No documentário Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime, a narrativa não se organiza apenas em torno do assassinato de Marcos Matsunaga, mas também da tentativa de compreender os acontecimentos que antecederam o crime. Ao longo dos episódios, Elize relata uma relação marcada por traições, humilhações, ameaças e conflitos cada vez mais intensos, especialmente quando a possibilidade de separação e a disputa pela filha passam a atravessar o casamento. Esses relatos não anulam a gravidade do crime cometido, nem devem ser usados como justificativa para o homicídio. No entanto, ajudam a compreender o ambiente de tensão apresentado pelo documentário e abrem uma questão importante: de que modo a palavra de uma mulher, quando denuncia violência, sofrimento ou medo, pode ser rapidamente colocada sob suspeita?
É nesse contexto que a fala do reverendo anglicano René Henrique Götz Licht ganha relevância. Ao relatar que havia conversado com Marcos sobre a possibilidade de buscar uma intervenção psiquiátrica para Elize, ele aparece não apenas como alguém próximo ao casal, mas como uma figura de autoridade moral e religiosa que participa da leitura feita sobre aquela mulher e sobre sua crise. O problema não está em negar a importância do cuidado em saúde mental, mas em observar como, historicamente, a loucura foi muitas vezes usada para nomear mulheres que contrariavam expectativas de obediência, docilidade e controle emocional. A misoginia, nesse sentido, não se manifesta apenas no ódio explícito às mulheres, mas também nas formas de desautorizar sua fala, transformar sua reação em descontrole e tratar sua autonomia como ameaça.
Essa lógica também aparece na ficção brasileira. Em O Outro Lado do Paraíso, Clara é dopada, enganada e internada em um hospício por interesses familiares e patrimoniais. A cena é forte justamente porque mostra a internação não como cuidado, mas como estratégia de apagamento: a mulher deixa de ser ouvida como sujeito e passa a ser tratada como alguém cuja palavra já nasce desacreditada. A ficção dramatiza essa violência de forma direta, mas toca em um ponto historicamente reconhecível: a facilidade com que a imagem da mulher “louca” pode ser mobilizada para interromper sua fala, controlar sua circulação e retirar dela o direito de decidir sobre a própria vida.
No campo histórico, essa relação entre feminilidade, loucura e controle institucional aparece de maneira mais complexa e concreta. Estudos sobre psiquiatria e gênero no Brasil mostram que a sexualidade, a autonomia e os comportamentos femininos considerados desviantes foram frequentemente associados à histeria, à instabilidade moral e à necessidade de intervenção médica ou manicomial (Engel, 2001; Nunes, 2010). Trajetórias como a de Stella do Patrocínio e a memória do Hospital Colônia de Barbacena evidenciam que o manicômio, muitas vezes, funcionou como destino para sujeitos considerados incômodos, pobres, racializados, desviantes ou inadequados à ordem familiar e social (Arbex, 2013; Silva; Garcia, 2019). Esses exemplos não são equivalentes ao caso de Elize Matsunaga, mas ajudam a iluminar uma mesma estrutura: a loucura, em muitos contextos, foi usada como linguagem para retirar de mulheres o direito à própria narrativa.
Trazer essa discussão para o presente é importante porque o silenciamento feminino não depende, necessariamente, dos antigos manicômios para continuar existindo. Hoje, ele pode aparecer em formas mais sutis, mas ainda eficazes: quando a mulher que denuncia é chamada de exagerada; quando sua reação é tratada como prova de desequilíbrio; quando sua maternidade é usada contra ela; ou quando sua dor passa a valer menos porque foi nomeada como instabilidade emocional. A lógica não é a mesma da institucionalização manicomial, mas preserva algo semelhante: a tentativa de deslocar a fala da mulher do campo da denúncia, do conflito ou da violência para o campo da suspeita sobre sua sanidade.
Nesse sentido, o documentário sobre Elize Matsunaga não permite uma leitura simples. Ele não apaga a responsabilidade dela pelo crime cometido, mas expõe uma estrutura social incômoda: a facilidade com que a loucura ainda pode ser convocada para explicar, conter ou deslegitimar mulheres que rompem o lugar esperado. A questão, portanto, não é negar a existência do sofrimento psíquico, mas perguntar quem tem o poder de nomeá-lo, em que contexto essa nomeação acontece e quais vidas são silenciadas quando a palavra de uma mulher deixa de ser escutada como palavra e passa a ser tratada apenas como sintoma.
REFERÊNCIAS
ARBEX, Daniela. Holocausto brasileiro. São Paulo: Geração Editorial, 2013.
CAPAI, Eliza (dir.). Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime. Brasil: Boutique Filmes; Netflix, 2021. Série documental.
ENGEL, Magali. Psiquiatria e feminilidade. In: DEL PRIORE, Mary; BASSANEZI, Carla (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2001. p. 322-361.
GLOBOPLAY. O Outro Lado do Paraíso: Sophia engana Clara e a interna no hospício. Brasil: TV Globo, 2017. 1 vídeo, 7 min.
MANNE, Kate. Down Girl: The Logic of Misogyny. New York: Oxford University Press, 2018.
NUNES, Sílvia Alexim. Histeria e psiquiatria no Brasil da Primeira República. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 17, supl. 2, p. 373-389, 2010.
SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.
SILVA, Thaiga Danielle Saldanha Momberg; GARCIA, Marcos Roberto Vieira. Mulheres e loucura: a (des)institucionalização e as (re)invenções do feminino na saúde mental. Psicologia em Pesquisa, Juiz de Fora, v. 13, n. 1, 2019.
UOL. Em entrevista à TV, reverendo diz ter aconselhado Marcos Matsunaga a procurar psiquiatra para a mulher. UOL Notícias, São Paulo, 6 jan. 2013.
