Algumas histórias desaparecem dos livros, mas não deixam de existir. Permanecem dispersas em fotografias, documentos, relatos fragmentados e silêncios familiares. Às vezes, basta um vestígio para que elas retornem. Em “O som do rugido da onça”, Micheliny Verunschk parte de um episódio histórico ocorrido no século XIX para construir um romance que se move justamente nessa direção: não a de recuperar integralmente o passado, mas a de aproximar-se daquilo que foi interrompido, apagado ou deixado à margem da narrativa oficial.
Publicado em 2021, o livro toma como ponto de partida a viagem dos naturalistas alemães Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius pelo Brasil. Ao retornarem à Europa, levaram consigo milhares de espécimes da fauna e da flora tropicais. Entre eles estavam também duas crianças indígenas: Juri e Iñe-e. Arrancados de seu território e de seus vínculos, os dois atravessaram o oceano para serem exibidos em Munique como curiosidades exóticas. Morreram pouco tempo depois, longe da floresta e das pessoas que conheciam.
A história poderia ser contada a partir dos exploradores, como tantas vezes aconteceu. Micheliny escolhe outro caminho. Seu romance desloca o foco para aqueles que quase desapareceram dos registros e devolve centralidade às vidas que a história transformou em nota de rodapé.
Os que foram levados
Em ‘Metade cara, metade máscara’, Eliane Potiguara (2004) escreve sobre as consequências da invasão das terras indígenas e dos deslocamentos impostos aos povos originários. Seu texto mostra que a violência colonial não se limita à ocupação dos territórios. Ela produz migrações forçadas, rompe laços comunitários, enfraquece referências culturais e atinge profundamente a construção das identidades indígenas.
A aproximação com o romance de Micheliny surge justamente nesse ponto. Juri e Iñe-e não perdem apenas um lugar geográfico. O que lhes é retirado inclui a língua, os afetos, os costumes e os modos de compreender o mundo. A travessia para a Europa transforma seus corpos em objetos de observação científica. As crianças passam a ocupar um espaço semelhante ao dos animais e plantas recolhidos durante a expedição, como se fossem mais uma peça destinada aos gabinetes de curiosidades europeus.
Essa violência não aparece no romance apenas como acontecimento histórico. Ela atravessa a narrativa como uma ferida que continua produzindo efeitos muito depois da morte das duas crianças.
O rosto da menina
Mas “O som do rugido da onça” não é apenas um romance sobre o passado. Em outro núcleo narrativo, acompanhamos Josefa, uma mulher que vive no Brasil contemporâneo e que, ao encontrar imagens de Iñe-e, inicia uma busca que parece ultrapassar a simples curiosidade histórica.
Em uma das passagens mais bonitas do livro, Micheliny escreve “Ela olha a menina e é seu próprio rosto que vê” (p. 109). A frase produz um deslocamento importante na narrativa. Josefa já não observa apenas uma personagem histórica. Ao reconhecer algo de si naquela imagem, passa a confrontar questões ligadas à própria trajetória.
Pouco depois, a personagem deseja compreender “por que o apagamento da herança indígena da família da mãe tinha sido necessário e tão eficaz” (p. 110). A busca pelas duas crianças transforma-se, então, numa busca por si mesma.
É nesse ponto que o romance alcança uma dimensão particularmente sensível. O apagamento colonial deixa de ser percebido apenas como um evento ocorrido no passado e passa a aparecer como uma experiência que continua atravessando famílias, memórias e identidades no presente.
Vestígios
Em diversos momentos, Josefa não sabe exatamente o que procura. Ela segue imagens, documentos e rastros dispersos. Em determinado trecho, Micheliny escreve que a personagem “não sabe exatamente que vestígios segue” (p. 110).
A palavra parece resumir boa parte da experiência proposta pelo romance.
Vestígios são aquilo que permanece quando quase tudo desapareceu.
Um retrato.
Uma fotografia.
Uma lembrança.
Uma história contada pela avó.
Um nome.
A literatura de Micheliny parece interessar-se justamente por esses restos. Não para preencher todas as lacunas da história, mas para mostrar que elas existem.
Ao contrário de muitas narrativas históricas, “O som do rugido da onça” não tenta organizar completamente o passado. Há espaço para o silêncio, para o sonho, para o mistério e para aquilo que não pode ser plenamente recuperado.
Talvez por isso a presença da floresta e da onça seja tão importante. Ambas ultrapassam a condição de cenário e participam da narrativa como forças vivas, lembrando que existem formas de conhecimento que escapam às classificações produzidas pela racionalidade colonial.
Histórias que voltam da floresta
Ao escrever sobre invasão, migração e apagamento, Eliane Potiguara chama atenção para os efeitos prolongados da violência colonial sobre os povos indígenas. Micheliny Verunschk parece caminhar por uma direção semelhante, mas através da ficção.
Seu romance devolve rosto a quem foi transformado em objeto, devolve nome a quem foi reduzido a registro e devolve história a quem foi empurrado para as margens da memória coletiva.
Talvez seja esse o movimento mais bonito do livro.
Não o de reconstruir integralmente aquilo que foi perdido, tarefa impossível, mas o de criar condições para que certas histórias possam voltar a ser ouvidas.
Ao final da leitura, permanece a sensação de que Juri e Iñe-e não retornam apenas como personagens. Retornam como perguntas. Sobre o que foi levado. Sobre o que permaneceu. E sobre tudo aquilo que ainda seguimos tentando reencontrar.
Referências
POTIGUARA, Eliane. Metade cara, metade máscara. São Paulo: Global, 2004.
VERUNSCHK, Micheliny. O som do rugido da onça. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
