O corpo como expressão do cuidado psicológico: (En)Cena entrevista Eliz Dorneles

Compartilhe este conteúdo:

A relação entre corpo e mente tem ganhado cada vez mais destaque nas discussões sobre saúde integral, especialmente quando se observa o impacto do exercício físico no bem-estar emocional e psicológico. Nesse contexto, profissionais que atuam diretamente com o cuidado do corpo acabam também tocando dimensões importantes da saúde mental.

A entrevistada é uma profissional que atua com treinamento físico e acompanha de perto as transformações de seus alunos, não apenas no aspecto corporal, mas também emocional e comportamental. Sua prática evidencia como disciplina, autoestima e motivação estão profundamente conectadas.

Diante disso, esta entrevista busca compreender como essa atuação se aproxima da Psicologia, explorando experiências, desafios e aprendizados construídos ao longo da sua trajetória profissional.

Fernanda: Para começarmos, conte um pouco sobre você e sobre o que despertou o seu interesse em atuar como personal trainer, além de como essa escolha se conecta com a forma como você cuida e se relaciona com seus alunos no dia a dia.

Eliz Dorneles: Sou profissional de Educação Física com uma trajetória construída muito mais na prática e na vivência com pessoas do que apenas na teoria. Ao longo da minha carreira, desenvolvi um olhar sensível para o aluno como um todo — não só o corpo, mas também as emoções, rotina, limitações e história de vida.

Fernanda: Ao longo da sua trajetória profissional, o que te motivou a seguir na área do treinamento físico e como você percebe que essa escolha se conecta com aspectos da saúde mental dos seus alunos?

Eliz Dorneles: Aos 21 anos sofri uma lesão no joelho, então veio unir tudo, o que eu já havia aprendido, com o que estava vivendo na reabilitação e fortalecimento para seguir com minha vida pessoal e profissional. Contei com a colaboração de grandes profissionais da educação física, fisioterapia, técnicos de voleibol e vôlei de praia, cursos, pós-graduações e muitas atualizações que me trouxeram aqui. Com o tempo, percebi que o treino vai muito além de estética: ele é uma ferramenta de transformação de vida. Hoje, minha forma de trabalhar é baseada em escuta ativa, adaptação constante e construção de vínculo. Eu não treino corpos, eu acompanho pessoas. Isso faz com que meus alunos se sintam seguros, respeitados e mais comprometidos com o processo.

Fernanda: Que tipo de mudanças emocionais você percebe com mais frequência, e o que você acredita que explica essas transformações?

Eliz Dorneles: O que sempre me motivou foi ver a transformação real — não só física, mas principalmente comportamental e emocional. Muitos alunos chegam cansados, desmotivados, ansiosos, e aos poucos vão retomando o controle da própria vida. Percebo claramente que o exercício físico impacta diretamente na saúde mental. A melhora do humor, da disciplina, da autoestima e da sensação de capacidade são mudanças frequentes. Isso reforça ainda mais meu compromisso de trabalhar de forma individualizada e humana.

Fernanda: Sabemos que muitas pessoas buscam o exercício físico não apenas por estética, mas também como uma forma de lidar com ansiedade, estresse ou baixa autoestima. Como você entende o seu papel nesse processo, e até onde você acha que ele vai, considerando os limites entre Educação Física e Psicologia?

Eliz Dorneles: As mudanças mais comuns são: redução da ansiedade, melhora do humor, aumento da autoestima, sensação de autonomia e controle. Essas transformações acontecem por alguns fatores: liberação hormonal (como endorfina), sensação de conquista, criação de rotina e principalmente o acolhimento dentro do processo.

Muitas vezes, o aluno não precisava só de treino – precisava de alguém que acreditasse nele e conduzisse com consistência.

Fernanda: Quais são os principais desafios ao trabalhar com alunos que apresentam questões emocionais? Como a relação entre profissional e aluno influencia o engajamento nesses casos?

Eliz Dorneles: Os principais desafios são: falta de constância, oscilação de motivação, autossabotagem, expectativas irreais. Nesses casos, o vínculo é tudo. Quando o aluno confia no profissional, ele tende a permanecer mesmo nos dias difíceis. A relação precisa ser baseada em empatia, firmeza e coerência. Não é sobre “passar treino”, é sobre sustentar o processo junto com o aluno.

Fernanda: Você acredita que há uma aproximação possível entre profissionais da educação física e da psicologia? Como essa integração poderia beneficiar ainda mais os alunos?

Eliz Dorneles: Sim, acredito totalmente nessa integração. Inclusive, considero essencial. Seria um sonho se houvesse possibilidade da comunicação entre os profissionais, o aluno ganharia um acompanhamento muito mais completo. O psicólogo trabalha questões internas e emocionais, enquanto o profissional de educação física estrutura o comportamento e a ação no dia a dia. Isso potencializaria resultados e evitaria abandono.

Fernanda: De que forma o exercício físico pode contribuir para a construção da autoestima, e existe o risco de ele também reforçar inseguranças? 

Eliz Dorneles: O exercício contribui muito para a autoestima porque gera sensação de evolução, capacidade e autocuidado. Porém, existe sim o risco de reforçar inseguranças, principalmente quando o foco é exclusivamente estético, comparações ou padrões irreais. Por isso, eu trabalho muito a consciência corporal e valorização do processo, não apenas do resultado.

Fernanda: Pensando na sua vivência profissional, o que você considera essencial para promover não apenas mudanças físicas, mas também um cuidado mais integral com o indivíduo?

Eliz Dorneles: O essencial é: individualização do treino, vínculo, escuta ativa, adaptação à rotina real do aluno, consistência, educação do aluno (ele entender o processo). Além disso, considero fundamental olhar para fatores como sono, alimentação, estresse e contexto emocional. O treino sozinho não resolve, ele precisa estar integrado à vida.

Fernanda: Que mensagem você deixaria para pessoas que desejam iniciar uma rotina de exercícios, mas enfrentam dificuldades emocionais ou psicológicas para dar o primeiro passo?

Eliz Dorneles: Não espere estar motivado para começar. Comece mesmo sem vontade. O primeiro passo não precisa ser perfeito, precisa ser possível. Pequenas ações consistentes geram grandes mudanças. E principalmente: procure um ambiente e um profissional que te acolha, não que te pressione. Você não precisa dar conta de tudo sozinho.

Elizângela da Silva Dorneles 

Especialista em Reabilitação e Grupos Especiais 

Personal Trainer 

Cref – TO/GO 000818

ENCERRAMENTO

Agradeço à Eliz pela disponibilidade em compartilhar sua experiência e contribuir para essa reflexão sobre a relação entre exercício físico e saúde mental.

CRÉDITOS

Entrevistadora: Fernanda Bazana Martinez
Curso: Psicologia
Data: 05/08/2026

Compartilhe este conteúdo: