Tarantino revela alterego e nostalgia pós-moderna no filme “Era uma Vez em… Hollywood”

Todo o filme é uma ode elegíaca para uma época que Tarantino conheceu unicamente através de filmes e livros.

Quentin Tarantino nunca frequentou uma escola de cinema. Ele viu filmes. Mais do que isso. O que move Tarantino é a sua nostalgia cultural pós-moderna: ele não sente saudades de eras e momentos em que viveu. É nostálgico por tudo que apenas viu em filmes, TV e livros. Saudades daquilo que não viveu. “Era Uma Vez em… Hollywood” (Once Upon a Time… in Hollywood, 2019) é o paroxismo de toda a sua carreira cinematográfica: ambientado na cena de 1969 em que a velha Hollywood do “Studio System” com seus Westerns no cinema e TV desaparecia para dar lugar a Bruce Lee, Steve McQueen, Roman Polanski e a beleza trágica de Sharon Tate – assinada em um massacre perpetrado pela “Família Mason” liderada pelo guru Charles Mason. Sob camadas e camadas de iconografia pop, alusões e intertextualidades, Tarantino não só cria uma nostalgia hiper-real mas faz o filme mais metalinguístico de todos: a ansiedade do protagonista que não sabe o que fazer no futuro é o alterego do próprio diretor – como se reiventar agora, se a nostalgia pós-moderna acredita que o cinema já mostrou tudo o que era mais importante?  

Quando perguntam para o diretor Quentin Tarantino se ele foi para alguma escola de cinema, ele responde: “Não, eu fui ao cinema e assisti filmes”. É essa educação cinematográfica através do projetor cinematográfico que expressa a cada filme: o cuidado na composição dos enquadramentos, a precisa marcação de cena em cada sequência, os longos planos com diálogos prolíxos, a forma como Tarantino enche cada plano com alusões à iconografia pop etc. 

Mas também Tarantino é movido por uma nostalgia cultural. É o seu princípio orientador, sua ideologia: por assim dizer, uma nostalgia pós-moderna. Se no seu sentido estrito, nostalgia quer dizer sentir saudades de épocas e experiências que foram vivenciadas, como explicar a “nostalgia cultural”? – saudades de épocas e lugares que não foram vividos, mas apenas conhecidos através do cinema, livros e audiovisual.

Western Spaghetti dos anos 1960, filmes de Kung Fu com o astro Bruce Lee nos anos 1970, os clássicos cowboys da era de ouro do faroeste, as séries de TV dos anos 50 e 60, assim como toda a trilha sonora dessa época, da surf music e flower power californiano até os clássicos do funk e soul music da Motown, foram vistas por Tarantino através da cultura pop.

Assim como esse humilde blogueiro, com a mesma idade de Tarantino, o diretor não vivenciou essas épocas – vivia naquele momento a infância e pré-adolescência, incapaz de compreender ou fruir o contexto cultural daqueles tempos. Seu conhecimento é a posteriori, por meio de camadas e camadas de alusões, paráfrases e muita iconificação pop – estilização de épocas que não foram vividas.

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O passado transformando em iconografia, assim como quando entramos em algum bar temático dos anos 1950, com máquinas jukebox, servindo hambúrgueres artesanais vintage.

É essa a ontologia cinematográfica de Tarantino (a nostalgia cultural pós-moderna) que se deve ter em mente ao assistir o seu último filme Era Uma Vez em… Hollywood (Once Upon a Time… in Hollywood, 2019). De início, as reticências do título são uma alusão irônica a um filme clássico do Western Spaghetti do italiano Sérgio Leone Era Uma Vez no Oeste (C’era uma volta il West, 1968).

Todo o filme é uma ode elegíaca para uma época que Tarantino conheceu unicamente através de filmes e livros. A maior parte do filme foi concebida para ser um instantâneo da indústria do cinema no final dos anos 1960. O momento em que o chamado “Studio System” estrava em crise financeira e todo um modelo de negócio já não era mais rentável – a concentração da produção, distribuição e promoção em um único estúdio. Esse é um dado histórico.

Mas Era uma Vez em… Hollywood não é tanto sobre uma era, mas sobre os filmes que falam sobre aquela época – é uma narrativa fora da realidade, estilizada (ou hiper-real) capturando um tempo através do ponto de vista de filmes de celebridades e a cultura pop, muito mais do que dos historiadores. 

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Por isso, é um filme excelente não só para conhecer o modus operandi de Tarantino que tanto o imortalizou. Mas principalmente para nos aprofundar na paradoxal natureza da nostalgia pós-moderna, como fenômeno sociológico e cultural.

O Filme

Toda a história acontece em um fim de semana de fevereiro de 1969. O filme traça uma linha muito clara sobre o fim de uma era clássica: os grandes estúdios entravam numa crise financeira devido à dificuldade de acompanhar os tempos de mudanças rápidas, tanto nos negócios como na cultura pop. 

Tudo gira em torno da convergência de acontecimentos e personagens que, meses depois, estariam na cena que, emblematicamente, marcaria o fim do sonho hippie dos anos 1960: o assassinato da atriz Sharon Tate em um brutal massacre na mansão do diretor Roman Polanski, perpetrado pela chamada “Família Manson”, liderada pelo guru enlouquecido Charles Manson.

