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As Cores da Utopia: da arte à loucura

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.”
Friedrich Nietzsche

Arte: Reginaldo Bonfim

“As Cores da Utopia”, é o titulo do documentário produzido e dirigido por Júlio Nascimento em 2011, narra a história do artista plástico baiano Reginaldo Bonfim – O Louco.

Reginaldo Bonfim (Salvador, 1950 – 2007) pintava desde os cinco anos de idade e seu trabalho sempre chamou a atenção de todos. Chegou a fazer o Curso Livre da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), mas não se limitou à técnica. Destacava-se pela habilidade de pintar com o que tivesse à mão. Era capaz de variar entre todas as escolas, dominando com excelência as mais variadas técnicas e estilos, com um jeito único de brincar com as cores.

Seu destaque e notoriedade na cidade de Salvador – BA, rendeu-lhe a oportunidade de apresentar seu trabalho em um programa de TV, no Rio de Janeiro. Nesse período teve uma crise. Reginaldo Bonfim foi então diagnosticado com esquizofrenia, passou a ser alvo que fortes críticas e resistência da sociedade, principalmente em Salvador, sua cidade natal. Seu comportamento de falar sozinho enquanto pintava era tido como “excêntrico”.

O documentário traz o retrato de um Reginaldo que possuía um traçado livre, e uma liberdade Ímpar na sua pintura. Suas telas são um retrato fiel da história do Brasil, em especial sobre a questão social e a condição do negro. Engana-se quem se deixa levar pela esquizofrenia de Reginaldo Bonfim, mas é bom que se deixe, afinal é preciso ser louco para aventurar-se a pintar um Brasil com essas formas e cores.

Um fato interessante abordado no documentário, é que os clientes de Reginaldo se aproveitavam de seus momentos de delírio para pagar valores mínimos por seus quadros, beneficiando-se da sua insanidade. Comportamento que me fazem indagar quem é o normal? O que caracteriza uma pessoa como louca?

A imparcialidade do Brasil no enfrentamento à questão do sofrimento mental não é novidade. É preciso frisar que a questão não era uma peculiaridade do nosso país, pois a falta de políticas nessa área foi por séculos uma demanda de proporção global, mas, como no resto do mundo, a sociedade brasileira sempre omitiu seu papel de responsabilidade, e preferiu ignorar a situação do louco a enfrentá-la. As políticas nacionais de Saúde Mental são muito recentes. Os primeiros mecanismos eficientes e que proíbem a instauração de manicômios no Brasil datam de 2001.

E não há como negar, e nem a quem culpar. A sociedade só repetiu com Reginaldo o que já vinha fazendo há muito tempo com o sofrimento mental, rotulando-o de louco, asilando-o e o entupindo de medicamentos, de forma frenética e descontrolada.

Reginaldo Bonfim foi apenas mais um, de muitos, que sofreram as consequências de viver em uma sociedade pouco preparada para lidar com o sofrimento mental, e que, até certo momento da história, não se engajou e/ou não viu necessidade de se engajar nesse processo. O homem que hoje é relembrado como: gênio talentoso; crítico social; e artista referência foi, na verdade, ridicularizado e rotulado de “esquisito” por muitos. Pois só bastou o diagnóstico de um comportamento esquizofrênico para que o Artista sumisse, dando lugar ao Louco. E este persistiu e persiste até hoje, mas há também que se pensar no ganho positivo, o trabalho de Bonfim é sem duvida creditado por essa loucura que permite, dentre outras coisas, esse debate que aqui se faz à cerca da condição do louco.

O filme mostra ainda um outro lado, o do emprenho da família de Reginaldo que sempre o apoiou, e esteve ao seu lado. Mesmo entendendo pouco do que era essa esquizofrenia seus familiares nunca lhe voltaram às costas. Na história da loucura isso é um fator incomum, e talvez sem o apoio de sua família, como aconteceu com muitos que se viram abandonados em asilos psiquiátricos, sem amparo algum, Reginaldo tivesse conhecido um destino diferente, e bem menos feliz.

A pintura era, sem sombra de dúvida, sua ponte de ligação com o mundo. Quer fosse pintando suas belas negras de lábios carnudos, suas paisagens tropicais ou o Menino Jesus rodeado por todos os seus santos e anjos, a pintura era sua maneira peculiar de lidar com o mundo. Reginaldo não parava de produzir, nem mesmo em momentos de crise, e sonhava um dia poder abrir um museu para expor toda a beleza de seu trabalho.

Arte: Reginaldo Bonfim

O documentário traz um pintor vigoroso, com hábito de pintar à noite (relatado pelo próprio Reginaldo como o horário do dia de maior inspiração), e com verdadeira devoção por um inseparável macacão, sua armadura. São Ideias de Referência de um homem acometido por sua esquizofrenia, ou um capricho de excentricidade do pintor? Ainda me questiono qual a real diferença entre ambos? Se é que existem. E aqui está o perigo da patologização que tem sido disseminada e difundia passivamente por todas as camadas da sociedade, pois é mais fácil justificar nossas ações por meio de uma doença, como se nós todos fossemos vítimas, totalmente passivos e alheios à nossa própria vontade, que aceitar a verdade por trás dos fatos, e assumir nossa culpa e responsabilidade pelos nossos atos.

Não muito diferente de um Dom Quixote, mas que empunha um pincel, Reginaldo Bonfim era um personagem, que usou e abusou do louco, para dar visão e notoriedade ao artista. E quem garante que ele não se divertiu?

A impressão que eu trouxe comigo ao fim do documentário é a de que, mesmo imerso em sua loucura, Reginaldo Bonfim era tão normal quanto outras pessoas que já conheci. Na verdade, precisa-se de certa dose de loucura para desafiar qualquer modelo de ordem, para ser livre, para ser grande, para ser artista. Eu não saberia dizer se o trabalho de Reginaldo teria sido o mesmo se ele não fosse Louco.

FICHA TÉCNICA DO FILME:

AS CORES DA UTOPIA

Diretor: Julio Nascimento
Roteiro: Julio Nascimento
Ano: 2011
País: Brasil
Gênero: Documentário