao trabalho reprodutivo também é uma estratégia geopolítica. A partir daí, vou construindo conexões para mostrar como aquele conhecimento mais amplo, historicamente pensado por e para homens, também atravessa diretamente a vida das mulheres. Por isso, acredito que é preciso se encontrar nesse processo e construir formas de comunicar, ensinar e aprender. Porque não estamos apenas aprendendo o tempo todo; também temos algo a ensinar. E esse ensinar não está restrito à posição formal de professora. Ele está ligado à experiência. Quando acumulamos experiência, acumulamos também algo que pode ser compartilhado com outras pessoas.

  • Que conselho você daria às jovens mulheres que estão começando a construir sua voz, mas ainda sentem medo de ocupar espaço, se posicionar ou serem atacadas por isso?

Eu sempre gosto de dizer que sou uma ótima leitora de Audre Lorde. E Audre Lorde nos lembra que o silêncio nunca libertou ninguém, nunca poupou ninguém.

Atualmente, vejo muitas jovens receosas, e até mesmo medrosas, em relação à própria voz, à própria estética e à forma como são observadas pelos outros. O interessante é que esse medo já não vem necessariamente das pessoas próximas. Na minha geração, havia muito receio do que os pais, os familiares ou os amigos poderiam pensar. Eu me lembro do que significava, aos 17 anos, me reconhecer feminista ou me descobrir uma mulher bissexual. Havia medo das repercussões entre aqueles que estavam perto de mim. Hoje, percebo que muitas jovens têm medo de pessoas que sequer conhecem, ou de indivíduos que possuem pouca ou nenhuma interferência concreta em suas vidas. Há um temor constante de que sua performance seja observada, julgada e debatida em espaços aos quais elas nem têm acesso. E isso é extremamente desafiador.

Esse processo enfraquece não apenas o feminismo ou a possibilidade de revolução – e eu sempre vou falar de revolução -, mas enfraquece a própria mulher enquanto sujeito, enquanto possibilidade de existência. Por isso, tenho dedicado cada vez mais tempo ao trabalho com jovens. Existe uma frase de Isabel Leite de que gosto muito: devemos dedicar mais tempo às crianças e aos jovens, porque os velhos, muitas vezes, acreditam já ter aprendido tudo o que precisavam aprender. Há uma soberba que pode surgir com a idade, uma sensação de que a experiência acumulada autoriza mais a falar do que a ouvir. Espero que, à medida que eu envelheça, continue preservando a consciência de que, enquanto estivermos vivos, ainda temos algo a aprender.

Quando converso com as jovens, tento ajudá-las a perceber que sempre haverá vigilância, julgamento e punição. Independentemente do que façam, haverá alguém disposto a criticar. Então, se isso vai acontecer de qualquer forma, talvez valha a pena fazer as coisas por si mesmas. Não é necessário carregar a responsabilidade de libertar a mãe, a amiga ou todas as outras mulheres. O primeiro processo de libertação acontece quando abrimos a boca para falar de nós mesmas. E toda vez que uma mulher fala de si, ela fala também de muitas outras. Existe uma frase que gosto muito: “eu sou uma soma, e comigo estão muitas”. Quando uma mulher fala sobre violência doméstica, violência de gênero ou qualquer experiência que acredita viver sozinha, geralmente descobre que há inúmeras outras mulheres atravessadas pela mesma realidade.

Falar nos liberta porque nos impede de adoecer em silêncio. Ao mesmo tempo, mostra para outras mulheres que não há nada de errado com elas. Mostra que elas não falharam, que não são fracas e que aquilo que vivem não é um problema individual, mas parte de estruturas que afetam muitas mulheres. Às jovens, em especial, eu gostaria de dizer que a força capaz de transformar o mundo está na juventude. A juventude é o espaço onde ainda existe esperança. E, se permitirmos que nos roubem a esperança – essa espécie de planta alucinógena que nos permite enxergar futuros e imaginar outros mundos possíveis -, então teremos perdido tudo.

Por isso, tenham medo, mas vão com medo mesmo. Eu sempre digo isso às minhas orientandas. Quando elas dizem que estão com medo, eu respondo: vá com medo. Quando dizem que estão tremendo, eu respondo: fale. Porque, muitas vezes, é justamente aquilo que nos faz tremer que revela uma situação injusta, absurda ou insustentável. A melhor hora para falar nem sempre é quando estamos tranquilas; às vezes, é quando estamos indignadas. Porque é ali que está aquilo que realmente importa. O silêncio não vai nos salvar. Permanecer calada não nos livra da tormenta. E é justamente por isso que precisamos continuar falando.

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