Esses finais de eras são sintetizados na dupla Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e Cliff Both (Brad Pitt). Rick era um astro de TV em uma série de bang-bang chamada “O Caçador de Recompensas” (“Bounty Law”). Agora, está na decadência que acompanha a própria crise do gênero. Apenas encontra papéis de vilões em filmes B, onde sua caracterização deve ser cada vez mais análoga a de um hippie, e não mais como os cowboys de antigamente.

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E Both era o seu dublê – um veterano de guerra durão e cheio de cicatrizes. Sem trabalho, acabou se tornando um faz tudo para tarefas do dia-a-dia no casarão de Rick.

Rick é relutante em seguir os conselhos do agente de atores Marvin Shwarzs (Al Pacino): ele deve morar na Itália para estrelar filmes do “Western Spaghetti”, uma espécie de revival italiano do gênero.

Enquanto Rick é ansioso e atormentado, Cliff é muito mais descontraído: é um cara que ama seu cachorro tanto quanto Rick. Vive num trailer e diz o que quer dizer na cara do Bruce Lee (Mike Moh) nos sets de filmagem da série “Besouro Verde”. Bruce Lee é uma das recriações fictícias de Tarantino que preenchem o mundo em torno, assim como os rostos famosos de Steve McQueen (Damian Lewis), James Stacy (Timothy Oliphant) e Sharon Tate (Margot Robbie).

A nostalgia estilizada e hiper-real de Tarantino (a busca de momentos emblemáticos que marquem o fim da “Era de Ouro” de Hollywood) está explicitamente presente em dois momentos. Primeiro, quando Cliff encontra um velho conhecido das filmagem dos westerns morando nas ruínas dos cenários de antigas produções (o “Spahn Ranch”), agora ocupada por hippies que formariam mais tarde a infame “Família Manson”.

E segundo, o vislumbre de felicidade otimista de Hollywood (a inocência de Sharon Tate, aqui transformada numa espécie de Barbie ingênua), quando ela vai ao cinema para assistir uma produção em que estrela (Arma Secreta Contra Matt Helm – The Wrecking Crew, 1969), coloca enormes óculos e põem os pés descalços e sujos sobre o encosto da poltrona para se deliciar com as risadas da plateia, ou quando vemos Sharon Tate dançando bobamente em uma festa na mansão da Playboy, alheia ao cenário misógino e machista da pornografia hollywoodiana.

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Nostalgia hiper-real

Grande parte do filme é preenchido com cenas que mostram o deleite pelo fetichismo visual de Tarantino sobre épocas que acabaram e nas quais não viveu: Cliff dirigindo um grande sedan com Rick, através das alamedas da cidade, apenas para mostrar o incrível design de produção, as músicas dos anos 1960 nas rádios, o desfile de carros clássicos e a moda Swinging London psicodélica e minissaias dos jovens que andam pelas calçadas.

Mas, sobretudo, Era Uma Vez em… Hollywood é o filme mais metalinguístico do diretor: além de explicitamente tematizar sua própria nostalgia pós-moderna, parece transformar Rick Dalton no seu alter-ego: depois desse filme, o que farei? Como se a ansiedade de Rick fosse uma extensão do próprio Tarantino – depois do conjunto fílmico hardcore Cães de Aluguel, Pulp Fiction e Bastardos Inglórios, o quê mais pode ser dito sem se repetir? Como se reinventar?

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Mas é no otimismo ingênuo da reconstrução ficcional de Sharon Tate que Tarantino busca algo de real em sua nostalgia pós-moderna: são tantas camadas de alusões, referências, intertextualidades e iconografia pop, que o diretor busca algo de verdadeiro na indústria cinematográfica.

Seu olhar de nostalgia hiper-real tenta tirar essas camadas da frente dos olhos. Mas cai em mais idealizações: a mitologia pop construída em torno de Charles Manson. No final, ele teria sido o vilão que destruiu o otimismo de uma atriz que via o cinema como verdadeiramente é.

O que fica é a única linha de diálogo que parece furar essa nostalgia pós-moderna sobre uma suposta “Era Dourada”. Próximos de invadir a mansão de Rick Dalton para iniciar a fatídica noite de crimes, uma das seguidoras de Charles Manson tem um insight: “Todos nós crescemos com a TV. Crescemos vendo assassinatos. Com exceção de I Love Lucy, todas as séries eram sobre assassinatos! Então… que tal matarmos pessoas que nos ensinaram a matar? Estamos no coração de Hollywood! Toda a geração aqui cresceu vendo assassinatos”.

Essa pode ser a oportunidade de reinvenção de Quentin Tarantino.

 

Ficha Técnica

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Título: Era Uma Vez em… Hollywood

Diretor:  Quentin Tarantino

Elenco:  Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Al Pacino, Mike Moh, Tomothy Olyphant

Produção: Bona Film Group, Heyday Films

Distribuição: Columbia Pictures

Ano: 2019

País: EUA

Wilson Roberto Vieira Ferreira
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.