Entrevista com a psicóloga Thaylla Cristianne Oliveira aborda prática clínica, intervenção precoce e promoção da autonomia infantil.
A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) vem ganhando cada vez mais espaço na psicologia infantil por sua eficácia no acompanhamento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras demandas do desenvolvimento. Baseada em evidências científicas, a abordagem tem como foco o desenvolvimento de habilidades, a promoção da autonomia e a melhoria da qualidade de vida.
Para entender melhor como a ABA funciona na prática e quais impactos ela gera no desenvolvimento infantil, conversamos com a psicóloga Thaylla Cristianne Oliveira dos Santos, que atua na área clínica infantil e compartilha sua experiência profissional, reflexões e vivências no atendimento de crianças.
Na entrevista, a psicóloga aborda desde sua trajetória profissional até questões como intervenção precoce, participação da família, estratégias utilizadas no atendimento e os principais desafios e avanços observados na prática clínica.
Entrevista
(En)cena — Boa tarde, Thaylla! Para começar, você pode se apresentar e contar um pouco sobre sua trajetória desde a graduação até sua atuação atual na área da Psicologia Infantil?
Thaylla Oliveira: Boa tarde, Mileide! Primeiramente, quero dizer que é um prazer estar participando dessa entrevista e poder falar um pouco da minha prática.
Bem, a minha trajetória com a ABA começou dentro da graduação em Psicologia, no sexto período, quando iniciei um estágio pela Unimed como acompanhante terapêutica (AT), aplicando conceitos da Análise do Comportamento, sob supervisão de psicólogos, com crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, especialmente autistas.
A partir daí, fui absorvendo a prática clínica junto com a teoria, através de cursos, treinamentos e capacitações que foram de suma importância e base da minha atuação quando me graduei.
Ao longo dos períodos seguintes, minha visão foi sendo moldada pela abordagem comportamental e segue assim até hoje.
Assim que me graduei, em 2022.2, iniciei pós-graduações em ABA e Neuropsicologia e já direcionei meu público de atuação, pois tinha clareza de que precisava ser específica a psicologia é muito ampla e não conseguimos atuar em tudo com qualidade e ética.
A avaliação neuropsicológica infantil, que também é uma área que gosto muito, abriu portas para os atendimentos quando me formei, pois a partir dela o vínculo com os clientes foi sendo construído junto com a confiança para seguir com a intervenção.
Atualmente, sou pós-graduada em ABA e Neuropsicologia, iniciei este semestre o mestrado profissional em Psicologia e estou finalizando o processo de certificação internacional como Analista do Comportamento pela IBAO.
(En)cena — O que te motivou a atuar com a abordagem ABA no atendimento infantil?
Thaylla Oliveira: Primeiramente, meu contato direto com a ABA através do estágio como AT, que abriu as portas para esse universo e consequentemente influenciou minha visão de mundo. E como ciência, a ABA se destaca por ser uma das abordagens com maior respaldo científico dentro da psicologia infantil, especialmente no contexto do autismo.
O que me motivou foi justamente essa combinação entre ciência e prática, com resultados reais na vida da criança e da família. Diferente de abordagens mais teóricas, a ABA permite trabalhar diretamente no comportamento com objetivos claros e observáveis.
(En)cena — Como você explicaria, de forma simples, o que é a ABA para o público em geral?
Thaylla Oliveira: De forma simples, a ABA é uma ciência que estuda como o comportamento é aprendido e como ele pode ser modificado a partir das interações com o ambiente.
Na prática, a gente observa o que a criança faz, entende por que ela faz e ensina formas mais funcionais de se comportar. Não é sobre “treinar” a criança, mas sim sobre ensinar habilidades que aumentem sua independência e qualidade de vida.
(En)cena — Qual é a importância da ABA no desenvolvimento infantil?
Thaylla Oliveira: A ABA atua diretamente em áreas essenciais do desenvolvimento, como comunicação, habilidades sociais, autonomia e regulação emocional.
Um ponto importante é que não basta a criança aprender algo dentro da sessão, ela precisa conseguir usar isso no dia a dia. Por isso, trabalhamos muito com generalização e manutenção das habilidades.
(En)cena — Em quais situações essa abordagem é mais indicada?
