A psicopatia é compreendida, na literatura psicológica e psiquiátrica, como um transtorno de personalidade caracterizado por padrões persistentes de manipulação, afetividade superficial, ausência de culpa e dificuldade em estabelecer vínculos genuínos. Esses aspectos são amplamente discutidos por Ana Beatriz Barbosa Silva (2018), que destaca como indivíduos com esses traços circulam socialmente de forma discreta, ocupando papéis comuns no cotidiano. Movida pela curiosidade de entender mais profundamente esse funcionamento emocional, iniciei a leitura de “Mentes Perigosas: O psicopata mora ao lado” (2018), interessada em compreender o que sustenta comportamentos marcados pela frieza e pela falta de sensibilidade afetiva.
A autora, que é médica psiquiatra, apresenta o tema de forma clara, unindo seu olhar clínico à capacidade de traduzir conceitos complexos de maneira simples. Ela mostra que os psicopatas não são necessariamente assassinos ou criminosos, mas que estão inseridos em nosso convívio, ocupando papéis sociais comuns, como colegas, chefes, parceiros, vizinhos, e é justamente isso que os torna tão perigosos. Eles sabem distinguir o certo do errado, mas não sentem culpa, arrependimento, nem compaixão. Usam o outro como instrumento para satisfazer seus próprios desejos e veem as pessoas como meios, não como fins.
Ao longo da leitura, a autora não tenta justificar a psicopatia, mas compreendê-la. Sob o olhar da psiquiatria, ela explica que a ausência de empatia não surge de traumas ou sofrimentos, mas faz parte da estrutura de personalidade dessas pessoas. É um tema difícil, principalmente para quem tende a acreditar que todo comportamento ruim tem uma razão emocional, mas Ana Beatriz mostra que nem sempre é assim.
O livro também traz uma reflexão sobre a sociedade atual. Vivemos em um mundo que valoriza o sucesso, a competitividade e o poder, o que faz com que comportamentos frios e calculistas sejam, muitas vezes, admirados. A falta de empatia passa a ser confundida com força emocional, e a frieza com competência. O livro reflete sobre como certos valores sociais acabam reforçando padrões desumanizados de convivência.
A autora une teoria e realidade a partir de sua experiência clínica, apresentando exemplos práticos, como relações abusivas, ambientes de trabalho tóxicos e manipulações emocionais que mostram o quanto esses comportamentos podem se disfarçar de normalidade. Isso aproxima o leitor do tema e o ajuda a desenvolver um olhar mais atento para o próprio cotidiano.
Mentes Perigosas é um livro sobre psicopatia, mas também um convite à reflexão sobre o que nos torna humanos. A partir do olhar da autora, somos levados a pensar sobre o vazio afetivo de algumas pessoas e sobre a importância de preservar em nós o que ainda nos conecta aos outros: a empatia, a consciência e o respeito. A leitura desperta desconforto, mas também provoca reflexão sobre o tipo de sociedade que estamos construindo e sobre como podemos manter nossa humanidade em meio a tantas relações adoecidas. Embora o livro traga um olhar da psiquiatria, voltado para a identificação e descrição da psicopatia, é interessante pensar também na perspectiva da Psicologia, que busca compreender os comportamentos humanos em seus contextos emocionais e sociais. A leitura, portanto, pode ser entendida como um convite para refletir sobre o funcionamento humano, sem se limitar às classificações clínicas, mas considerando também os aspectos relacionais, históricos e afetivos que compõem cada sujeito.
FICHA TÉCNICA
Título: Mentes perigosas o psicopata mora ao lado
Autora: Ana Beatriz Barbosa Silva
Editora: Globo S.A
Data de publicação: 24 de outubro de 2018
Número de páginas: 288 páginas
Gênero: Comportamento humano
ISBN 9788525067326
