O Black Power de Akin: literatura, infância e identidade negra

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Em que momento uma criança aprende que há alguma coisa errada em seu cabelo? Quando passa a perceber que um traço de seu corpo, até então simplesmente seu, pode ser motivo de riso, comentário ou rejeição?

A pergunta permanece depois da leitura de “O Black Power de Akin”, de Kiusam de Oliveira, com ilustrações e projeto gráfico de Rodrigo Andrade. Publicado em 2020, o livro apresenta Akin, um menino negro de 12 anos que vai à escola usando um boné para esconder o cabelo. O motivo ele não conta ao avô, Dito Pereira: os fios crespos se tornaram alvo das chacotas dos colegas. O boné, então, deixa de ser apenas um acessório. Há algo sendo escondido ali.

Talvez seja esse um dos pontos mais dolorosos da história… ninguém nasce rejeitando os próprios traços. Há um aprendizado anterior. Antes de uma criança desejar esconder o cabelo ou acreditar que seria mais bonita se fosse diferente, alguma coisa aconteceu no caminho. Uma palavra, uma piada, uma comparação. Muitas vezes, várias delas. E o mesmo pode ser pensado sobre quem aprende a transformar a diferença do outro em motivo de riso.

A Análise do Comportamento ajuda a compreender esse processo. Mizael e de Rose (2017), ao discutirem o preconceito racial a partir de uma perspectiva analítico-comportamental, mostram como atitudes e crenças estão relacionadas às contingências sociais e às comunidades verbais das quais fazemos parte. Nem tudo precisa ser ensinado de maneira direta, relações preconceituosas também podem ser construídas a partir de associações aprendidas ao longo da vida.

Isso nos faz olhar de outra maneira para as ‘chacotas’ dirigidas a Akin. Elas não surgem do nada. Aquilo que uma criança ouve, observa e vê sendo repetido ou aceito nas relações cotidianas participa do que ela aprende sobre as pessoas. Piadas, comentários, imagens, representações e até silêncios ajudam a compor esse ambiente.

Do outro lado está Akin, que começa a esconder justamente aquilo que os colegas transformaram em motivo de constrangimento.

Por isso, seria pouco dizer que “O Black Power de Akin” é uma história sobre aprender a gostar do próprio cabelo. Antes de perguntar por que Akin não gostava de seus fios, talvez seja mais importante perguntar o que aconteceu para que um menino de 12 anos aprendesse que precisava escondê-los. É aí que Seu Dito ganha um lugar fundamental na narrativa.

Ao perceber o sofrimento do neto, o avô não oferece apenas um elogio. Oferece histórias. Por meio delas, Akin se aproxima de seus antepassados, de sua memória familiar e de outras referências para compreender quem é. O que havia sido transformado em motivo de vergonha começa a adquirir outro significado. Akin não precisava apenas ouvir que seu cabelo era bonito. Precisava saber que pertencia.

Há ainda algo especialmente significativo nessa relação, temos um menino negro no centro da narrativa e um homem negro ocupando o lugar do cuidado, da escuta e da transmissão de memória. Seu Dito percebe o sofrimento do neto, acolhe sua fragilidade e permanece ao seu lado. Para meninos negros, encontrar essas duas experiências representadas na literatura também importa.

Quando falamos em representatividade, talvez não baste perguntar se uma criança consegue encontrar alguém parecido com ela em um livro. É preciso perguntar também que possibilidades de existência são oferecidas a essa personagem.

Akin pode sofrer, pode sentir vergonha, pode precisar de ajuda, pode ser cuidado. E Seu Dito pode ser um homem que acolhe, demonstra afeto e compartilha histórias. São representações de meninos e homens negros que escapam de imagens muito estreitas de força, dureza ou ausência de vulnerabilidade.

A literatura infantil tem um papel importante na ampliação desse repertório. Crianças negras precisam encontrar livros que falem sobre racismo, mas não podem aparecer nas histórias somente quando o assunto é racismo. Precisam brincar, imaginar, descobrir o mundo, ter família, sentir medo, viver aventuras, receber cuidado. Precisam existir nas páginas em toda a complexidade que uma infância comporta.

E isso não diz respeito somente às crianças negras. Se aprendemos também nas relações e referências que nos cercam, as histórias que uma criança lê participam do repertório a partir do qual ela conhece pessoas e modos de existir diferentes dos seus.

É nesse sentido que “O Black Power de Akin” também pode ser uma porta de entrada para a obra de Kiusam de Oliveira. Pedagoga, mestre em Psicologia e doutora em Educação, a escritora tem uma trajetória ligada à educação das relações étnico-raciais e construiu uma produção literária na qual crianças negras, ancestralidade, corpo, memória e pertencimento ocupam lugares importantes.

Depois de Akin, vale conhecer Tayó, de O mundo no black power de Tayó, menina que encontra no cabelo crespo beleza, imaginação e ancestralidade. Há ainda Com qual penteado eu vou?, em que cabelos, família e memória se encontram em uma celebração, e Omo-Oba: histórias de princesas e príncipes, que aproxima os leitores de narrativas e referências de matriz iorubá.

Continuar lendo Kiusam também permite perceber algo importante, pois seus personagens negros não existem apenas para explicar o racismo, eles têm histórias.

No início de “O Black Power de Akin”, encontramos um menino escondendo o cabelo sob um boné. É uma imagem simples, mas difícil de esquecer, uma criança tentando tornar menos visível uma parte de si porque aprendeu que mostrá-la poderia trazer constrangimento.

Ao longo da narrativa, esse movimento começa a mudar. Não porque Akin tenha simplesmente aprendido uma lição sobre autoestima, mas porque outras referências sobre quem ele é lhe foram apresentadas. A literatura, sozinha, não desfaz o racismo. Mas histórias fazem parte do mundo em que crianças aprendem a olhar para si e para os outros. Podem repetir ausências e estereótipos ou apresentar outras formas de existir.

Talvez por isso Akin seja um encontro tão necessário… e também um convite para que outras histórias venham depois dele.

Referências

MEDRADO MIZAEL, Táhcita; DE ROSE, Júlio César. Análise do comportamento e preconceito racial: Possibilidades de interpretação e desafios. Acta Comportamentalia, [S. l.], v. 25, n. 3, 2017. DOI: 10.32870/ac.v25i3.61632. Disponível em: https://actacomportamentalia.cucba.udg.mx/index.php/acom/article/view/61632. Acesso em: 17 set. 2026.

OLIVEIRA, Kiusam de. O Black Power de Akin. São Paulo: Cultura de Cultura, 2020.

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Graduada em Letras e Mestra em Ensino de Língua e Literatura pela UFT. Acadêmica de Psicologia da ULBRA Palmas.

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