Thaylla Oliveira: Apesar de ser muito associada ao autismo, a ABA não se limita a isso. Ela pode ser indicada em casos de atrasos no desenvolvimento, dificuldades de linguagem, comportamentos desafiadores, dificuldades de aprendizagem e questões relacionadas à autonomia.
De forma geral, sempre que há dificuldade no desenvolvimento de habilidades ou comportamentos que prejudicam a rotina da criança, a ABA pode contribuir.
(En)cena — Qual é o papel da intervenção precoce nos resultados do tratamento?
Thaylla Oliveira: A intervenção precoce não é um diferencial, é um fator determinante de prognóstico, e isso ainda é pouco difundido.
Quanto mais cedo a intervenção começa, maior a plasticidade neural, maior a velocidade de aquisição, menor a consolidação de padrões disfuncionais e maiores são as chances da criança acompanhar seus pares. A literatura mostra ganhos significativamente maiores quando iniciada antes dos 6 anos.
(En)cena — Como funciona, na prática, o atendimento em ABA?
Thaylla Oliveira: Na prática, o atendimento envolve várias etapas e muito manejo. Começamos com uma avaliação detalhada, que inclui observação e análise do comportamento, além das demandas trazidas pela família.
A partir disso, definimos objetivos específicos e construímos programas individualizados para cada criança. Durante o processo, fazemos coleta de dados contínua para acompanhar o progresso e ajustar o planejamento sempre que necessário.
Também trabalhamos com reforçadores, respeitando o interesse da criança, e buscamos tornar o processo de aprendizagem o mais natural e motivador possível. E sem esquecer do vínculo que deve ser criado com a criança antes de tudo! Sem ele, dificilmente todas as outras etapas vão adiante.
(En)cena — Qual é o papel da família no processo terapêutico?
Thaylla Oliveira: A família não é apenas um suporte, ela faz parte ativa do processo. Sem o envolvimento dos pais, fica muito difícil garantir que as habilidades aprendidas na terapia sejam mantidas e generalizadas no dia a dia. Por isso, os pais acabam funcionando como co-terapeutas, participando ativamente do desenvolvimento da criança.
(En)cena — Quais são os principais benefícios observados nas crianças acompanhadas com ABA?
Thaylla Oliveira: Os principais benefícios, quando o acompanhamento é feito de forma planejada e com carga horária adequada, são o aumento da comunicação funcional, maior independência, redução de comportamentos-problema e melhora na adaptação social. Ou seja, a criança passa a participar do mundo de forma mais funcional.
(En)cena — Quais desafios você observa na prática clínica, especialmente na sua atuação no estado do Pará?
Thaylla Oliveira: A realidade do interior do Pará é bem diferente do Tocantins, especialmente da capital Palmas, e traz vários desafios. Temos dificuldades de acesso, limitações geográficas, poucos profissionais especializados e dificuldade na formação de equipes multiprofissionais, o que impacta diretamente na prática clínica.
Também percebo uma baixa compreensão da ABA pela população, embora cada vez mais pais estejam buscando informação e seus direitos. Outro ponto importante é o desalinhamento entre práticas educacionais e as necessidades reais das crianças neurodiversas, que interferem nos comportamentos do aprendiz em sala de aula e dentro da escola, e estes refletem tanto em casa como no consultório e exigem orientação da parte clínica para dar suporte pontual. Ao mesmo tempo, essa realidade exige adaptação constante, criatividade e compromisso, o que acaba fortalecendo muito a prática profissional.
(En)cena — Para finalizar, qual você considera ser o maior impacto da ABA na infância?
Thaylla Oliveira: O maior impacto da ABA não é “melhorar comportamento” é mudar trajetórias de desenvolvimento. Ela permite que a criança se comunique, faça escolhas, desenvolva autonomia, participe da vida social, etc. Em termos técnicos: A ABA amplia repertórios que definem funcionalidade ao longo da vida.
Agradecimento
Agradecemos à psicóloga Thaylla Cristianne Oliveira dos Santos pela disponibilidade e pelas contribuições, que enriquecem a compreensão sobre a importância da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) no desenvolvimento infantil.
Entrevistadora: Mileide Barbosa Oliveira Nobre -Estagiária Êncena – Psicologia Ulbra
Entrevistada: Thaylla Cristianne Oliveira dos Santos – Psicóloga Infantil- CRP 10/09205
